Domingo, 31 de Agosto de 2025

Solar já avança para ser número 1 da matriz elétrica brasileira, diz Sauaia

Em entrevista exclusiva ao Canal Solar, Rodrigo Sauaia, CEO da ABSOLAR (Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica), analisa o atual momento de incerteza no setor fotovoltaico nacional, marcado por desafios como o curtailment e as negativas de conexão.

Apesar do cenário adverso, Sauaia mantém uma visão otimista para os próximos anos, apostando no potencial do armazenamento de energia e na importância de políticas públicas estruturantes — como o restabelecimento das cotas de importação e propostas em tramitação no Congresso — para consolidar a geração solar como a principal fonte da matriz elétrica brasileira.

Confira abaixo a entrevista completa:

Recentemente, a ABINEE divulgou dados que mostram uma queda substancial na importação de módulos fotovoltaicos, com uma variação de -39% entre janeiro e junho, na comparação de 2024 com 2025. O que a ABSOLAR tem observado sobre isso e o que pode explicar esse cenário?
Nós havíamos antecipado essa situação, quando fizemos nossa projeção de mercado para 2025. Foi uma projeção de crescimento no volume de potência que seria adicionada em relação ao ano anterior. Em 2024, o mercado se concretizou de forma surpreendentemente positiva, sendo um ano recorde para o setor.

E qual a magnitude dessa redução na potência adicionada projetada para 2025 em comparação com o ano recorde de 2024?
Para 2025, projetamos 13,4 GW de potência adicionada, enquanto no ano passado tivemos mais de 15 GW. É uma redução que eu diria estar perto de 20 e poucos por cento. Projetar o futuro é sempre um desafio.

Quais são os principais fatores que contribuem para essa desaceleração, tanto na geração distribuída quanto na geração centralizada?
De um lado, na geração distribuída, persistem desafios como os problemas de negativas de conexão para projetos, por alegação de inversão de fluxo de potência, o que desacelera o mercado ao inviabilizar ou atrasar projetos.

Em segundo lugar, na geração centralizada, temos os cortes de geração, que impactam financeiramente os geradores e aumentam a percepção de risco para investidores, levando a projetos serem revistos, congelados ou até cancelados.

As empresas têm dificuldade em justificar novos projetos a seus conselhos e investidores. Ambos os segmentos estão passando por um ano de turbulências e desafios, o que impacta o volume de aquisição de novos equipamentos.

Além desses problemas setoriais, como os fatores macroeconômicos, como a taxa de juros, impactam o mercado solar fotovoltaico?
A elevação da taxa básica de juros resulta em um aumento do custo de capital. A expansão do mercado solar fotovoltaico, tanto na geração distribuída quanto na centralizada, depende muito do crédito e do financiamento.

Um capital mais caro e um custo de crédito maior arrefecem novos investimentos e projetos, dificultando sua viabilização e a decisão dos consumidores.

Outros fatores incluem a redução de incentivos na China para exportação de equipamentos e o aumento da carga tributária média sobre o setor, que geram pressão de preço e diminuem novos pedidos de equipamentos.

Apesar desses desafios, você vê oportunidades no horizonte? Que iniciativas a ABSOLAR tem tomado para buscar soluções e impulsionar o setor?
Sim, no horizonte, temos uma importante oportunidade. A ABSOLAR tem dialogado intensamente com o governo federal para buscar uma solução para os cortes na geração renovável, permitindo a compensação financeira adequada dos geradores afetados.

Também buscamos, com o apoio do Congresso Nacional, aprimorar o arcabouço legal e regulatório do setor. E, principalmente, a criação de novas oportunidades de mercado, por exemplo, com a tecnologia de armazenamento de energia.

Quais são os pontos centrais para o avanço dessa tecnologia no Brasil?
O avanço dessa tecnologia depende de três frentes importantes. Primeiro, um marco regulatório – com a Consulta Pública 39 da ANEEL, que esperamos seja concluída ainda neste segundo semestre – e um marco legal no Congresso Nacional, garantindo acesso isonômico a mecanismos estratégicos como debêntures de infraestrutura.

A segunda frente é a tributação nas baterias. A carga tributária média gira em torno de 80% a 85%, o que é brutal. Recomendamos que o governo federal racionalize esses impostos, o que abriria novos mercados e poderia até gerar mais arrecadação para o governo.

O terceiro eixo é gerar uma massa crítica de demanda interna por baterias, tirando o setor da inércia. Para isso, é muito importante um leilão de reserva de capacidade com baterias em 2025, sem postergação. Além desse leilão, há oportunidades em sistemas isolados e na universalização do acesso à energia elétrica com sistemas solares de pequeno porte com baterias.

Como o armazenamento de energia pode impulsionar o mercado, especialmente em relação aos gargalos atuais, e quais são os benefícios para os consumidores?
O armazenamento pode dar um novo impulso tanto à geração distribuída quanto à centralizada, pois a sinergia com a tecnologia solar é imensa. As baterias são ferramentas que podem ser implementadas com agilidade e ajudam a aliviar gargalos como inversão de fluxo, negativas de conexão e cortes de geração.

Elas trazem mais autonomia e independência, podendo ser usadas em todas as escalas, desde grandes usinas até consumidores residenciais que querem ter autonomia de algumas horas durante uma manutenção programada ou queda de luz. Hoje, o consumidor fica de mãos atadas nessas situações.

