Terça-feira, 17 de Março de 2026

Reciclagem de plásticos no Brasil melhora em 2024 e aponta necessidade de novos investimentos para catadores

Após um ano de queda, a indústria de reciclagem de plásticos no Brasil voltou a crescer em 2024. O avanço, ainda tímido, trouxe resultados animadores para a economia e para o meio ambiente: aumento no volume reciclado, geração de empregos, faturamento bilionário e combate à crise climática.

É o que mostra o novo estudo encomendado pelo Movimento Plástico Transforma, iniciativa do PICPlast – parceria entre a Associação Brasileira da Indústria do Plástico (ABIPLAST) e a Braskem.

Divulgada na última quinta-feira (25), a pesquisa tem como objetivo analisar a indústria de reciclagem de plásticos no Brasil e acompanhar os desafios do setor. Além disso, acompanha as metas da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) e de desenvolvimento sustentável nas regiões do país.

De acordo com os dados, só em 2024, foram geradas 4,82 milhões de toneladas de resíduos plásticos pós-consumo no Brasil.

Mas, apesar de tímido, o resultado é animador: o ano foi marcado por uma recuperação dos volumes plásticos reciclados, chegando a 21% em todo o país.

A maior parte desse material foi destinada aos setores de Alimentos e Bebidas (167 mil toneladas) e Higiene Pessoal, Cosméticos e Limpeza Doméstica (132 mil toneladas), que são os principais consumidores, impulsionados pela demanda por embalagens com conteúdo reciclado.

Principais números da reciclagem em 2024:
21% reciclados em todo o país
Mais de R$ 4 bilhões de faturamento da indústria
Mais de 20 mil empregos diretos criados
Neste cenário, o Nordeste ganhou protagonismo: a região já é a terceira força produtora de resina reciclada pós-consumo, com 13,7% do total do país (139 mil toneladas).

“Apesar das dificuldades, houve alguns sinais positivos: setores ligados a compromissos ESG e metas de circularidade, como grandes embaladores e marcas de consumo, mantiveram demanda constante para determinadas aplicações, em linha com seus objetivos”, destaca Maurício Jaroski, diretor de química sustentável e reciclagem da MaxiQuim.

Catadores: o elo essencial

A integração dos catadores de materiais recicláveis com os sistemas de gestão de resíduos ainda é um desafio para a economia circular inclusiva no país.

De acordo com a pesquisa, os catadores ainda são os menos beneficiados pela indústria, mas os índices têm mudado. Do total de materiais comprados, apenas 0,5% é adquirido diretamente com esse grupo – contra 23% de indústrias, 11% de empresas de gestão de resíduos e 10% de cooperativas.

“Observamos que os catadores informais e as cooperativas perderam participação para os sucateiros, um reflexo da baixa remuneração que tem enfraquecido a força de trabalho das cooperativas”, explica Maurício Jaroski.

Atualmente, grande parte da reciclagem do Brasil é feita por catadores autônomos e cooperativas, que vivem em condições de vulnerabilidade. Sem conseguir vender o material por valores satisfatórios, a categoria ainda enfrenta dificuldades como ter sustentabilidade na cooperativa, por exemplo, e não conseguir pagar os custos mínimos como água, energia elétrica e salário dos cooperados.

“A estrutura que os catadores têm é muito defasada, os maquinários estão sucateados e os galpões não comportam o trabalho. Não temos o mínimo de estrutura para trabalhar. Cada grupo tem que se virar como pode”, conta a catadora de Abreu e Lima Lindaci Gonçalves, representante de Pernambuco no Movimento Nacional Eu Sou Catador (MESC).

No entanto, novos programas vêm sendo implementados para incentivar a compra direta de catadores individuais e melhorar suas condições de trabalho – e vida.

É o caso do Projeto Cidades Circulares, da Ambipar, que visa a transformação de catadores em profissionais de reciclagem.

“Às vezes, a cooperativa de catadores está desestruturada e eles não enxergam ali como local de trabalho e muitas pessoas estão em situação vulnerável. Então, a gente traz empresas parceiras que precisam atender o percentual de logística reversa, entra na cooperativa e faz dali um local de trabalho”, explica a diretora Comercial e Institucional da Ambipar, Giulianna Coutinho.

A iniciativa busca oferecer oportunidades para aumentar a renda e melhorar as condições de trabalho, com o objetivo de fortalecer a economia circular e impulsionar a sustentabilidade em centros urbanos como o Recife.

O programa atua, ainda, promovendo formação aos profissionais relacionada ao Protocolo do Plástico, que já gerou um aumento de mais de 150% na renda média dos catadores nesse segmento específico.

De acordo com a empresa, a remuneração da maior parte dos grupos participantes aumentou para mais de R$ 1.900.

“O aumento na renda desses trabalhadores é muito importante, pois contribui para o sustento de suas famílias e também resgata a dignidade por meio de uma atividade tão importante para o nosso planeta”, conta Juliana Navea, diretora de operações da unidade de pós-consumo da Ambipar.

O projeto passa por uma estruturação de quatro fases: a primeira é de diagnóstico e planejamento; a segunda e terceira são de implementação das ações; e a última de consolidação e expansão.

De acordo com a Ambipar, atualmente as cooperativas participantes contam com mais de 110 profissionais que, no diagnóstico inicial, recuperavam em média 19,1 toneladas de materiais recicláveis ao mês. Até o final do projeto, a expectativa é que cada uma aumente mais de 30% a produção.

Enquanto atuam na base e esperam por mais investimento, os catadores de resíduos sólidos são o elo essencial do país com o desenvolvimento sustentável e com o combate à crise climática.

 

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