Pior crise energética da história mudará o mundo
Sri Lanka e Mianmar estão racionando combustível. As Filipinas instituíram a semana de trabalho de quatro dias para economizar gasolina e luz. Bangladesh fechou temporariamente suas universidades para poupar energia para residências e empresas. Na Índia, famílias e restaurantes estão cozinhando em fogões a lenha devido à falta de gás. As companhias aéreas estão cancelando voos.
Por mais dolorosa que tenha sido a primeira fase da crise energética desencadeada pela guerra com o Irã, o que vem a seguir será pior. Esta semana, espera-se a chegada das últimas remessas de petróleo e gás natural liquefeito destinadas à Ásia que passaram pelo Estreito de Ormuz antes de seu fechamento.
Os últimos petroleiros com destino à Europa devem chegar até meados deste mês. Depois, as reservas de gasolina, diesel, gás liquefeito e gás natural de muitos países se esgotarão. O preço do petróleo pode disparar para US$ 200 por barril se a guerra se prolongar.
Fatih Birol, diretor da Agência Internacional de Energia, considerou isso como “a maior ameaça à segurança energética global da história” – muito pior do que a crise do petróleo da década de 70, a pandemia de covid ou a invasão da Ucrânia pela Rússia, em 2022. Esse conflito interrompeu uma parcela ainda maior do comércio global de petróleo e gás, e não há como preencher rapidamente essa lacuna.
ENERGIA LIMPA. Países como Índia, Indonésia e Vietnã estão respondendo aos preços mais altos do gás queimando mais carvão. Mas, no longo prazo, esse choque acelerará a transição para tecnologias mais limpas, especialmente na Ásia e na Europa. Essa é a primeira crise do petróleo em que alternativas limpas – painéis solares, turbinas eólicas, veículos elétricos e baterias – são baratas e amplamente disponíveis.
A escassez de combustível já levou os consumidores a adotarem essas tecnologias. Quando as Filipinas declararam emergência, no dia 24, os compradores de carros em Manila lotaram as concessionárias da montadora chinesa BYD e adquiriram veículos elétricos.
Fornecedores e instaladores de painéis solares relatam um aumento no interesse dos clientes alemães. As instalações de bombas de calor estão em alta no Reino Unido, assim como as vendas de riquixás elétricos no Paquistão.
Fogões de indução estão esgotando nas lojas online na Índia. No Vietnã, um conglomerado decidiu abandonar os planos de construir a maior usina de energia a gás natural do país e, em vez disso, investir em energias renováveis.
Desde o início da guerra, a valorização no mercado de ações de cada uma das três maiores empresas de baterias da China aumentou 20%, ou US$ 70 bilhões no total. Para governos que avaliam a rapidez com que devem migrar para a energia limpa, a história recente do Paquistão oferece algumas lições.
O país foi duramente atingido pelo choque energético que se seguiu à invasão da Ucrânia. Incapaz de arcar com as importações de gás que se tornaram exorbitantes, muitos de seus carregamentos programados foram redirecionados para compradores europeus mais abastados.
Mas uma enxurrada de painéis solares baratos vindos da China transformou o sistema energético do Paquistão e ajudou a protegê-lo da escassez. A energia solar agora gera quase 30% da eletricidade do país, ante 3% em 2020.
O Centro de Pesquisa em Energia e Ar Limpo estimou que o boom da energia solar ajudará o Paquistão a evitar US$ 7 bilhões em importações de combustíveis fósseis este ano. “Com a energia solar, é possível reduzir a dependência de combustíveis fósseis em questão de alguns anos”, disse a analista Lauri Myllyvirta.
Isso é importante, porque pode levar anos até que o abastecimento de petróleo e gás volte aos níveis pré-guerra. Depois que mísseis iranianos atingiram a instalação de exportação de gás natural liquefeito de Ras Laffan, no Catar, o país interrompeu totalmente a produção, retirando repentinamente 20% do abastecimento mundial do mercado.