A publicação de uma nova regulamentação pela ANEEL, como a Consulta Pública 39, já destravaria o mercado de armazenamento ou o Ministério de Minas e Energia também precisaria agir?
A regulamentação da ANEEL é um passo fundamental e trará clareza e previsibilidade para o mercado. É provável que haja um período de implementação para adaptação de processos e sistemas.

Nossa preocupação é que isso seja feito com a maior celeridade possível para destravar o potencial que ainda aguarda essa etapa regulatória.

O ministério não necessariamente precisaria fazer uma ação para isso, exceto na área do leilão de reserva de capacidade com bateria, onde depende do ministério dar o “ok” final para a ANEEL trabalhar nos editais.

Além disso, o acesso à rede e debêntures incentivadas também dependem do ministério, com um sinal legal claro que estabeleça acesso a esses mesmos incentivos e benefícios já concedidos a outras tecnologias.

O ONS tem reivindicado a criação de um controle sobre o que é injetado nas redes de distribuição. A criação de um sistema deve estar ligada ao uso de baterias na micro e minigeração distribuída?
Não, não são coisas diferentes, não há vínculo.

Em relação às MPs 1300 e 1304, a ABSOLAR já se manifestou? Quais os pontos que vocês identificaram?
Estamos consolidando nossas análises sobre as medidas provisórias. Mas já identificamos várias emendas bastante oportunas que abordam os desafios que comentei.

Há emendas buscando uma solução para a inversão de fluxo de potência na geração distribuída, o que é fundamental para destravar barreiras.

Também há emendas importantes buscando solucionar a compensação financeira para os cortes de geração das usinas centralizadas.

Consideramos esses temas imprescindíveis para serem incorporados e estamos dialogando com os parlamentares sobre sua importância. Da mesma forma, há emendas parlamentares que abordam o armazenamento de energia elétrica de forma muito positiva.

Recentemente, houve o restabelecimento das cotas de importação de equipamentos. Como a ABSOLAR vê essa medida?
Essa foi uma medida fundamental implementada pelo governo federal, em especial o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, e uma decisão estratégica para evitar a perda de investimentos e empregos decorrentes de projetos que já haviam se comprometido com garantias financeiras.

Nós aplaudimos essa decisão, pois ela é importante e positiva, e contribui para que não haja o cancelamento desses projetos e investimentos em território nacional.

Mostrou a sensibilidade do governo para um problema que havíamos alertado após o aumento do imposto de importação, e esperamos que contribua para que esses projetos não sejam perdidos.

A mensagem final então é de otimismo para o mercado solar, apesar das dificuldades? Quais são as perspectivas de médio e longo prazo?
No médio e longo prazo, a fonte solar fotovoltaica deverá continuar avançando para se tornar a fonte número 1 da matriz elétrica brasileira. A velocidade desse avanço dependerá do ambiente e das políticas públicas implementadas pelo governo federal, pela agência reguladora e demais órgãos do setor elétrico.

É fundamental que o setor continue trabalhando de forma coordenada, e a ABSOLAR faz esse papel de agregar e trazer propostas para catalisar o desenvolvimento tanto da fonte solar quanto do armazenamento de energia elétrica no país.

A China continuará sendo a principal fornecedora de módulos fotovoltaicos, mesmo com a redução de incentivos por parte do governo do país asiático, como mencionado?
Ao que tudo indica, sim. Os fabricantes chineses mantêm uma expansão expressiva de sua presença no setor e no mercado.

Eles continuam fazendo investimentos representativos em pesquisa, desenvolvimento e inovação, liderando em novos recordes de eficiência e na implementação de novos processos e tecnologias.

Esse empenho em manter a liderança e o protagonismo não diminuiu. Existem outros países buscando espaço, mas a China tem mantido uma posição de liderança notável.

O que podemos aprender com a China sobre sua liderança na fabricação de módulos fotovoltaicos e como isso pode inspirar o Brasil?
A liderança da China não foi por acaso. Houve uma estratégia bem delineada, com políticas públicas – especialmente industriais -, incentivos governamentais robustos, acesso a financiamento diferenciado e isenções tributárias para fabricantes.

A China construiu um ambiente interno favorável à industrialização. Se o Brasil tiver ambição de atuar nesse sentido, o caminho passa por três pilares estratégicos. Primeiro, uma política industrial robusta e competitiva que traga incentivos e desonere fabricantes nacionais, o que demanda investimento governamental.

Segundo, financiamento competitivo e diferenciado para produtos feitos no Brasil. E terceiro, a criação de demanda por produtos feitos no Brasil, onde o governo pode usar seu poder de compra para adquirir equipamentos nacionais para prédios públicos, programas habitacionais como o Minha Casa Minha Vida, universalização do acesso à energia elétrica, e descarbonização da Amazônia, substituindo geradores a diesel por fotovoltaicos com baterias e equipamentos brasileiros.

Além dessas iniciativas, há outras áreas com grande potencial para demandar energia solar no Brasil?
Sim, os data centers deverão crescer no Brasil. E o hidrogênio verde. Se tudo der certo, o Brasil pode ser um grande produtor para consumo interno e exportação, o que demandará energia renovável, sendo a solar a mais competitiva que o Brasil tem para essas finalidades.

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