Velocidade é só uma dimensão de todo o benefício do 5G, diz CEO da Ericsson no Brasil
Rodrigo Dienstmann, CEO da Ericsson para o Cone Sul da América Latina — região que reúne Brasil, Argentina, Chile, Peru e Uruguai — está à frente do plano de ampliação da fábrica brasileira da multinacional sueca, em São José dos Campos (SP), com foco em exportação. Hoje, até 40% da produção da unidade já vão para o exterior, a depender do mês.
Em entrevista ao GLOBO, o executivo fala da importância do país para uma das maiores fabricantes em equipamentos de telecomunicações do planeta e do potencial ainda não explorado do 5G, a nova geração de internet móvel. Para ele, a Reforma Trabalhista melhorou a operação da empresa no Brasil.
O 5G decepcionou em termos de velocidade?
O 5G está dentro da curva esperada. Na verdade, o Brasil ainda vai atingir 50 milhões de assinantes no 5G até o fim do ano. Uma parcela muito pequena da base está usando 5G (que demanda celular compatível). A velocidade é uma única, uma pequena dimensão de tudo que o 5G traz como benefício para o consumidor futuro e para as operadoras.
Quais os outros benefícios?
Para o mercado de videogames ou de operação remota de máquinas, baixíssima latência. Se estiver dirigindo um caminhão, uma colheitadeira ou um trator remotamente e tiver aumentado a latência, você bate, mata alguém. Essa é uma característica que só tem no 5G, mas o consumidor não vê porque ela não está sendo explorada agora. Não existe um modelo de negócio ainda, está se desenvolvendo globalmente isso.
Outra característica do 5G é a velocidade de upload. Isso o consumidor ainda não percebe claramente, mas já há clientes empresariais utilizando. Pode parecer uma decepção para quem está olhando só para o aspecto da velocidade, até porque você não sabe que velocidade você usa, a não ser que você faça speedtest. Quando você tiver aplicações mais avançadas, aí sim vai fazer uma grande diferença.
Para as empresas, já há impactos positivos das redes privativas e aplicações do 5G?
Sim, para as que adotaram. A adoção está um pouco mais devagar que o esperado há dois anos, principalmente por dois motivos. O primeiro são dispositivos nativos de 5G. São robôs, veículos autoguiados, drones, ferramental que está dentro de uma fábrica, no campo. Os fabricantes demoraram um pouco mais para adotar os dispositivos 5G nativos.
Os de dois anos atrás eram basicamente 4G com adaptador. Agora está aparecendo muito mais. O segundo ponto são os próprios processos dentro das fábricas, dos campos, que precisavam ser adaptados. Mas já existem, sim, casos muito interessantes. A maior fábrica de carros elétricos na Europa, hoje, utiliza o 5G como parte fundamental do seu processo de fabricação.
Olhando para 2025 e um pouco mais para o futuro, a empresa tem plano de ampliar investimentos no Brasil?
Ainda estamos dentro da janela dos investimentos que anunciamos há três anos, de R$ 1 bilhão em cinco anos. Temos duas linhas (de produção) hoje, estamos modernizando uma delas e detectando inclusive uma pressão importante, positiva para exportação na fábrica. Exportamos cerca de 20% a 40% da (produção da) fábrica para EUA, Índia, América Latina. E pela demanda do 5G, principalmente na América do Norte, estamos prevendo ampliar nossa fábrica para ajudar na exportação.
Além do que já havia sido anunciado?
Sim, mas não podemos falar de números porque ainda está em análise. Mas, sim, há previsão de ampliação da fábrica, da capacidade em São José dos Campos para atender o mercado de exportação.
Fazer negócios no Brasil é mais difícil?
Existe sim uma complicação de fazer negócio no Brasil, é natural. É mais caro, tem a questão da complexidade tributária, temos que ter departamentos gordos de gente analisando. Achamos que a Reforma Tributária vai demorar vários anos para dar efeito, mas vai resolver muitas dessas complicações e, consequentemente, melhorar nossa exportação.
