Quinta-feira, 2 de Abril de 2026

Por que o 5G standalone é mais lento que o 5G non-standalone no Brasil

Uma das obrigações regulatórias na implementação do 5G no Brasil, o 5G standalone está avançando de forma tímida no País em termos de cobertura e espectro utilizado. Essas são algumas das razões para a versão “pura” do 5G registrar velocidades menores por aqui do que o 5G non-standalone, que ainda depende de infraestrutura 4G. Ainda que, destaque-se, o Brasil seja um dos únicos mercados maduros do mundo a ter o 5G Standalone como parte da realidade de operação de todas as operadoras.

Ainda assim, curiosamente, o Brasil é um dos raros mercados onde o 5G SA foi batido em velocidade de download pelo 5G NSA, indicou um relatório recente Ookla (373,56 Mbps contra 433,04 Mbps). Já uma segunda análise, esta de autoria da Opensignal, indicou o 5G standalone brasileiro com desempenho de download 14% abaixo da versão dependente da infraestrutura 4G.

“A razão para isso é a diferença na quantidade de espectro disponível. Alguns operadores lançaram o SA sem implantar a mesma quantidade de espectro que têm no NSA – onde a operadora tem a ‘âncora’ do 4G, além do espectro de 5G operando por cima dela”, explicou ao TELETIME Luke Kehoe, analista da Ookla.

“Por isso, seria preciso ter uma quantidade muito grande de espectro atribuída ao SA para que haja uma melhoria real nas velocidades [na comparação com o 5G NSA]”, prosseguiu Kehoe, em conversa durante o Mobile World Congress (MWC) 2026.

Já Fiona Armstrong-Mills, analista principal da Opensignal para a região das Américas, destacou a base de comparação alta representada pelo 5G NSA no País. “Temos que ter em mente que o 5G NSA do Brasil é muito forte, com velocidades que estão entre as melhores do mundo”, apontou a especialista, também chamando atenção ao espectro.

“O uso do espectro de 3,5 GHz no Brasil, em particular, foi muito eficaz para impulsionar velocidades realmente altas, enquanto outras regiões têm usado mais espectro de banda média mais baixa ou banda baixa, o que é ótimo para cobertura, mas não entrega as mesmas velocidades elevadas”, detalhou a analista da Opesignal.

Dessa forma, segundo Fiona, é possível que incrementos de velocidade que outras regiões já estão vendo com o 5G SA demorem mais tempo – e espectro – para aparecer no mercado brasileiro.

Cobertura limitada
Outro fator destacado pelos especialistas foi a cobertura limitada do 5G standalone no Brasil. “O que temos observado é que só vemos usuários [na rede SA] em cerca de 5% das áreas povoadas”, afirmou Fiona Armstrong-Mills, indicando o estágio ainda inicial da implementação da arquitetura no Brasil, segundo dados da Opensginal.

Para Lourenço Lanfranchi, diretor de vendas da Ookla para América Latina, este perfil de cobertura reduzido também afeta a performance. Ele notou que a tendência no Brasil é de instalação do 5G standalone em locais que têm como característica uma alta concentração de usuários.

“Normalmente, quando você tem essa alta concentração de usuários, diminui a capacidade. Com o aumento da penetração e do crescimento do standalone, ele vai passar [o NSA em velocidades]”, apostou Lanfranchi. Ele também lembrou que, de forma geral, o 5G brasileiro já é um dos mais velozes do mundo.

Hoje, as operadoras nacionais ainda estão tímidas na ampliação da cobertura 5G SA para além do mínimo regulatório exigido no leilão 5G de 2021. Além de aparelhos ainda serem considerados gargalo, empresas já sinalizaram que faltam casos de uso concretos que justifiquem a aposta mais disseminada na rede 5G pura.

Um caso distinto é a Brisanet, que está construindo sua rede 5G de forma 100% standalone, com core (núcleo) de rede nativo na quinta geração. Mesmo neste caso, a quantidade de espectro destinada ao 5G SA é limitada, dada que a mesma faixa utilizada pela Brisanet habilita o 4G da operadora, reduzindo a performance do standalone.

Latência
Por outro lado, um ponto destacado pelos especialistas é que velocidades de download nunca foram a principal promessa do 5G standalone. Na arquitetura, o grande atributo seria a latência, ou o tempo que o dado leva do dispositivo até a rede e vice-versa.

“Do ponto de vista de tecnologia e arquitetura, não há nada inerente ao SA que necessariamente torne a velocidade maior do que no NSA. O foco do SA é mais a latência, e isso provavelmente tem um impacto mais perceptível na experiência do usuário final”, afirmou Luke Kehoe, da Ookla.

Neste caso, os dados das duas empresas de mediação divergem. Enquanto a Ookla aponta um latência menor no 5G SA na comparação com o 5G NSA (32 ms contra 37 ms), a Opensignal aponta o Brasil como um dos países onde o standalone ainda tem latência maior (57 ms, o que seria 37% acima do 5G NSA).

Mas com o avanço da arquitetura, a expectativa é que a latência aprimorada permita a consolidação de novos serviços, aponta Fiona Armstrong-Mills. Um exemplo são os Estados Unidos, onde o recurso já suporta abordagens comerciais avançadas como fatiamento de rede e oferta de banda larga fixa sem fio (FWA) baseada no 5G.

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