Autoridades estimam que levará de três a cinco anos para que essa usina, a maior do mundo, volte a operar em plena capacidade. Outras operadoras na região também reduziram a produção de petróleo e gás porque estão ficando sem espaço para armazenar tudo. Esses poços não podem simplesmente ser reativados como se fossem um interruptor de luz. Levará meses para retomar a produção, criando mais pressão para encontrar alternativas.
CUSTOS. A guerra, de certa forma, também colocará pressão sobre o setor de energia limpa. À medida que a inflação e as taxas de juros sobem, alguns desenvolvedores de projetos podem enfrentar dificuldades para financiar novas instalações de energia e projetos de rede elétrica.
As cadeias de abastecimento de itens essenciais, como transformadores, fios de alumínio e cobre, enfrentam agora seus próprios gargalos e interrupções. O caos torna tudo – seja na construção de infraestrutura energética poluente ou limpa – mais difícil e caro.
Países como a Índia terão de tornar as redes elétricas construídas para o carvão flexíveis o suficiente para incorporar grandes quantidades de energia eólica e solar. Para atender ao aumento na demanda por tecnologia limpa, os governos devem decidir quanto investir em suas próprias fábricas para produzir todos esses painéis solares, bombas de calor e veículos elétricos, e quais tarifas aplicar sobre as versões importadas, segundo Tim Sahay, codiretor do Net Zero Industrial Policy Lab da Johns Hopkins.
Mas países e empresas podem expandir as energias renováveis muito mais rapidamente do que conseguem construir, digamos, enormes terminais de liquefação de gás, gasodutos e usinas de energia.
Alcançar a segurança energética é hoje um imperativo absoluto. Isso significa não apenas instalar mais energia eólica, solar e baterias, mas também desenvolver a capacidade nacional de fabricação de tecnologias limpas e eletrificar o aquecimento doméstico e o transporte. À medida que sua autonomia energética melhora, mais países verão reduções drásticas na poluição atmosférica prejudicial à saúde e nas emissões que causam o aquecimento global.
VISÃO. A China foi o país que mais avançou nesse caminho: na última década, eletrificou grande parte de seus setores de transporte e industrial e reduziu seu consumo de petróleo em mais de 1 milhão de barris por dia, o que lhe proporcionou uma boa margem de segurança durante a crise do Irã. E
mpresas chinesas se comprometeram a investir mais de US$ 227 bilhões na capacidade de outros países de fabricar veículos elétricos, carregadores, baterias, energia solar, eólica e outras tecnologias limpas, segundo relatório da Johns Hopkins.
A menor vulnerabilidade da China às turbulências no setor energético é fruto de um planejamento cuidadoso, destacou Sahay, que remonta à invasão dos EUA ao Iraque, em 2003, o que provocou um aumento de longo prazo nos preços do petróleo. Futuros choques petrolíferos são inevitáveis.
Essa opção continua disponível também para os consumidores americanos, que em breve poderão se ver de olho em veículos elétricos e bombas de calor – mesmo que o governo Trump tenha retirado os incentivos que os tornavam mais acessíveis.
O secretário de Energia dos EUA, Chris Wright, falou em Houston na maior conferência anual de energia do mundo e apresentou os esforços do governo Trump para incentivar a produção de petróleo e gás como uma espécie de projeto humanitário.
A ironia aqui é trágica. A guerra de Trump tornou a energia perigosamente cara em quase todos os cantos do globo, causando sofrimento desnecessário. O governo mais favorável aos combustíveis fósseis da história recente dos EUA mostrou a todos o quão arriscada pode ser a dependência do petróleo e do gás – e ensinou ao mundo que a verdadeira segurança energética reside na aceleração rumo a um futuro mais limpo e eletrificado. •
Menor fragilidade da China diante das turbulências no setor energético é fruto de seu planejamento
