V2X no Brasil: segurança, padronização e desafios da conectividade veicular
A implementação e escalabilidade da tecnologia de comunicação veicular (V2X, especificamente 5G-V2X) no Brasil foi tema de debate em um dos paineis do Movecomm 2025, realizado conjuntamente entre a TELETIME e a Mobile Time e que aconteceu nesta quinta-feira, 27, em São Paulo.
A conectividade veicular (V2X, de Vehicle-to-Everything) surge como infraestrutura essencial para a conectividade plena entre veículos. Essa tecnologia permite que veículos se comuniquem entre si e com a infraestrutura urbana, aumentando segurança e eficiência, sem a necessidade de passar pela rede pública de telecomunicações.
Hoje, dois padrões dominam o setor: DSRC (802.11p), mais antigo, baseado em Wi-Fi, amplamente usado na Europa e C-V2X, baseado em redes celulares 4G/5G, com maior alcance e integração.
O Brasil segue a tendência global e aposta no C-V2X. A Anatel já destinou 60 MHz na faixa de 5,9 GHz para aplicações veiculares, e empresas como a Qualcomm desenvolvem chipsets compatíveis com ambos os padrões para reduzir barreiras.
As aplicações são diversas: alertas de colisão com latência abaixo de 10 milissegundos, avisos de frenagem brusca, detecção preditiva de risco via inteligência artificial e muito mais — distribuídos em canais específicos conforme a criticidade do serviço.
Mas há alguns entraves. O professor do SENAI Mauro Alves destacou que, enquanto cidades como Zurique têm taxas avançadas de conectividade, o Brasil enfrenta desafios maiores de implementação. Além disso, também chamou atenção para a falta de comando central. O principal ponto de atenção, segundo ele, é quem vai comandar, organizar e fiscalizar a integração das diferentes soluções de V2X. É fundamental que o poder público atue como coordenador e catalisador.
Na visão dele, instituições como o SENAI São Paulo são cruciais, pois conseguem trazer conceitos acadêmicos (pesquisados por universidades) para a aplicação prática e a infraestrutura industrial.
Sobre a integração com outras tecnologias, o gerente sênior de desenvolvimento de negócios da Qualcomm, Francesco Jacomel, chamou atenção ao fato de que o V2X não é um transmissor de dados sem fim: sua finalidade principal é a segurança. “Ele é dividido em níveis de prioridade das sinalizações”, explicou. Sinalizações críticas (acidentes) têm prioridade e baixíssima latência, sendo separadas de serviços de entretenimento (infotainment) ou broadband (5G/Wi-Fi).
O V2X precisa conversar com outras formas de conectividade embarcada (satélite, celular conectado ao painel, Wi-Fi), utilizando canais separados para garantir que a segurança não seja comprometida pela banda larga.
As primeiras aplicações tendem a ser em casos de uso graves/emergenciais. Municipalidades dificilmente rejeitarão investimentos em serviços de emergência, e esse mesmo canal de segurança pode permitir, posteriormente, a exploração de serviços de conectividade privada.
Negócios e governança
O foco em parcerias privadas é essencial, na visão dos especialistas, especialmente em serviços de emergência.
Em relação a casos de usos prático, falta ainda ao Brasil uma estrutura pronta para o V2X. Há montadoras que têm funcionalidades, mas não habilitaram no Brasil. Se tem o veículo conectado, no máximo ele vai ele vai falar com o veículo da mesma marca.
O gerente de PDI para hardware embarcado da Inatel, Francisco Portelinha, avaliou que setores como agricultura e mineração já lideram a adoção de conectividade embarcada e IoT por gerar retorno de negócio. A implementação em trânsito urbano é o maior desafio.
“Quando você olha esse desenvolvimento no agro, na mineração, a estrutura favorece. É tudo muito mais estável, controlado, sabe-se que onde está tudo mais estático. Trazer essas tecnologias para a implementação do trânsito urbano é que é o desafio”, concordou o professor do Senai.
Proteção de dados
A conectividade total em V2X e direção autônoma é obrigatória, portanto não há opção de opt-out. Isso levanta sérios desafios de privacidade de dados e cibersegurança (risco de spoofing, jamming e ataques que causem o caos, como mudar sinais de trânsito).
A solução exige que o desenvolvimento seja inerentemente seguro, com múltiplas camadas de proteção (hardware e software) e detecção de jammers. “O risco é inerente. Por isso o desenvolvimento tem que ser seguro”, sintetizou Jacomel, da Qualcomm.
“É importantíssimo que exista um controle muito grande na questão da segurança e da privacidade”, destacou também o gerente da Inatel, Portelinha.
Cidades sábias
O professor Mauro Alves trouxe ainda o conceito de “Cidades Sábias” como complemento à ideia de Cidades Inteligentes. Nesse caso, o foco está nas pessoas, em seus tempos, necessidades e demandas reais, amparado por princípios de inclusão, ética, cocriação com comunidades e inovação social. A lógica é simples, mas disruptiva: nem todo deslocamento é necessário; qualidade de vida vale mais do que velocidade.
A crítica ao modelo atual se intensifica quando se observam dados concretos. Embora tenha havido maciça adoção de tecnologias para gestão de trânsito em metrópoles como São Paulo, Nova Iorque, Los Angeles e Paris, estudos da empresa Pompom mostram que os congestionamentos aumentaram.
Em São Paulo, por exemplo, a variação do tempo de viagem em um percurso de 10 quilômetros, comparado ao trânsito livre, subiu de cerca de 25% em 2009 para índices ainda mais altos em 2024. Ou seja, a infraestrutura inteligente instalada não reduziu os engarrafamentos.
A explicação está nos chamados “silos tecnológicos”: sistemas sofisticados operando de forma fragmentada, sem integração entre si. Semáforos inteligentes priorizam carros; aplicativos de transporte operam isoladamente; plataformas públicas e privadas não se comunicam. Resultado: muita tecnologia, pouca eficiência.
Para concretizar a visão das Cidades Sábias, especialistas propõem um conjunto de ações práticas. O pacote, chamado “Trajetos Sábios”, aponta como criar corredores urbanos-piloto onde novas tecnologias e modelos de governança possam ser testados.
Entre as principais iniciativas estão: corredores piloto para experimentação controlada; faixas inteligentes e reversíveis que se adaptam ao trânsito em tempo real; governança sábia, com monitoramento integrado e decisões baseadas em dados; gêmeos digitais para simular intervenções antes de aplicá-las; integração do MaaS (Mobilidade como Serviço) com transporte público e micromobilidade, logística inteligente com mini-hubs temporários para última milha; revisão regulatória de normas municipais; educação e parcerias público-privadas para sustentar os projetos.
O objetivo é testar, ajustar e escalar soluções que de fato atendam às necessidades da população e não apenas à demanda por velocidade.
