Quinta-feira, 12 de Março de 2026

Telecomunicações vão além da conectividade com novos serviços digitais

O investimento dedicado a inovação no setor de telecomunicações se confunde com o investimento no negócio-fim: um total de R$ 34,6 bilhões em 2024, de acordo com a Conexis, a maior parte destinada à expansão da rede 5G e da banda larga fixa. Trata-se de infraestrutura que exige das empresas do setor altas doses de adaptação, desenvolvimento e sistemas próprios — leia-se, inovação.

As big techs (Apple, AWS, Facebook, Google e Microsoft) e as OTTs (prestadoras de serviços de mídia Over The Top ou simplesmente de streaming) trouxeram desafios para as operadoras, ao usarem intensamente as redes (e obterem receitas bilionárias), sem, necessariamente, remunerá-las da forma que elas consideram adequada. Desde o 3G, que introduziu a internet no celular, o setor de telecomunicações vive o desafio de também prestar serviços além da conectividade.

Primeira colocada do setor de telecomunicações na pesquisa do anuário Valor Inovação Brasil 2025, a Vivo é um bom exemplo do posicionamento como plataforma digital, que lhe permite tirar proveito de uma base de clientes com mais de 116,1 milhões de acessos, força de vendas e canais de distribuição com 1,8 mil lojas e 27 milhões de acessos/mês no App Vivo. Com isso, a empresa diversifica receitas com novos negócios digitais nas áreas de saúde, educação, finanças, entretenimento e serviço de tecnologia da informação (TI).

“Há alguns anos, decidimos aplicar o conceito de ‘digitalizar para aproximar’, para ir além da conectividade”, diz Christian Gebara, CEO da Vivo. “Num país como o Brasil, onde os meios físicos não bastam para suprir carências de acesso a saúde, educação e serviços financeiros, a digitalização oferece novas oportunidades. Os novos negócios já representam 11% das receitas da Vivo.” A operadora não informa os investimentos em inovação, mas encerrou 2024 com R$ 9,2 bilhões de Capex (despesas de capital), a maior parte empregada em infraestrutura. Hoje o 5G chega a 596 cidades, cobrindo 64,3% da população e 25% da rede.

Segunda colocada no setor, a Claro investe, anualmente, R$ 3 bilhões em inovação e P&D, mais de 6% da receita. São cem funcionários focados exclusivamente em inovação, número que chega a 4,5 mil, considerando-se os que participam de alguma etapa do desenvolvimento.

Entre as iniciativas de destaque estão a NuCel, operadora de telefonia móvel virtual do Nubank sobre a rede da Claro, e a pesquisa com IA generativa utilizando os ativos da Claro para criar seu próprio LLM (Large Language Model, motor de IA generativa). “A parceria com o Nubank foi uma grande experiência de inovação aberta. Foi uma simbiose; resolvendo os problemas deles, resolveríamos os nossos”, diz Rodrigo Duclos, diretor de inovação e digital da Claro.

As apostas incluem serviços e produtos que dependem de avanço de engenharia ou ciência, com esforço intensivo de P&D em áreas como IA, novos materiais, robótica e computação quântica. “A Claro se conecta ao Vale do Silício por ser fundadora da [plataforma de inovação] Plug and Play no Brasil. Estamos especificamente interessados em IoT, IA generativa e deep tech”, ressalta Duclos.

A empresa mantém um laboratório de teste de tecnologias criadas por grandes inovadoras globais, como DeepSeek e Nvidia, e contratou a McKinsey e a QuantumBlack para aprimorar a governança de IA. A operadora está investindo R$ 1 bilhão em sua plataforma de nuvem, com parcerias globais com AWS, Oracle e Huawei e, em breve, terá ofertas de apoio à IA generativa. A rede 5G é outro vetor de inovação, presente em 375 cidades e cobrindo 54,9% da população.

A Claro tem três centros de P&D e relaciona-se com mais de 70 parceiros, incluindo Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações (CPQD), Cubo, Inatel, Learning Village, Universidade de São Paulo (USP) e Virtus. Internamente, mantém dez hubs de inovação, dedicados a temas como conteúdo, serviços financeiros e novos negócios. Com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e a USP, prepara o Centro de Pesquisa em Engenharia para P&D, nas verticais de agrotech, smart cities e indústria 4.0.

“O programa terá investimentos de R$ 40 milhões em cinco anos e 50 linhas de pesquisas. Nossa expectativa é que algumas pesquisas se tornem produtos para clientes ou para eficiência da Claro”, diz Duclos.

A Ericsson, terceira colocada, abriu em fevereiro, em Indaiatuba (SP), seu novo centro de inovação, o 5G Open Innovation Center. Entre as linhas de trabalho estão aplicações para AR (realidade aumentada), VR (realidade virtual) e IoT (internet das coisas) ­— na pesquisa do anuário Valor Inovação Brasil, a Ericsson apresentou cases baseados em experiências imersivas.

