Operadoras apostam em multiórbita
O mercado de satélites vive um momento de competividade e disrupção. Algumas das principais operadoras com atuação no Brasil apostam no modelo multiórbita, com a integração de satélites geoestacionários GEO (Geosynchronous Earth Orbit, satélite que nesta órbita se mantém fixo em relação à Terra a uma altitude média de 35.786 km), com modelos de órbita baixa LEO (Low Earth Orbit, uma órbita em que os satélites se encontram a uma altitude de 500 a 1.500 km da Terra) ou média, com o satélite MEO (Medium Earth Orbit), que fica em altitude típica de 10.400 km, no espaço ao redor da Terra, a uma distância intermediária entre as órbitas GEO e LEO.
“Estamos num momento de mercado aquecido, resultado de uma série de fatores”, explica Mauro Wajnberg, presidente da Associação Brasileira das Empresas de Telecomunicações por Satélite (Abrasat). Ele cita como principais fatores a inovação tecnológica e a entrada de novas empresas, de capital privado, desenvolvendo tecnologias espaciais que possibilitam novas ofertas, aplicações e serviços, não só de comunicação, mas de monitoramento, telemetria de veículos e internet das coisas (IoT).
Esse movimento tem sido chamado de new space, expressão que se refere às mudanças no setor espacial global. A Abrasat, que congrega mais de 30 associados, entre operadoras, fabricantes de equipamentos e prestadores de serviço, estima que no período 2022-2025, os investimentos em GEO e MEO no país devem chegar a US$ 3,2 bilhões. Já os investimentos em LEO são estimados em US$ 50 bilhões para o mesmo período – nesse caso, os números são globais.
“Os investimentos em LEO são altos, mas a arquitetura LEO dá um ganho de escala, com mais capacidade para comercializar, porque tem características de baixíssima latência e altíssima capacidade, que é o que o mercado corporativo está buscando”, comenta Wajnberg. Ele dá como exemplo a Telesat (além de dirigir a Abrasat, o executivo é diretor geral da operadora que está há 25 anos no Brasil com dois satélites em órbita brasileira e dois licenciados em órbita estrangeira); a empresa já fechou financiamento e vai investir US$ 3,8 bilhões na constelação LEO.
Com a marca Lightspeed, começa a lançar os satélites em 2026, para ter a constelação com cobertura global no final de 2027. O foco é o mercado corporativo. “Não queremos ir para o mercado residencial. Vamos continuar com o modelo atacadista e teremos níveis de SLA [acordo que visa garantir a qualidade do serviço ofertado] e nível para atender as telcos, empresas de celular e até operadoras regionais de satélite que não tenham como investir”, antecipa o diretor da Telesat.
Outra operadora de satélites geoestacionário que aposta na constelação LEO é a Eutelsat. A rede da OneWeb, subsidiária que forence internet de banda larga via satélite, já está ativada nas Américas, incluindo o Brasil, com operações comerciais. “O mercado brasileiro representa uma oportunidade massiva, por seu tamanho e quantidade de verticais”, diz Juan Pablo Cofino, vice-presidente regional e diretor de vendas Américas da Eutelsat.
Na visão de Fabio Alencar, presidente do Sindicato Nacional das Empresas de Telecomunicações por Satélite (Sindisat), o país sempre foi um grande mercado consumidor de satélite, o que atrai players globais. A afirmação foi feita em referência a entrada da Starlink no mercado brasileiro. Segundo Alencar, há outras constelações vindo, como a Amazon Kuiper, que teria porte de investimento comparável ao da Starkink. “O Brasil tem um valor de mercado muito grande, pois o satélite é a solução mais adequada para resolver os problemas de integração do país.”
Para Lincon Oliveira, diretor geral de satélites da Star One Embratel, o momento é de transformações. “Isso é bom porque estamos nos defrontando com novas soluções e novas oportunidades”, comenta. A Star One, que foi criada dentro do grupo Embratel para operação de satélite geoestacionário e depois incorporada à Claro, também está entrando no movimento multi-órbita, porém, sem ser investidor ou proprietário de uma constelação.
“Estamos usando as constelações como insumo industrial. Entram no nosso portfólio de serviços para termos uma rede, por exemplo, de 1.300 pontos, atendidos por meio terrestre, satélites geoestacionários da nossa frota e, quando necessário, utilizamos esses outros serviços”, explica.
O diretor da Star One também está otimista com o serviço de comunicação direta entre celulares e satélites (D2D, na sigla em inglês), ainda em fase de testes em um sandbox regulatório – isto é, um ambiente regulatório em que a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) concede regras especiais para empresas realizarem experimentos com tecnologias inéditas em espaços controlados).
“Está em ebulição, mas tem futuro e vai acontecer”, diz Oliveira. Com o serviço, os aparelhos celulares poderão se comunicar diretamente com os satélites em órbita, em vez de usar as torres de celular em terra como nas redes móveis tradicionais. Outra aplicação, destaca, é para o tráfego de dados de aplicações de IoT.
