Quarta-feira, 29 de Abril de 2026

Telecom enfrenta alta de preços de equipamentos e risco de escassez

A crise global no fornecimento de chips de memória causada pelo superciclo de investimentos em inteligência artificial (IA) e pela instabilidade geopolítica está afetando o setor de telecomunicações brasileiro, que tem enfrentado alta de preços de equipamentos, aumento de tempos de entregas e risco de escassez de eletrônicos.

Uma ilustração do cenário foi feita pelo CEO da Claro Brasil, Rodrigo Marques, em evento promovido pela operadora nesta semana. O executivo relatou que a crise das memórias já afetou “fortemente” o custo de eletrônicos como modems de banda larga e set-top boxes (as caixinhas) de serviços de TV.

Nestes casos, a alta de preço verificada seria maior que 30%, relatou o executivo. Em paralelo, alguns fornecedores também sinalizam uma eventual falta de equipamentos no futuro. A Claro vê riscos da crise dos componentes durar pelo menos dois anos, passando a afetar um número ainda maior de vendors.

Já o CEO de outra operadora – esta do segmento de atacado – ouvido recentemente por TELETIME apontou que o tempo de entrega de equipamentos no segmento óptico saiu de 60 a 90 dias para 150 a 180 dias nos últimos meses, tornando mais complexa a tarefa de planejamento de investimentos.

O executivo aponta a disrupção como reflexo não apenas da demanda de hyperscalers donos de data centers de IA, mas também da instabilidade mundial. Um exemplo vem da guerra no Irã: com o fechamento do Estreito de Ormuz afetando a produção eletrônica na China, consequentemente o mercado brasileiro é impactado.

Outro alerta que já foi feito por fornecedores é o risco de falta de cabo drop de fibra, relatou o diretor de um grande provedor regional. Ele notou que a demanda dos cabos também está em alta, inclusive como reflexo do uso de equipamentos ópticos em conflitos militares.

Diante do cenário, empresas ouvidas pela TELETIME têm buscado acelerar o recebimento de equipamentos como forma de se proteger da crise, seja por meio da formação de estoques ou da antecipação do faturamento de pedidos.

“O mundo inteiro está antecipando compras”, resumiu Rodrigo Marques, da Claro, durante conversa com jornalistas. Na tele, um dos esforços é evitar o repasse dos custos aos planos do consumidor final, esforço que pode se tornar “impossível” a depender do percentual de reajuste dos eletrônicos.

Alerta da indústria
Nesta semana, a Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee) apontou que 47% das indústrias do setor eletroeletrônico brasileiro estão sentindo pressões nos custos de componentes.

A entidade também fez uma estimativa de repasse de cerca de 30% no preço final de equipamentos como notebooks, desktops, celulares e TVs. A entidade relaciona o movimento ao crescimento “explosivo” da demanda de data centers e prevê impactos da crise de memórias até 2028.

No mercado global de redes de acesso para telefonia móvel, a alta do custo de componentes foi recentemente evidenciada pela Ericsson. A empresa foi impactada por um aumento nos preços de insumos no primeiro trimestre, causado em parte pela demanda por IA, sobretudo no que diz respeito a semicondutores.

 

Compartilhe: