Terça-feira, 10 de Março de 2026

Operação no Brasil ajudará o grupo Telefónica em plano de economizar € 3 bilhões até 2030

O Brasil vai exercer um papel relevante no plano global de corte de custos do Grupo Telefónica, controlador da Telefônica Brasil, dona da Vivo. A multinacional espanhola apresentou nesta terça-feira, 4, em Madri, o plano para contornar as contas apertadas e sair da estagnação nos próximos anos.

O grupo espera economizar € 3 bilhões até 2030, com medidas de cortes de custos e ganhos de eficiência em todos os países onde atua. O presidente global, Marc Murtra, disse que o Brasil entrará na roda. “O Brasil está incluído, sim”, afirmou.

Segundo Murtra, a redução de custos por aqui virá, principalmente, da remoção e da venda das redes de cobre que eram usadas na telefonia fixa, além das vendas de imóveis que abrigavam estações telefônicas obsoletas.

Ao todo, a Telefônica Brasil deve levantar R$ 4,5 bilhões com as vendas desses ativos até 2027. Isso equivale a cerca de € 700 milhões, ou 23% da meta global de economia do grupo. Outra vertente importante será a digitalização de processos e o uso cada vez maior de inteligência artificial para atendimento aos consumidores, contou.

Na sua apresentação, Murtra reiterou que a multinacional vai focar nos quatro mercados eleitos como os mais estratégicos — Espanha, Reino Unidos, Alemanha e Brasil — e vender as operações nos países menos relevantes para os resultados — Chile, Colômbia, México e Venezuela. Nos últimos meses, a companhia já vem se desfazendo das operações na América Latina, como foram os casos de Uruguai e Equador, recentemente.

Perguntado se a Telefónica pretende vender uma participação minoritária na Telefônica Brasil, Murtra tangenciou a questão, limitando-se a dizer que estuda constantemente alternativas de alocação de capital. Notícias da imprensa espanhola apontam que o grupo avalia vender 20% do capital da subsidiária brasileira, o que corresponde a R$ 20 bilhões, e usar esse dinheiro em investimentos na Europa. Um eventual desinvestimento parcial não comprometeria a sua posição de controle por aqui, pois o grupo detém 70% do ativo e permaneceria como majoritária.

O que o grupo espanhol comunicou de concreto para o Brasil é que busca manter a trajetória de crescimento superior ao da inflação nos seus principais indicadores, aprimorando a oferta de serviços e a sua infraestrutura. Para o segmento de banda larga, o grupo quer garantir a atração e a retenção dos clientes, com ampliação do pacote Vivo Total (que reúne internet móvel e fixa) e diminuição nos índices de desconexões (churn, no jargão). A banda larga é onde a competição está mais intensa.

Outra aposta aqui é a oferta crescente de serviços de tecnologia (TI) e conectividade para empresas (B2B), que deve atingir 42% do faturamento total até 2028, de 38% atualmente.

O mercado está de olho numa possível venda da Oi Soluções, braço de TI para empresas da Oi, em situação pré-falimentar. Se o ativo for colocado à venda, a Telefônica Brasil vai avaliar a aquisição, avisou o presidente local, Christian Gebara.

Contas apertadas
A Telefónica vem de um ciclo de baixo crescimento pela falta de escala. A receita líquida consolidada de janeiro e setembro de 2025 totalizou € 27 bilhões (cerca de R$ 170 bilhões). Apesar de gigantesca, a cifra representa um avanço de apenas 1,1% na comparação com o mesmo período de 2024.

O lucro operacional foi de € 9 bilhões (R$ 56 bilhões), um aumento discreto de 0,9%. O Brasil contribuiu com 32,5% do lucro operacional neste ano, apesar do câmbio depreciado, mantendo-se como o segundo principal negócio, atrás da Espanha, com 38,2%.

A dívida líquida consolidada da Telefónica foi de € 28 bilhões (R$ 176 bilhões), o equivalente a 2,3 vezes o seu lucro operacional anual. Esse patamar incomoda a direção, que defende a necessidade de ganhar escala, aumentar as margens de lucro e investir mais em tecnologia e inovação. Na visão de Murtra, o grupo tem pouca flexibilidade financeira.

O presidente defendeu a consolidação do mercado de telecomunicações, o que poderia gerar sinergias no montante de € 18 bilhões a € 22 bilhões. A consolidação na Europa é uma bandeira que a Telefónica levanta há anos, mas esbarra em restrições de órgãos reguladores por lá.

O principal argumento é que a baixa competitividade das empresas europeias coloca a região na dependência de tecnologia de fora. Murtra lembrou que a Europa tem 38 operadoras para atender 600 milhões de pessoas.

Nos Estados Unidos, são três para 350 milhões, e na China, três para 1,4 bilhão. Ou seja, as empresas estrangeiras têm maior escala, lucro e capacidade de investir, o que não se vê na Europa.

Dentro desse contexto, a Telefónica revisou a sua política de distribuição de dividendos para preservar o caixa — o que fez a ação despencar 13% na Bolsa de Madrid (BME) nesta terça-feira, 4. O dividendo para 2025 foi confirmado em 0,30 euro por ação, enquanto para 2026 foi para 0,15 euro por ação.

Por outro lado, o plano prevê uma taxa de crescimento anual composta (CAGR, na sigla em inglês) de 1,5% a 2,5% nas receitas e no lucro operacional entre 2025 e 2028, acelerando para 2,5% a 3,5% no período de 2028 a 2030.

Para crescer, foram definidos os seguintes pilares: expandir as ofertas de internet e serviços digitais para os consumidores e para empresas, simplificar o modelo operacional, entregar a melhor experiência ao cliente, evoluir as capacidades tecnológicas e desenvolver talentos — todas medidas internas, tendo em vista que a consolidação é incerta.

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