Operadoras regionais não têm pressa em realizar IPO
A “estiagem” prolongada no mercado brasileiro de ações — sem ofertas públicas iniciais (IPOs) nos últimos três anos — dificilmente será quebrada por uma operadora de telecomunicações. Na mais recente leva de IPOs, entre 2020 e 2021, Desktop, Unifique e Brisanet levantaram cerca de R$ 2,8 bilhões por meio de suas ofertas em bolsa. Para 2025, no entanto, possíveis candidatas — operadoras regionais de médio e grande porte — não pretendem listar suas ações na B3.
Não se trata apenas de uma busca por condições macroeconômicas mais favoráveis. “Pensar [em abrir o capital em bolsa], pensamos a toda hora”, diz Gustavo Pozzebon Stock, diretor-presidente da Brasil TecPar, holding que, ao fim de novembro, somava quase 787 mil clientes de banda larga fixa, de acordo com a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel).
“Quando você atinge R$ 1 bilhão de faturamento, já aparece um banco batendo na sua porta”, acrescenta André Valente, diretor financeiro da Brasil TecPar, confirmando que este foi o caso da holding. Apesar do interesse de instituições financeiras em viabilizar um IPO da empresa, ele argumenta que a operação não faria sentido por ainda ser pequena para os padrões de grandes investidores.
“O mercado tem uma regra para a liquidez, para o percentual de ações que trocam de mãos todo dia: 0,5% de liquidez diária é uma regra que os investidores olham. Acima de 0,5%, a liquidez é boa”, sustenta Valente.
Dentro dessa lógica, uma empresa com R$ 500 milhões de “free float” (ações em livre circulação) precisaria ter liquidez diária de pelo menos R$ 2,5 milhões para atrair investidores de grande porte, argumenta o diretor financeiro. Um volume relativamente baixo de negociações diárias pode ser empecilho para investidores institucionais — acostumados a aportar dezenas de milhões de reais numa só tacada — na hora de desfazer sua participação acionária.
Além disso, a venda dessas posições pode derrubar significativamente o preço dos papéis ao longo de vários pregões seguidos, ressalta Valente, citando experiência numa empresa em que trabalhou anteriormente. Nesse caso específico, as ações caíram por três dias seguidos — com perdas sucessivas de 15%, 12% e 11% por conta da saída de um acionista do negócio, lembra ele.
Abertura de capital em Nova York
Para listar ações em bolsa, seja no Brasil ou no exterior, seria necessário crescer mais, admite Gustavo Stock. “Em tese, já temos volume suficiente para atrair investidores. [Oferta pública inicial de ações] dá um baile bom, mas uma ressaca forte. Não podemos nos sujeitar a uma volatilidade dessas”, resume o diretor-presidente, que não descarta uma futura abertura de capital em Nova York.
Sexto maior provedor de acesso à internet do país, com 1,37 milhão de conexões via fibra óptica em novembro, a Vero captou mais de R$ 2 bilhões desde abril de 2023 por meio da emissão de debêntures. Na mais recente operação, encerrada em setembro, a empresa assegurou R$ 900 milhões.
Mesmo com um volume de captações expressivo, a empresa considera a possibilidade “de um IPO no futuro, alinhado a um cenário macroeconômico favorável”, conforme ressalta o diretor-presidente, Fabiano Ferreira. “Enquanto aguardamos isso, seguimos avançando em outras frentes para garantir o crescimento sustentável, atentos às oportunidades que porventura venham a surgir. Estamos sempre avaliando possibilidades de M&As [fusões e aquisições] e capitalização por eventuais novos investidores”, diz o executivo.
Com pouco mais de 780 mil assinantes de banda larga, a Alares — que tem a firma americana de investimentos Grain Management como acionista majoritária — não tem planos de abrir seu capital no momento. “Hoje, nosso modelo de negócio tem nos permitido crescer de forma robusta e rentável, sem a necessidade de realizar um IPO”, diz Denis Ferreira, CEO da Alares.
A decisão — explica Ferreira — está mais relacionada à estratégia e ao momento empresarial da Alares do que às perspectivas macroeconômicas de 2025. “Nossa prioridade é manter o forte ritmo de crescimento que temos alcançado, tanto organicamente quanto por meio de aquisições estratégicas”, esclareceu.
