Domingo, 12 de Abril de 2026

Pesquisadores desenvolvem filtro de celulose capaz de purificar a água

Um filtro à base de celulose que lembra uma membrana finíssima é capaz de captar as impurezas químicas que infestam a água, como o mercúrio. Essas substâncias são utilizadas em diversos produtos industriais e de consumo, impactando na saúde, sobretudo no desenvolvimento cerebral e nos sistemas imunológico e neurológico, tireoide e rins. A pesquisa está em desenvolvimento pela Universidade de Massachusetts (MIT), dos Estados Unidos (EUA).

De acordo com o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC), esses compostos são detectáveis no sangue de 98% dos americanos, por exemplo. As substâncias químicas se acumulam nos oceanos, rios e lagos, alterando a cadeia alimentar da fauna e corroborando para o desmatamento.

Sustentável, o filtro criado pelos cientistas da MIT é fabricado com fibroína e de solventes feitos a base de biopolímeros de materiais renováveis. As nanofibrilas produzidas por celulose se juntam por meio da cristalização celular, formando membranas nanoporosas. Em teste, a filtragem a vácuo demonstrou resistência a químicos, desde os mais leves até os mais pesados, graças à fibroína, que é insolúvel em água, hidrofóbica.

Na sua fórmula, o filtro não tem químicos, solventes e tóxicos, ainda apresenta condições de uso intensivo de energia, como altas temperaturas que contribuem para o aumento da poluição. Semelhante ao coador de café, é colocado na água e ali captura chumbo, cromo, cádmio, níquel, tálio, além dos PFASs (per e polifluoroalquil).

Para os pesquisadores, o desafio é introduzir o filtro para uso comercial. Yilin Zhang, pesquisador associado de pós-doutorado no Departamento de Engenharia Civil e Ambiental do MIT, disse que o processo de fabricação é favorável porque ocorre em “temperatura ambiente, pressão atmosférica e em condições amenas”. Porém, Fabiana Valéria Fonseca, professora do Programa de Engenharia Ambiental da UFRJ e engenheira química, ressaltou que o material desenvolvido pelo MIT apresenta custos muito elevados por envolverem processos de substituição ou regeneração.

Tragédias e calamidades
Após as tragédias nos municípios de Brumadinho e Mariana, em Minas Gerais, a contaminação da água potável atingiu a vida de 3,5 milhões de pessoas. Segundo Salatiel Wohlmuth, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a filtragem e o processo de purificação em larga escala de águas contaminadas por metais e químicos sintéticos exigem investimento elevado.

“O investimento nas tecnologias adequadas e o consumo dessa energia podem se tornar insustentáveis ou inviáveis para a população. Nesses casos, buscam-se outras fontes de abastecimento”, disse o professor. Segundo ele, a recuperação é um processo que exige tempo: “A restauração total pode levar décadas, dada a gravidade dos danos ambientais e sociais, e, em alguns casos, danos irreparáveis à flora e à fauna podem ser constatados”.

Para Fabiana Valéria Fonseca, da UFRJ, há o alerta de ampliação dessa contaminação, sobretudo por causa das atividades extrativistas, pecuária, industrial e falta de saneamento. Ela lembra que o trabalho de recuperação do rio Paraopeba e da região afetada pelos dejetos de minérios expurgados da barragem envolve diversas organizações não governamentais (ONGs) e universidades, como a Fundação Renova (Mariana), o Programa de Recuperação de Áreas Impactadas da Vale (Brumadinho), a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a Universidade Federal de Viçosa (UFV), a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), além de ações governamentais e internacionais. 

 

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