Ucrânia acusa Rússia de ataques maciços contra sua rede elétrica, provocando cortes de energia em várias regiões
A Rússia realizou neste domingo um ataque “maciço” contra a rede elétrica ucraniana, informaram as autoridades ucranianas, preocupadas com o inverno rigoroso que chegará em breve. O ataque, um dos maiores desde o início do conflito há mais de dois anos, deixou ao menos cinco mortos, provocou quedas de energia em várias regiões e, segundo o presidente Volodymyr Zelensky, destruiu metade da capacidade de produção de energia do país. A ação, afirmou o mandatário, contou com cerca de 120 mísseis e 90 drones. Do total, ao menos 140 alvos foram abatidos.
“O alvo do inimigo era nossa infraestrutura de energia por toda a Ucrânia”, afirmou Zelensky em um comunicado no Telegram, acrescentando: “Infelizmente, há danos a objetos por impactos e queda de destroços.”
Mais cedo, o ministro da Energia ucraniano, German Galushchenko, disse no Telegram que “um ataque maciço ao nosso sistema de energia está em andamento” e que as forças russas estavam “atacando instalações de geração e transmissão de eletricidade em toda a Ucrânia”. Jornalistas da AFP ouviram explosões no início da manhã em Kiev e perto de Sloviansk, na região de Donetsk.
A operadora de energia da Ucrânia, DTEK, anunciou cortes emergenciais de energia na região de Kiev e em duas regiões do leste. As autoridades da capital descreveram o ataque como o mais pesado dos últimos três meses, e seus moradores tiveram que buscar abrigo no metrô. Além da capital, a DTEK também anunciou cortes nas regiões de Donetsk e Dnipropetrovsk, no leste, onde o Exército russo reivindicou ter capturado dezenas de aldeias nas últimas semanas.
A energia também foi cortada em partes da importante cidade portuária de Odesa, no sul do Mar Negro, segundo o prefeito. O aquecimento, fornecimento de água e eletricidade da região foram cortados, enquanto os hospitais estão funcionando com geradores, segundo a CNN. Autoridades também alertaram que a infraestrutura essencial foi afetada nas regiões de Vinnytsia, Rivne, Volhynia e Zaporíjia.
Embora a extensão dos danos seja difícil de estimar no momento, a operadora de energia disse que este foi o oitavo grande ataque às suas estações de energia só neste ano. Sua usinas termelétricas e equipamentos, afirmou a DTEK, foram “severamente danificados”.
Um ataque com drones em Mykolaiv matou pelo menos duas pessoas e feriu outras seis, incluindo duas crianças. Outras duas pessoas morreram em Odesa, em um ataque que também deixou um adolescente de 17 anos. Em Lviv, uma mulher morreu dentro de seu carro, disse o governador.
O ministro das Relações Exteriores ucraniano, Andriy Sybiga, classificou os ataques como “um dos maiores ataques aéreos” do conflito e uma “reposta real” da Rússia aos líderes ocidentais que tentaram se aproximar do presidente Vladimir Putin.
A declaração ocorre após Kiev se irritar com o fato de o chanceler alemão Olaf Scholz ter feito uma ligação com Putin na sexta-feira, apesar das objeções da Ucrânia, no que foi a primeira conversa telefônica do líder russo com um importante líder ocidental em quase dois anos.
A chefe da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, reagiu ao ataque afirmando que a Ucrânia “pode contar” com o apoio do bloco.
— Vimos os horríveis, horríveis ataques desta noite da Rússia contra a Ucrânia, destruindo infraestrutura energética civil e custando um número incrível de vidas humanas — disse Von der Leyen em entrevista à TV Globo no Rio de Janeiro, onde a cúpula do G20 será realizada entre segunda e terça-feira. — Apoiaremos a Ucrânia pelo tempo que for necessário (…) a Ucrânia pode contar conosco.
O secretário-geral da ONU, António Guterres, que também está no Rio para o G20, condenou os ataques russos em uma declaração emitida por seu porta-voz, Stéphane Dujarric.
“Os ataques contra civis e instalações civis são proibidos pelo direito internacional humanitário. Tais ataques são inaceitáveis e devem cessar imediatamente”, afirmou.
O ataque da noite para o dia levou a vizinha Polônia a lançar caças e mobilizar todas as forças disponíveis em resposta. Varsóvia coloca suas Forças Armadas em alerta sempre que os ataques contra o país vizinho são vistos como prováveis de criar um perigo para seu próprio território.
Inverno rigoroso
O rigoroso inverno ucraniano se aproxima rapidamente, e o país já está sofrendo com uma grande escassez de energia. Suas forças desguarnecidas e desarmadas vêm cedendo terreno às tropas do Kremlin há semanas.
Kiev implorou a seus aliados ocidentais por ajuda para reconstruir sua rede de energia — um empreendimento extremamente caro — e para fornecer mais armas de defesa aérea às suas forças desarmadas. Mas muitos ucranianos temem que a ajuda ocidental não seja tão livremente concedida após o retorno de Donald Trump à Casa Branca.
A eleição do republicano lançou incertezas sobre o rumo na guerra na Ucrânia. O magnata, que nutre uma relação complexa com Putin, já fez diversas críticas aos pacotes de ajuda bilionários destinados é Kiev e, no início do ano, tentou convencer legisladores do seu partido a bloquear uma legislação defendida por Biden que incluía um robusto pacote de ajuda militar para a Ucrânia.
Trump fez campanha com a promessa de fechar um acordo rápido para acabar com a guerra, chegando a afirmar que poderia dar um fim ao conflito em até “24 horas”. Mas a promessa é amplamente vista como uma forma de permitir que a Rússia mantenha o território que tomou desde que invadiu a Ucrânia.
Depois de descartar por muito tempo a perspectiva de negociações, Zelensky disse no sábado que queria pôr fim à guerra por “meios diplomáticos” no próximo ano. No entanto, Kiev e o Kremlin continuam em desacordo sobre os termos de qualquer acordo de paz. Putin disse que só aceitará negociações com a Ucrânia se Kiev entregar o território ucraniano que Moscou parcialmente anexou, o que foi rejeitado pela Ucrânia.
