Segunda-feira, 6 de Abril de 2026

Rei do Gás embaralha ainda mais negócio dos irmãos Batista

“Espanta que o ministro Alexandre Silveira ache justo que o consumidor de energia pague a conta” Luiz Barata Presidente da Frente dos Consumidores de Energia

O empresário Carlos Suarez, dono da Termogás e conhecido como o “rei do gás”, tenta interferir em um negócio dos irmãos Joesley e Wesley Batista no Amazonas. A Cigás, empresa de distribuição de gás amazonense comandada pelo empresário, recorreu à Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e à Justiça para ser ouvida – e ter o poder de veto – em contratos de usinas termoelétricas que pertenciam à Eletrobras e que foram compradas pela Âmbar, a empresa de energia dos Batista.

A disputa ocorre em meio ao impasse envolvendo a venda da Amazonas Energia, distribuidora de energia elétrica do Estado, para a Âmbar, que foi beneficiada pelo governo com a edição de uma medida provisória logo após comprar as usinas termoelétricas da Eletrobras que vendem energia para a distribuidora amazonense. A medida provisória abriu caminho para a mudança dos contratos de compra e venda da energia que sai das térmicas e vai para a Amazonas, que é deficitária. A Âmbar assumiu o risco de inadimplência ao comprar as térmicas, mas teve o prejuízo bancado pela medida provisória do governo.

Agora, Suarez, que é dono dos gasodutos que abastecem essas usinas, quer ter o poder de assinar a transformação desses contratos, dizendo sim ou não para a mudança que beneficia os irmãos Batista. Paralelamente, ele tenta comprar as usinas da Âmbar, segundo pessoas próximas ao caso. Procurada pelo Estadão,

a Cigás encaminhou manifestações que enviou à Aneel alegando que a transformação dos contratos e a venda das usinas podem afetar seu negócio. Já o empresário Carlos Suarez e a Âmbar não se pronunciaram.

Ontem, a juíza Jaiza Maria Pinto Fraxe, da Justiça Federal do Amazonas, autorizou que a Cigás ingresse como parte na ação judicial movida pela Amazonas Energia que tenta acelerar a transferência da companhia para os irmãos Batista. No âmbito da ação, a magistrada negou o pedido feito pela Cigás para que ela e a Petrobras, que fornece a molécula do gás transportados, fossem ouvidas previamente sobre os contratos das usinas. A decisão foi uma vitória para os irmãos Batista.

A transformação dos contratos no modelo autorizado pela medida provisória depende da Aneel. O caso está na agência, ainda sem solução. O relator do processo, Fernando Mosna, incluiu no parecer uma cláusula que dá poder para a Cigás dizer sim ou não na assinatura dos contratos, contrariando recomendações das áreas técnicas do órgão regulador. Na prática, a empresa de Suarez poderia barrar a negociação.

PROCESSO.

A Cigás entrou no processo da Aneel apresentando o pedido durante a fase de consulta pública. A companhia argumentou que a alteração na modalidade de contratação de energia pode se refletir nos compromissos contratuais entre ela, que recebe pelo gás levado até as usinas, a Petrobras (que fornece o produto) e a Eletrobras (que compra o gás para abastecer as usinas termoelétricas e que vendeu essas usinas para a Âmbar).

“A alteração proposta na modalidade de contratação de energia pode refletir nos compromissos da Eletronorte e da Eletrobras estabelecidos no contrato vigente de compra e venda de gás natural e, eventualmente, nas controvérsias jurídicas existentes, judiciais e negociais, entre a Cigás, o sistema Eletrobras e a Petrobras”, afirmou a compa

nhia.

A área técnica da Aneel afirmou que o pedido da Cigás estava fora do escopo do processo. O relator discordou e declarou que o fornecimento de gás fazia parte dos contratos e era questão relevante para a mudança. O caso terminou empatado. Mosna e o diretor Ricardo Tili votaram a favor do pedido da Cigás. O diretor-geral da Aneel, Sandoval Feitosa, e a diretora Agnes da Costa votaram contra. Essa divisão também aconteceu no processo que trata da venda da Amazonas Energia para os irmãos Batista. Os dois primeiros foram contra e os outros dois foram a favor da proposta apresentada pelo Grupo J&F.

Impedira assinatura dos contratos tornaria o negócio dos irmãos Batista menos rentável, de acordo com agentes do setor de energia, pois o pagamento pela energia das usinas ficaria a cargo da Amazonas Energia, que atualmente não paga a conta eé inadimplente, e de outras distribuidoras. Nesse caso, o custo não seria repassado para a Conta de Energia de Reserva (CER), mais vantajosa para a Âmbar.

Ao dar uma decisão que favorece os irmãos Batista, a Justiça Federal do Amazonas afastou a necessidade de aCig ás eaPetrobr asserem ouvidas na assinatura dos contratos da susinas compradas pela Âmbar. AjuízaJa iza Maria Pinto Fraxe argumentou que as empresas possuem praticamente um monopólio de fornecimento e distribuição de gás no Amazonas eque, se houvesse algo interferindo nesses processos, o negócio já seri anulo.

Especialistas e agentes do mercado de energia ouvidos pela reportagem afirmam que a conversão dos contratos não interfere no negócio de Suarez. Sendo um modelo ou outro, ele continua sendo o distribuidor de gás para a susinas etemo direito de receber o pagamento por esse serviço. Fontes do setor apontam uma tentativa do empresário de barrar os benefícios aos irmãos Batista por ter tido interesse em comprar parte usinas da Eletrobras no passado e agora estar de olho nas usinas da Âmbar. A empresa do Grupo J&F, por sua vez, se recusa a negociar os empreendimentos com Suarez.

PASSO SEGUINTE.

No acordo de venda das térmicas para a Âmbar, a Eletrobras acertou também que, caso a empresa dos irmãos Batista comprasse a Amazonas Energia, o saldo da inadimplência do passado poderia sair do balanço de dívidas da distribuidora e ser convertido em participação da Eletrobras caso a distribuidora passe adar lucro. Ova loré significativo,uma vez que o passivo com a Eletrobras representa 80% da dívida da Amazonas Energia, de cerca de R$ 10 bilhões.

Desde então, concorrentes passaram a entender que o passo seguinte da Âmbar seria comprara Amazonas Energia, o que não demorou a acontecer. O especialistas usam como parâmetro de comparação oque foi feito por empresas privadas que assumiram a distribuição de energia no Pará e em Rondônia e acreditam ser possível que, com algum esforço, a Âmbar consiga lucrar no Amazonas reduzindo as perdas de energia decorrentes de furtos e diminuindo os custos de operação.

A Amazonas Energia tem o maior porcentual de energia furtada do País: 69%. A Light, que opera no R iode Janeiro eque também temo“gato” como problema relevante, tem 32% de furto de energia.

Agentes do mercado, contudo, lamentam que o governo não tenha optado em fazer um leilão para oferecera empresas concorrentes da âmbar a oportunidade de assumira amazonas energia e as térmicas a um custo inferior para os consumidores do país. “Fico espantado que ele ache que o contribuinte não pode pagar, mas acha justo que o consumidor de energia pague a conta, inclusive os de baixa renda, porque ninguém será poupado”, diz o presidente da Frente Nacional dos Consumidores de Energia, Luiz Barata, em referência ao ministro Alexandre Silveira.l

Conta Proposta da Âmbar prevê o pagamento de R$ 6,5 bi de dívidas da distribuidora ainda neste ano

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