A empresa também se relaciona com centros de P&D e incubadoras de sete universidades. A equipe brasileira responde por 250 depósitos de patentes internacionais (globalmente, a companhia tem cerca de 62 mil patentes). No Brasil, conta com o trabalho de mais de 500 pesquisadores, 40% contratados da Ericsson e 60% de seu ecossistema de inovação aberta, que inclui startups, incubadoras e universidades. A empresa investiu R$ 158 milhões em P&D em 2024 e programa R$ 165 milhões para 2025.

Edvaldo Santos, vice-presidente de P&DI da Ericsson para o Cone Sul, conta que um em cada quatro funcionários se dedica a P&D. Para ele, a operação brasileira se destaca pela produtividade e tem conseguido atrair projetos que, pela lógica habitual, seriam desenvolvidos na Ásia.

“Cada vez mais trabalhamos em inovações sobre nossas plataformas combinando IA, robótica, realidades virtual e aumentada e a baixa latência do 5G. Usamos tudo isso para construir gêmeos digitais ou visão computacional. No pipeline, estão as contribuições para os padrões para além do 5G: o 5G advanced e o 6G”, diz Santos.

Vicente de Moraes Ferreira, vice-presidente de relações com investidores e estratégia da TIM, diz que o foco da empresa é a inovação perceptível pelo cliente — daí o esforço para apresentar novas ofertas. A operadora também se posiciona como plataforma de novos negócios com parceiros como Cartão de Todos, Descomplica e com a Eletrobras, para ofertas combinadas de serviços.

Os dois cases apresentados pela operadora na pesquisa feita por Valor e Strategy& foram inovações de oferta e serviços. O TIM Block Pin é um broche de segurança que bloqueia o celular em caso de furto. Já o TIM Pré XIP é um plano pré-pago com cash back em Pix. Em oito meses de vigência, a TIM registrou 6,1 milhões de chaves Pix informadas para recebimento do cash back.

A TIM tem forte atuação em IoT com a vertical TIM IoT Solutions. Também traçou uma estratégia para IA, com um modelo que analisa indicadores de rede para predizer, com acurácia de mais de 80%, a chance de os equipamentos falharem — e que será aplicado à rede de transporte de fibra, e com serviços como o TIM IAX, voltado ao atendimento. “Em 2025, estamos usando hiperpersonalização e análise de discurso e sentimento”, diz Ferreira.

No 5G, a operadora busca liderança em cobertura, com sete mil antenas em mais de 700 cidades. “O 5G é habilitador de novos negócios B2B, como redes privativas e slicing [segmentação] de rede”, ressalta o vice-presidente da TIM.

A operadora investe, anualmente, R$ 4,5 bilhões, dos quais 90% são aplicados em infraestrutura de rede e TI. Em P&D, a empresa aplica um percentual entre 1% e 5% da receita e conta com 195 funcionários dedicados à área. A TIM mantém o centro de pesquisa Guaratiba Vale no Rio de Janeiro e tem patentes como a do Biosite, antena de pequeno porte e sustentável.

Globalmente, há interações com o Telecom Italia Lab (TILab), centro de P&D de sua controladora em Turim. O Cubo é o principal parceiro, mas há projetos também com CPQD, Distrito, Fundação Certi, Hacking Rio/Hacking Her, Igloo Network, Imam, Inatel, Instituto 12, Instituto Virtus, PUC-Rio e USP.

Com US$ 50 milhões aplicados, a TIM é a investidora-âncora do fundo de venture capital Upload Growth, gerido pela Upload Ventures. Três empresas receberam aportes: Topsort, Simetri e Tractian. A meta é investir em oito a dez empresas em dois anos.

A Unifique, quinta colocada, considera inovação um instrumento essencial para a sustentabilidade do negócio no longo prazo, sempre mantendo o cliente no centro das decisões, segundo define Fabiano Busnardo, CEO da empresa.

Um dos cases apresentados pela operadora, que tem atuação concentrada no Sul do país, na pesquisa do Valor Inovação Brasil foi sua própria transformação, com a ampliação do portfólio para além da conectividade, com serviços de monitoramento por câmeras, casa inteligente, telemedicina, seguros, cibersegurança e soluções em nuvem. “Também lançamos nosso programa de inovação aberta e corporate venture, com R$ 11 milhões investidos em 18 startups em 2024”, diz Busnardo.

A criação de um modelo de predição de pedido de cancelamento de serviço com mais de 80% de precisão, que permite ações preventivas está entre os destaques. “A projeção de retorno é superior a R$ 8,5 milhões por ano em retenção, maior personalização da jornada do cliente e uso estratégico de dados”, enumera o CEO. Em 2024, a Unifique destinou mais de R$ 35 milhões exclusivamente para projetos de inovação. A empresa procura engajar seus 2,7 mil funcionários nos esforços — no ano passado, cerca de 400 pessoas atuaram diretamente em projetos inovadores.

 

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