Domingo, 31 de Agosto de 2025

Tarifas de Trump elevam custo da transição energética nos EUA, alertam empresas brasileiras

As tarifas de importação impostas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, estão gerando apreensão entre empresas brasileiras do setor elétrico. A sobretaxa de 50% aplicada sobre transformadores fabricados no Brasil pode aumentar significativamente os custos para a expansão da infraestrutura de energia nos EUA, essencial para sustentar o crescimento de data centers e veículos elétricos, informa a Folha de S. Paulo.

Transformadores são equipamentos indispensáveis para a transmissão de energia elétrica, com peso entre 400 e 500 toneladas, responsáveis por ajustar a tensão entre usinas geradoras e pontos de consumo. Em 2024, os EUA importaram US$ 29,2 bilhões em transformadores e peças similares, segundo a Organização Mundial do Comércio (OMC). Do total, US$ 541 milhões tiveram origem no Brasil — volume que se fortaleceu desde que, no primeiro mandato, Trump impôs barreiras aos produtos chineses.

Brasil ganha espaço, mas riscos se acumulam – Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) indicam que, apenas no primeiro semestre de 2024, o Brasil exportou R$ 1,9 bilhão (cerca de US$ 346 milhões) em transformadores para os Estados Unidos. Atualmente, 82% das exportações brasileiras desse tipo de equipamento têm como destino o mercado norte-americano.

Glauco Freitas, diretor da Hitachi no Brasil, acredita que os efeitos das tarifas sobre os negócios imediatos serão limitados. “As encomendas já estão feitas, e os slots de fábrica já estão comprometidos”, afirmou. A construção de um transformador pode levar entre 3 e 18 meses, devido à complexidade do processo e à demanda por mão de obra qualificada e maquinário específico.

Apesar do cenário desafiador, Freitas ressalta que os Estados Unidos não podem adiar sua transição energética. “A indústria americana precisa acelerar a transição energética, e ela depende muito disso. Mais caro do que investir em energia é ficar sem energia”, disse.

Projeções do instituto Edison Electric Institute estimam que os EUA investirão cerca de US$ 1,1 trilhão até 2030 para modernizar seu sistema elétrico. Além da eletrificação da frota de veículos, o país precisa expandir a rede para atender à explosão de demanda gerada pelos centros de dados voltados à inteligência artificial. Ao contrário do Brasil, cuja rede de transmissão é interligada nacionalmente, o sistema americano ainda é fragmentado por regiões.

Estratégias e adaptação das fabricantes – Segundo Freitas, a Hitachi não depende exclusivamente do mercado americano, pois também exporta para outros países. “A demanda mundial é muito grande e a empresa se capacita para isso tecnicamente”, pontuou.

Além da Hitachi, outras grandes fabricantes instaladas no Brasil incluem Weg, Siemens, Tsea e GE. A Tsea, que antes pertencia à Toshiba e hoje é controlada por um fundo, tem 96% de sua receita concentrada em vendas para os EUA, de acordo com análise do Itaú BBA.

A Weg minimizou os efeitos das novas tarifas. Durante teleconferência com investidores, o diretor financeiro André Luiz Rodrigues afirmou que a maior parte da produção de transformadores no Brasil atende ao próprio mercado interno e a países vizinhos. Rodrigues indicou que a empresa pode remanejar suas operações: “Podemos usar o Brasil para atender à demanda local em México e Índia e usar a produção desses países para atender o mercado americano”.

Já Siemens e GE não responderam aos pedidos de entrevista.

Exportações e preocupações com investimentos – Mesmo diante das tarifas, a China ainda exportou US$ 3,86 bilhões em transformadores para os Estados Unidos em 2024, atrás apenas do México, que lidera com US$ 6,6 bilhões. Ambos também foram afetados por tarifas — 30% para os chineses e 15% para os mexicanos.

Conforme dados do Mdic, o Brasil enviou US$ 497,5 milhões em transformadores para os EUA ao longo de 2024, o que representa cerca de 68% do total de exportações brasileiras da indústria elétrica no período.

O presidente da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), Humberto Barbato, lembra que a entrada do Brasil nesse mercado se deu após a imposição de barreiras à China durante o primeiro mandato de Trump. “O mercado norte-americano é um mercado muito concorrido”, destacou.

Apesar do bom momento, há receio quanto aos investimentos em curso. A Hitachi anunciou, no ano passado, a ampliação de sua planta em Guarulhos (SP), com aporte de R$ 1,2 bilhão. A Weg também está investindo na expansão de sua unidade em Itajubá (MG).

Reação do setor e pedidos ao governo brasileiro – Na tentativa de mitigar os impactos das tarifas, a Abinee enviou uma carta ao Mdic solicitando medidas de alívio. Entre os pedidos estão o aumento temporário da alíquota do Reintegra — programa que devolve parte dos tributos às empresas exportadoras —, isenção de tributos sobre insumos e suspensão de impostos federais sobre exportações para os Estados Unidos.

Embora, até o momento, a entidade não tenha recebido relatos de suspensão de embarques de equipamentos elétricos, a preocupação com o futuro da produção nacional é real. “Agora, a Abinee se mobiliza para que a produção continue no Brasil, para que as tarifas não gerem desemprego”, afirmou a associação.

Glauco Freitas, da Hitachi, também aposta em uma saída negociada: “No médio para o longo prazo, eu acredito em uma solução diplomática, que beneficie os dois países”.

 

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