Robôs, automação e inteligência artificial: de passagem por Caxias, especialistas nacionais projetam o futuro da indústria
Motor da economia caxiense, a indústria metalmecânica tem na essência a inovação. Antes mesmo de se falar em inteligência artificial e automação de processos, este setor já contava com robôs e técnicas de automatização de processos.
Na última divulgação dos dados do desempenho da economia de Caxias do Sul, no dia 7 de maio, pela Câmara de Indústria, Comércio e Serviços (CIC) e Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL), a indústria foi o setor que mais cresceu: foram 15,8% de crescimento no período analisado (o mês de março de 2026 em comparação com fevereiro).
Nesta segunda-feira, 25 de maio, é comemorado o Dia Nacional da Indústria. Uma homenagem ao patrono da indústria nacional, Roberto Simonsen. Ele foi engenheiro, político, professor e industrial de grande destaque, que presidiu a Confederação Nacional da Indústria e a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e morreu em 1948.
Porém, mais do que lembrar a história, a indústria projeta o futuro com inovação e tecnologia. Na Feira Industrial de Hannover (Hannover Messe), na Alemanha, neste ano, o setor conheceu o que se apresenta como um futuro próximo: o uso de inteligência artificial e os robôs humanoides.
Conforme o presidente do Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico de Caxias do Sul (Simecs), Paulo Scopel, as tendências vistas na Alemanha logo devem chegar às indústrias da Serra:
— O que a gente está observando, e já vem do ano passado, é a questão dos humanoides. Eu acho que isso, nos próximos anos, é o que vai estar imperando. Como vai ser usado, eu não sei. Mas a gente vê muitos movimentos, principalmente lá na Europa, se direcionando para essa linha. Atualmente, é a automação. E daqui para a frente, essa é a nova tendência. Isso vai aumentar mais a automação e, com certeza, vão vir os humanoides para alguns setores da indústria — projeta.
Os humanoides são robôs que tentam imitar o ser humano fisicamente, com cabeça, braços e pernas, e são utilizados nas indústrias europeias para executar tarefas semelhantes. Atualmente, eles já fazem soldas em altas temperaturas, movimentação de peças pesadas e tarefas arriscadas com materiais perigosos.
— A gente já vem se preparando para isso. Claro que é contínua essa preparação. Não podemos simplesmente pegar uma automação de um dia para o outro. Tem que ter um treinamento, tem que ter o pessoal capacitado para programar isso, para cuidar de como vai funcionar. Isso tudo é gradativo. Mas é uma tendência da indústria e vem a agradar. Porque agrada também o colaborador. É uma questão de equilíbrio entre a mão de obra humana e a tecnologia — analisa.
Mesmo com a premissa apresentada na Feira de Hannover de suprir a falta de mão de obra, Scopel não acredita que os robôs vão substituir o trabalho humano:
— Isso é uma imagem que se tem, de que o robô vai substituir o colaborador. Mas não, de forma alguma. O robô vai substituir aquele trabalho repetitivo, cansativo. A robotização mantém o ritmo 24 horas por dia, de segunda a segunda. Mas tu precisas das pessoas pra estar alimentando.
O futuro da indústria
A convite do Simecs, no evento Simecs Transforma, no dia 13 de maio, os especialistas José Carlos Sprícigo, presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Implementos Rodoviários (Anfir), e Régis Sell Haubert, vice-presidente e diretor da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), participaram de um painel sobre os novos desafios da indústria brasileira. Em entrevista para o Pioneiro, as duas lideranças empresariais de âmbito nacional projetaram como observam o futuro da indústria.
Na opinião de Sprícigo, o desafio neste momento está na tributação das indústrias:
— Enfrentamos barreiras tributárias nacionais que dificultam muito o nosso desenvolvimento. Hoje até para investimentos em digitalização, em novas tecnologias, somos tributados. Então isso atrasa um pouco os investimentos, o que contribuiu, de certa forma, para ter uma redução de nossa participação no Produto Interno Bruto (PIB).
Além disso, Sprícigo aponta a falta de mão de obra como uma grande dificuldade. Segundo ele, a indústria precisa voltar a atrair os jovens, mostrando que o ambiente é tecnológico, que remunera bem e pode apresentar um caminho de crescimento profissional.
— A falta de mão de obra pode ser, no futuro, suprida por humanoides, que vai ocorrer e já está acontecendo. Outra coisa que deve acontecer e que é uma tendência para a indústria melhorar ainda mais, é a chegada dos gêmeos digitais, ou seja, toda a inteligência das coisas (Internet of Things – IoT). Com isso, nós não vamos mais errar, vamos executar com mais assertividade. Eu acho que isso é um futuro que deve acontecer muito próximo — projeta.
A tendência Digital Twins, os gêmeos digitais, também foi uma das apresentadas na Hannover Messe no início de maio. São modelos virtuais que replicam equipamentos, processos ou plantas industriais. A utilização dessa tecnologia permite simular cenários, prever falhas e otimizar processos antes de colocá-los em prática.
Mas mesmo diante de tantas opções de inovação, automação e inteligência artificial, Sprícigo ainda aposta nas pessoas como diferencial para o futuro da indústria:
— Eu penso que as pessoas vão fazer a diferença. Lógico que as pessoas bem formadas, engenheiros, vão ter a tecnologia a seu dispor. Basta ter recursos para esse investimento.
Alta demanda para a eletroeletrônica
Já Régis Sell Haubert, da Abinee, analisa que a indústria eletroeletrônica tem em sua essência a inovação, já que, segundo ele, é a base para todas as demais áreas.

Régis Sell Haubert, vice-presidente e diretor da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee). Neimar De Cesero / Agencia RBS
— As tecnologias estão mudando a cada seis meses, de uma forma tão rápida que o próprio desempenho da indústria para estar antenada ao mercado fica cada vez mais difícil. Nós somos uma indústria que utiliza bastante IA e que tem um espectro de crescimento interessante. Neste ano, esperamos crescer 6% acima da inflação — projeta.
Atualmente, o setor já observa o aumento da demanda de hardwares de processamento para a utilização de IoT e da IA.
— Todo esse advento engloba a eletroeletrônica. Agora com inteligência artificial demandando mais processamento, mais capacidade, remete para a nossa indústria — afirma Haubert.
Hoje, segundo o especialista, o setor já discute a fabricação de módulos de processamento dos data centers (instalação física dedicada a abrigar infraestrutura de TI, como servidores, sistemas de armazenamento e equipamentos de rede) no Brasil. De acordo com Haubert, esse é um potencial grande do setor eletroeletrônico brasileiro. Outra possibilidade que já é vislumbrada pelo setor é a IoT, a partir do advento dos veículos elétricos, como carros, caminhões e ônibus.
— Todo esse enfoque dá a oportunidade de buscarmos a IoT. Tudo hoje está tendo comunicação. É uma crescente muito grande em IoT, nos diversos segmentos que têm, porque a indústria eletrônica atende a todos os setores da economia — analisa.