Só para dar um exemplo prático, a Reforma Trabalhista trouxe bastante benefício, nossa operação ficou mais leve, ficou mais simples (contratar). Então essas reformas são importantes.
Quais os efeitos da Reforma Trabalhista, especificamente?
Temos uma mão de obra muito variada. Tem gente de fábrica, que trabalha em campo, tem gente que trabalha em pesquisa e desenvolvimento, tem trabalho em escritório, então é um perfil muito variado, inclusive de salários etc. E nós tínhamos um estoque de ações trabalhistas antes da reforma bem razoável, principalmente nas funções de campo, funções de fábrica.
A gente vem mês a mês, nos últimos cinco anos, vendo o número do estoque de ações trabalhistas reduzir muito. Está muito mais clara a relação trabalhista da Ericsson, dos seus colaboradores, e as condições de resolução de conflito. Isso inclusive aumenta o apetite para a gente continuar investindo. Isso melhora nosso perfil quando nós estamos disputando, na matriz, em que país se investe.
Temos hoje a única fábrica no Hemisfério Sul da Ericsson e uma das maiores em volume. É porque a gente conseguiu achar uma fórmula competitiva. Nossa fábrica é extremamente competitiva, mesmo quando comparada com outras fábricas fora do Brasil.
O Ministério das Comunicações estabeleceu uma meta de expansão do 5G para 5,5 mil municípios e 1,7 mil pequenas localidades até 2030. É possível?
Essa obrigação é das operadoras, as operadoras que compraram o espectro. Elas estão um pouquinho à frente da curva em relação a essas metas porque veem que a tecnologia é mais eficiente, tem mais possibilidades, como a programabilidade.
O que significa isso?
Os aplicativos vão poder usar APIs (conjunto de padrões e rotinas de programação que permitem a comunicação entre diferentes sistemas) da rede. Esses APIs vão dar capacidades que aumentam o poder do aplicativo. A nossa aposta é franquear essas APIs para que o fabricante do drone faça assim para um voo garantido, ou game garantido. Ou segurança, por exemplo. Um aplicativo de banco para evitar fraudes.
Ainda vai demorar para as pessoas perceberem que o 5G é muito mais do que essa questão da velocidade?
Não muito mais. As operadoras brasileiras já estão trabalhando com os casos de uso de 5G. Seja os mais simples, como, por exemplo, a banda larga residencial via 5G para cobrir cidades sem fibra. Estamos trabalhando com operadoras em remodelar a cobertura de estádios. Porque a gente sabe que, se tem uma coisa que no estádio não dá para contar é que a qualidade (da conexão móvel) está garantida.
Seja num show, seja num jogo. Então a operadora pode, com o 5G, dar para os seus clientes VIPs ou mesmo embutir no ingresso — R$ 10, por exemplo, preço de uma água — um upload garantido, tem uma rede diferenciada. A gente vai ver logo essas aplicações saindo do forno das operadoras brasileiras.
Já existe a expectativa de que o 6G comece a ser comercializado por volta de 2030. Quando acham que essa tecnologia vai chegar ao Brasil?
6G ainda não está sendo padronizado, existe bastante pesquisa e desenvolvimento independente. O que a gente pode dizer já de cara? Primeiro, que ele vai aproveitar uma quantidade de frequências muito maior. Sim, vai ter mais velocidade, isso é natural, vai ter menor latência, vai ter ainda mais programabilidade, ele vai ser uma tecnologia ainda mais poderosa que o 5G, isso já dá para afirmar.
E ele vai viabilizar alguns casos de uso mais sofisticado, como a internet dos sentidos. Toque, cheiro, temperatura. Se vai ser comercializado em 2030, não é uma obrigação, é uma expectativa. Acho que pode demorar um pouco mais, que tem muito para fazer no 5G ainda.
