Roraima se prepara para sair do isolamento elétrico até o fim do ano
Depois de uma década de impasses e atrasos, a linha de transmissão que vai ligar as cidades de Manaus à Boa Vista, conhecido como “linhão de Tucuruí”, iniciará os testes de energização no dia 8 de setembro. O avanço é considerado um passo decisivo para integrar Roraima ao Sistema Interligado Nacional (SIN). A obra, prevista para ser concluída oficialmente até o fim do ano, marcará a conexão do único Estado brasileiro que ainda permanecia isolado da rede elétrica nacional.
Licenciado em 2011 e previsto inicialmente para operar em 2015, o linhão de Tucuruí tornou-se um dos projetos mais emblemáticos – e conturbados – do setor elétrico brasileiro. A construção, sob responsabilidade da Transnorte Energia (joint venture entre Eletrobras e Alupar), esbarrou em sucessivos entraves, sobretudo no processo de licenciamento ambiental relacionado à travessia da Terra Indígena Waimiri Atroari.
Entre disputas judiciais e negociações com comunidades locais e órgãos reguladores, a principal obra de transmissão em andamento no país deve melhorar o atendimento energético da região e, ao mesmo tempo, ampliar o acesso à internet de qualidade, já que a infraestrutura do linhão servirá também de suporte para a expansão da rede de fibra óptica na região.
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A Transnorte Energia chegou a pedir a rescisão do contrato de concessão. A Justiça Federal condicionou a liberação da obra ao pagamento de R$ 150 milhões ao povo indígena referente à compensação pelo impacto ambiental que a construção deve causar.
A empresa e a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) iniciaram uma arbitragem para reequilibrar os custos do atraso. Ao Valor o diretor de relações com investidores da Alupar, Luiz Coimbra, conta que o resultado da arbitragem, trazido para valores atuais, foi de R$ 561 milhões de Receita Anual Permitida (RAP). Antes era de R$ 395 milhões para operar 17 anos.
“O contrato foi estendido de 2042 para 2051. Foram três anos para construir e serão outros 27 para operar. As obras estão com 96% concluídas de avanço físico. A previsão é até o fim do ano o Estado de Roraima estar conectado”, afirma o executivo.
Comparado com outros Estados da federação, Roraima tem um atendimento considerado caro e precário e ambientalmente sujo, já que depende da geração de usinas termelétricas movidas a óleo diesel e gás natural. Atualmente, cerca de 120 caminhões-tanque fazem diariamente o trajeto entre Manaus e Boa Vista transportando o combustível para abastecer as usinas locais. O Estado conta ainda com a importação de energia da Venezuela.
Devido à entrada em operação do empreendimento, Roraima passará a receber energia do sistema nacional (com fontes de energia mais limpas, como hidrelétricas), reduzindo a necessidade de geração local emergencial. Com a interligação, essa logística deve reduzir muito, mas não deve acabar.
Por se tratar de uma única linha de longa extensão (mais de 720 km), o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) indica que aproximadamente 50% da capacidade termelétrica de Roraima deve permanecer ativa como reserva de confiabilidade.
As térmicas vão continuar, mas serão ‘backup’, caso ocorra algum problema” — Robson Campos
Hoje a Eletrobras se tornou controladora do empreendimento, com cerca de 62% de participação. Robson Campos, vice-presidente-executivo de Engenharia de Expansão da companhia, destaca que a capacidade do linhão permitiria atender integralmente a demanda de Estado, mas parte das usinas seguirá operando para garantir segurança do suprimento. “As térmicas vão continuar, mas serão de ‘backup’, caso ocorra algum problema”, afirmou.
Campos prevê que a redução de emissões de carbono pode chegar a 280 mil toneladas por ano, resultado direto da diminuição no uso de termelétricas a óleo diesel. Além da energia, ele lembra que o empreendimento levará conectividade à região por meio da instalação de cabos de fibra óptica. “Hoje, um morador local, para assistir ‘streaming’, ele precisa baixar o filme para depois ver”, disse ao explicar a dificuldade local em relação ao acesso a internet.
O executivo também ressalta que os indígenas participaram de todo o processo, desde o licenciamento até a construção: “Eles acompanharam as etapas de supressão vegetal e todo o desenvolvimento do projeto”.
Outra perspectiva é que os subsídios custeados por todos os consumidores do Brasil via Conta de Consumo de Combustíveis (CCC) para bancar o diesel também deve reduzir. Só em 2024, os custos com o combustível são da ordem de R$ 1,59 bilhão. Entretanto, a Aneel afirmou em nota que ainda não dispõe de previsões sobre os efeitos da interligação. Fontes dizem que é necessário ainda avaliar alguns custos, como o pagamento da rede básica, encargos do sistema e bandeiras tarifárias.
Às vésperas das eleições, dentro do governo, o projeto já é comemorado com ganhos políticos, já que a integração de Roraima ao SIN é vista como uma resposta a uma demanda histórica da população local e um trunfo para a agenda energética da atual gestão, que é pressionada a reduzir os custos da conta de luz no Estado e diminuir a dependência de combustíveis fósseis em um ano de COP30.
Em nota, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, disse que trata o assunto como prioridade nacional, dada sua importância estratégica para a integração energética de Roraima ao sistema interligado Nacional (SIN).
“Ver essa iniciativa chegando à sua fase final dá muito orgulho do trabalho que desempenhamos à frente deste ministério sob a liderança do presidente Lula. O povo de Roraima merece contar com uma energia limpa e mais segura. Ao longo desses três anos, seguimos com a missão de levar energia elétrica para todas as brasileiras e brasileiros e Roraima, que antes era o único Estado que não estava interligado, diz.
