Segunda-feira, 6 de Abril de 2026

Transição energética é irreversível e desafio é acelerar o processo

 A transição energética é um processo irreversível e não faltam recursos para sua concretização, mas são necessários projetos viáveis que acelerem as mudanças e uma atenção especial para os efeitos inflacionários do novo cenário, principalmente sobre camadas e países mais pobres. A avaliação foi feita por Jean Pierre Clamadieu, presidente da Comissão de Desenvolvimento Sustentável do Movimento das Empresas Francesas (Medef) e do conselho de administração da Engie, em entrevista ao Valor na semana passada. O executivo esteve em São Paulo para participar como copresidente da reunião do B20 (Business 20), grupo que reúne representantes empresariais dos países-membros do G20 e prepara recomendações para serem apresentadas na reunião dos líderes mundiais, marcada para novembro no Rio. 

 Clamadieu disse que não existe um cálculo exato de quanto custaria a transição energética. As estimativas variam de US$ 5 trilhões a US$ 10 trilhões. Os recursos, no entanto, não faltariam. 

 “Precisamos de muito dinheiro para investir nessa transição energética. Acho que há muito dinheiro disponível. Necessitamos é criar as condições que tornem possível para os investidores, sejam eles privados ou públicos, apoiarem os projetos. E precisamos garantir que, uma vez decidido o projeto e alocado o dinheiro, ele avance rápido o suficiente. Precisamos acelerar esse processo”, afirmou. 

 O cenário se repete no Brasil. O executivo francês acredita que o país tem condições de atrair investimentos da iniciativa privada, desde que ofereça condições regulatórias que não retardem os projetos e haja clareza de onde os governos pretendem chegar quando falam em transição energética. Ele cita o potencial em hidrogênio verde, em biomassa, na produção do SAF (combustível sustentável de aviação, na sigla em inglês) e a geração de energia renovável, principalmente eólica e solar. 

 Apesar de irreversível, Clamadieu alerta que a transição energética está suscetível a riscos que podem atrasar seu caminho. Entre eles, aponta o executivo, a atual eleição nos Estados Unidos. 

 “Posso imaginar processos políticos em alguns países que podem impactar o ritmo da transição energética. Por exemplo, o resultado da próxima eleição presidencial nos EUA pode ser significativo para a velocidade com que o país conduzirá sua transição energética. Atualmente, há um incentivo muito forte e poderoso nos EUA chamado IRA (Lei de Redução da Inflação, na sigla em inglês), um excelente marco para desenvolver projetos de energia renovável. Mas o que um novo presidente republicano faria com o IRA? Não sabemos. Então, pode haver um obstáculo no caminho”, afirmou. 

 Por outro lado, o executivo vê avanços em países muito dependentes do petróleo e que poderiam criar empecilhos às mudanças. Ele destaca que até mesmo a Arábia Saudita, a maior produtora mundial de petróleo, já tem seus projetos. E recursos não faltam aos árabes. 

 “Eles [Arábia Saudita] começam a pensar que chegará o dia em que a necessidade de petróleo começará a diminuir significativamente. Acho que a grande questão em que provavelmente discordamos é sobre quando isso ocorrerá, mas eles já estão se preparando para uma economia pós-petróleo e gás. Os Emirados Árabes Unidos construíram e já estão operando uma usina nuclear com a mesma lógica: precisamos estar prontos para o que acontecerá quando o petróleo declinar”, afirmou. “Continuaremos precisando de petróleo por um tempo, pois para algumas aplicações, como no transporte, é muito difícil mudar para um modelo diferente de forma imediata. Mas com a crescente adoção dos veículos elétricos, começamos a ver que isso pode acontecer.” 

 E países como a Venezuela, dependente do petróleo e sem recursos disponíveis para uma transição energética planejada? Clamadieu para um pouco, pensa e responde: “A Venezuela tem uma situação um pouco mais complexa. Acredito que capacidade de ter uma visão estratégica para se preparar para essa transição existe, mas eles têm outras prioridades no momento.” 

 Perguntado se a transição energética já faz parte do dia a dia do cidadão comum ou ainda fica restrita aos círculos acadêmicos, políticos e empresariais, o executivo diz que sua referência é mais a sociedade da Europa, e lá o tema está sim incorporado no cotidiano. Ele conta que, principalmente os mais jovens, já avaliam se em uma viagem é melhor usar o carro, o avião ou o trem do ponto de vista ambiental. 

 “Se você for construir uma casa nova [na Europa], vai colocar um aquecedor a gás? Se tiver a oportunidade, colocará painéis solares no telhado? São perguntas bem práticas. Acredito que nossos cidadãos estão cada vez mais expostos a essas questões relacionadas à transição energética”, afirmou. “Isso cria uma necessidade urgente, tanto aos governos quanto às grandes organizações. Há uma responsabilidade clara de educar nossos cidadãos e explicar, da forma mais simples possível, o que a transição energética significa, como podemos limitar seu impacto e o que está ao nosso alcance.” 

 Outro ponto de atenção para o processo de transição é não criar pressão inflacionária no mundo. A energia gerada pelas novas fontes é mais cara, e os governo e iniciativa privada precisam encontrar alternativas para que os mais pobres não paguem essa conta. 

 

Compartilhe: