Origem Verificada autenticou 35 bilhões de chamadas em 2025
Em 2025, cerca de 35 bilhões de chamadas foram autenticadas com a solução Origem Verificada. E em 2026 (até 10 de março) foram 1,6 bilhão. Os dados da Anatel apontam que a solução, antes batizada com o nome da ferramenta, o Stir/Shaken, já está na ativa. E, de acordo com a ABR Telecom, a estimativa é que sejam autenticadas 2,5 bilhões de chamadas por mês a partir de agora.
Ao todo, são 17 prestadoras SMP (Serviço Móvel Pessoal) que reportam à Anatel pelo menos um acesso que aderiram ao Origem Verificada, e 322 operadoras fixas de STFC (Serviço Telefônico Fixo Comutado).
Os números ainda são modestos. Para se ter uma ideia, foram feitas 20,6 bilhões de ligações – autenticadas ou não – por mês, em média, de acordo com dados extraídos entre junho de 2024 e dezembro de 2025.
O Conselho Diretor da agência publicou em abril de 2025 a resolução 777 que dispõe sobre o Regulamento do Serviço de Telecomunicações, no qual consta uma determinação que impõe o prazo de três anos para que todas as chamadas fossem autenticadas. Esse prazo se encerra em 2028.
“O que antes a gente vislumbrava apenas como algo voluntário, passa a ter um prazo de três anos obrigatório. O grupo, que antes estava voltado à implementação do Stir/Shaken, e que tinha reuniões semanais, agora vai contribuir para a implementação”, explica Suzana Rodrigues, Superintendente de Controle de Obrigações da agência.
Origem Verificada e seus desafios
A Ótima Digital, empresa de gestão e operação de canais de atendimento e atuante nos estudos de implementação e integração da plataforma do Origem Verificada nas operadoras, e a ABR Telecom, entidade responsável pela implementação da solução, estimam que as empresas terão alguns desafios para encarar. São eles:
Interconexão entre operadoras. Este é considerado o maior obstáculo técnico atual. Para que o selo de autenticação apareça no celular do usuário, os dados da chamada (como cabeçalhos e tags de verificação) precisam trafegar intactos de uma operadora para outra. No entanto, muitas interconexões ainda utilizam tecnologias analógicas antigas (como E1 e ISDN) que não suportam o transporte dessas informações adicionais. Mesmo que a operadora de origem e a de destino estejam atualizadas para o formato digital (SIP), se a chamada passar por uma rede intermediária desatualizada, a informação de autenticação se perde no caminho. Além disso, atualizar cada rota de interconexão é um processo lento, que pode levar cerca de seis meses.
Escalabilidade para 100% do tráfego. A plataforma atual precisa ser expandida ou migrada para uma nova arquitetura capaz de lidar com todo o volume de chamadas do Brasil, englobando não apenas a telefonia móvel e fixa, mas também as chamadas originadas por provedores de internet (Serviço de Comunicação Multimídia – SCM), que funcionam via IP. O desafio é fazer com que essa solução em massa funcione tecnicamente sem inflar os custos de operação a ponto de encarecer o serviço para o consumidor final.
Atualização da infraestrutura de rede legada e barreiras geográficas. Para que a autenticação funcione, a ligação precisa trafegar em redes que suportem as tecnologias 4G ou 5G com a função VoLTE (Voz sobre LTE) ativa. Enquanto os grandes centros urbanos já possuem essa estrutura, áreas litorâneas, interioranas ou remotas ainda operam com infraestruturas mais antigas (como o 3G ou redes herdadas da antiga Telebrás) que não têm canais suficientes para suportar a tecnologia. Atualizar equipamentos físicos, como fibras e antenas, em regiões de difícil acesso, como o interior do Amazonas, impõe severas dificuldades logísticas.
Compatibilidade e limitações dos smartphones O elo final da cadeia é o aparelho do usuário, que precisa ser um smartphone compatível (4G/5G com VoLTE) e com o sistema operacional atualizado (versões recentes do Android ou iOS). Embora a Anatel tenha trabalhado com fabricantes para melhorar essa compatibilidade e o cenário já esteja mais positivo, ainda existem percalços. Um exemplo são os aparelhos com sistema iOS (Apple), que possuem restrições tecnológicas e, muitas vezes, exibem o selo de número validado apenas no histórico de chamadas, e não na tela inicial enquanto o telefone está tocando.
Como viabilizar a plataforma
Para viabilizar a autenticação de todas as chamadas e reduzir o impacto financeiro, as operadoras e a ABR Telecom estão discutindo a definição e a migração para uma nova arquitetura técnica.
Expandir a plataforma atual da forma como ela funciona hoje para abranger todo o tráfego de telefonia do Brasil (fixa, móvel e SCM) poderia inflar os custos de operação. Por isso, as empresas estão avaliando alternativas junto a diversos fornecedores para construir uma nova plataforma que suporte esse volume massivo a um custo razoável.
A premissa fundamental desse projeto é evitar que o custo da autenticação seja repassado para o consumidor, garantindo que o preço atual dos planos de telefonia não seja afetado. A expectativa do setor é definir essa nova arquitetura ainda este ano, para que a implementação seja feita gradualmente.
Cabe à ABR Telecom não somente a contratação do Stir/Shaken como a gestão do modelo de negócio como um todo. Ela gerencia a entidade e o conselho responsáveis por calcular e administrar o rateio dos custos dessa plataforma entre as empresas que aderem ao serviço (baseado no volume de uso de cada uma). “A ABR contrata o fornecedor e os custos são divididos entre as operadoras que aderem ao serviço”, explica Ildeu Borges, gerente de negócios da ABR Telecom.
Anatel
Em um primeiro momento, o Stir/Shaken foi uma ação voluntária por parte das operadoras, mas chegou um determinado momento em que a agência reparou que era preciso avançar. “Existia a necessidade de uma ação regulatória mais contundente. E estamos nessa virada de cenário”, explica Rodrigues. “Estamos numa terceira onda”, resumiu.
A primeira foi o mercado procurando a solução do Stir/Shaken e ver se o próprio mercado se autoajusta. A segunda foram as ações da Anatel contra as chamadas indesejadas. E, nesta, a agência procura algo mais concreto e incisivo.
