Os ministérios que ditam as políticas de desenvolvimento econômico
A crise do tarifaço imposto pelos Estados Unidos em 2025 expôs a importância da existência de setores estratégicos no Palácio do Planalto para enfrentar as ameaças e mitigar prejuízos ao setor produtivo nacional.
Além do Itamaraty, dois ministérios foram essenciais para organizar diagnósticos, articular respostas e buscar saídas: o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) e o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). O primeiro está sob o comando do vice-presidente da República, Geraldo Alckmin (PSB), e o segundo é chefiado por Carlos Fávaro (PSD-MT), agropecuarista e senador licenciado.
No caso da indústria, o MDIC avaliou o impacto das tarifas norte-americanas, mobilizou empresas afetadas, identificou setores mais vulneráveis e coordenou respostas que combinam política industrial, comércio exterior e regulação técnica. Para o empresariado, a ação da pasta criou um ambiente institucional que propiciou a coleta de informação, a interlocução direta e a formulação de políticas para proteger mercados, renegociar barreiras e articular soluções.
Já no agronegócio, o Mapa concentrou esforços para blindar a produção rural, dialogar com produtores, buscar novos mercados e implementar soluções emergenciais articuladas com o setor produtivo.
No auge da crise, aventou-se a participação de outro ministério na mesa de negociações: no caso, o de Minas e Energia (MME), responsável pela atividade de exploração de terras raras, um conjunto de 17 minerais de difícil extração e refino e de grande interesse geopolítico. Eles são usados como matéria-prima em setores considerados críticos, como mobilidade, defesa, eletrônica avançada e transição energética. O Brasil tem a segunda maior reserva de terras raras do mundo (23%), atrás apenas da China — o que ajuda a explicar o apetite de Donald Trump para interferir na política brasileira.
Parte do setor produtivo brasileiro recebeu com ceticismo as medidas de mitigação do governo, como o Plano Brasil Soberano, um socorro econômico às empresas afetadas. Embora o alívio no crédito e a ampliação de incentivos tenham sido bem-vindos, associações como Abinee (Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica), Abes (Associação Brasileira das Empresas de Software) e CNI (Confederação Nacional da Indústria) manifestaram cautela quanto ao tom político, crítico aos EUA, adotado pelo governo. Para o empresariado, a prioridade deveria ser o abandono de retóricas combativas em favor de uma mesa de negociação estritamente técnica. Os fatos demonstrariam que o governo atuou na medida certa.
Em novembro de 2025, os EUA removeram as tarifas de 40% sobre a importação de alguns produtos brasileiros, contudo, sem abordar o tema terras raras. “A nova fronteira de desenvolvimento e de crescimento nacional vai se dar nos minerais críticos: lítio, cobre, nióbio e terras raras. O que o presidente Lula quer é que essa riqueza favoreça a soberania e viabilize o desenvolvimento nacional”, comentou, à época, o ministro do MME, Alexandre Silveira, no programa Roda Viva, da TV Cultura.
A atuação desses ministérios é um exemplo de como decisões tomadas no Executivo impactam o sistema produtivo nacional. No caso do MDIC, estratégias como a política da Nova Indústria Brasil, programa que prevê R$ 300 bilhões em investimentos para tirar a indústria brasileira da estagnação, traduzem-se em oportunidades concretas para empresas: acesso a financiamentos, suporte à inovação, apoio à inserção em cadeias globais de valor e redução de custos regulatórios (leia mais à página 84). A pasta também atua junto a autarquias como BNDES, Inmetro e INPI, que ampliam o impacto de suas ações por meio de crédito, certificação de qualidade ou proteção da propriedade intelectual.

O Mapa tem impacto direto sobre a capacidade de empresas agrícolas e alimentícias de competir globalmente. Por meio da Secretaria de Defesa Agropecuária, o ministério assegura que produtos atendam a exigências sanitárias rigorosas de mercados externos, condição essencial para as exportações. Com a Secretaria de Política Agrícola, o Mapa regula financiamentos rurais, seguro agrícola, estoques e comercialização, oferecendo previsibilidade operacional e mitigação de riscos que afetam a produção, os custos de insumos e a sustentabilidade dos negócios. Já a Secretaria de Desenvolvimento Rural apoia a adoção de tecnologia, práticas sustentáveis e certificações ambientais, fatores cada vez mais exigidos por compradores internacionais e que podem abrir ou consolidar mercados para empresas brasileiras.
A ação dessas pastas contribuem para moldar o ambiente de negócios. Políticas que têm por objetivo reduzir entraves burocráticos, promover inovação tecnológica, ampliar acesso a crédito, garantir segurança sanitária e habilitar produtos para exportação podem fazer a diferença entre um setor crescer ou perder espaço em mercados competitivos. A atuação coordenada do MDIC e do Mapa é uma resposta institucional capaz de trazer estabilidade em momentos de incerteza, como o tarifaço.
O desempenho do Brasil, no entanto, reflete entraves históricos, como a complexidade tributária e fragilidades macroeconômicas. Estudo da Confederação Nacional da Indústria (CNI) indica que, para ser competitivo, o país precisa reduzir o Custo Brasil e ampliar investimentos em educação, inovação, tecnologia e infraestrutura.
O Brasil ocupa a última posição entre 18 países analisados pelo estudo Competitividade Brasil 2023/2024, publicado pela CNI, que avalia a capacidade de competição da indústria nacional frente a economias concorrentes. O índice usa uma escala de zero a dez para medir fatores como ambiente regulatório (em que o Brasil ficou em 18º lugar, com nota 3,3), segurança jurídica (15º/4,3), desburocratização (15º/4,4) e governança (15º/4,2), bem distante dos campeões de competitividade: Holanda, Alemanha e Canadá.
O acesso de empresários ao MDIC pode ser feito por meio de atendimentos institucionais e com a participação de consultas públicas e fóruns setoriais, como o Fórum de Monitoramento do Comércio e Serviços, envolvendo entidades do setor produtivo. Também há ferramentas digitais como o Portal da Regulação, que reúne informações normativas, agendas de consultas e possibilidades de envio de sugestões e contribuições.
Já o site do Mapa oferece acesso a serviços e informações (incluindo licitações, consultas públicas), além de sistemas integrados de gestão agropecuária que conectam produtores e empresas às iniciativas do ministério e concentram plataformas de emissão de certificados, por exemplo.
O MME mantém em seu site uma central de serviços voltada ao setor produtivo. A pasta costuma fazer audiências públicas e consultas para subsidiar o processo de tomada de decisão e a edição de normas. Canais como esses são importantes para que empresas participem da construção de políticas públicas, apresentem demandas setoriais e alinhem suas estratégias de investimento às prioridades nacionais.
