Segunda-feira, 6 de Abril de 2026

Obra em andamento, 5G acelera no Brasil

 No centro logístico da Huawei, em Sorocaba (SP), câmeras com inteligência artificial (IA) acompanham a operação, enquanto uma dúzia de veículos autônomos inteligentes transporta matéria-prima e equipamentos. Tudo conectado por 5G. As tecnologias habilitadas pela conectividade ultrarrápida de baixa latência renderam 25% a mais na eficiência da operação, cujo ciclo de produção caiu de 17 para 7 horas. “O tempo de contagem do inventário tombou de 48 para 2 horas”, descreve o diretor de logística Emerson de Oliveira. 

 Esse exemplo tangibiliza os propalados benefícios do 5G para o setor produtivo. Mas o número de casos de uso ainda é pequeno. Por ora, pesquisa da IDC constatou que 49% das empresas entrevistadas têm investimentos e iniciativas relacionadas ao 5G, mas a maior parte dos benefícios se concentra em conectividade, com mais eficiência e agilidade em processos de negócios e força de trabalho – como um vendedor na rua que acessa mais rápido sistemas e informações necessários para formatar uma boa proposta. 

 Usos mais sofisticados enfrentam barreiras como dificuldade para justificar investimentos e educação, desafiando o entendimento da tecnologia mais adequada a cada caso. “O 5G ganha mais em dinâmica de mobilidade, de dispositivos, pessoas, veículos ou materiais, seja um porto, manufatura ou hospital”, afirma Luciano Saboia, da IDC. 

 A expansão do 5G é um dos pilares da missão Digitalização, uma das seis da Nova Indústria Brasileira (NIB), política do governo federal para estimular o setor industrial no país. Mas é transversal a todas as outras, como saúde ou agro. A missão tem metas como transformação digital de 25% das indústrias do país até 2026, ante 18,9% registrados em 2023, chegando a 50% em 2033. 

 O braço de investimentos da NIB, o Plano Mais Produção, calcula aporte de R$ 342 bilhões até 2026 nessa missão, incluindo R$ 85 bilhões da iniciativa privada, e destina até lá R$ 4 bilhões do Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações (Fust) para conectividade. É pouco, perto dos R$ 34 bilhões investidos pelas teles no ano passado, mas ajuda a tapar buracos na conectividade nacional. 

 O Brasil não está mal na foto do 5G. Compromissos do leilão de 2021 vêm sendo antecipados e a tecnologia já está disponível em 908 municípios, 70% do total nacional, com 26,6 mil estações licenciadas. Em julho, o número de acessos móveis com a tecnologia chegou a 30,9 milhões. Com 4G, são 192 milhões. 

 Tecnologias digitais tendem a economizar recursos”  — Samantha Cunha 

 No mercado corporativo, relatório do Global Mobile Suppliers Association (GSA) do segundo trimestre põe o Brasil como líder em aumento de redes privativas, com mais 8% sobre o trimestre anterior, lembra o diretor de redes em telecomunicações na Accenture Brasil, José Marcelo Vilela. “O 5G é base para digitalização, caminho para a produtividade e combate da mudança climática, já que tecnologias digitais tendem a economizar recursos”, afirma Samantha Cunha, gerente de política industrial da Confederação Nacional da Indústria (CNI). 

 Casos de redes privativas se concentram no topo da pirâmide empresarial e, mais dia, menos dia, começarão a impactar seus segmentos. Instituições como Einstein e Sírio-Libanês desenvolvem e testam aplicações, de ambulância conectada ao hospital a monitoramento remoto. No setor financeiro, maior investidor do país em tecnologia, Banco do Brasil, Itaú e Bradesco miram o banco do futuro conectando agências para driblar problemas de cabeamento e adotar soluções avançadas, como atendimento robótico. O agronegócio começa a migrar redes privativas 4G para 5G e busca parceiros para criar novas aplicações. 

 “O 5G no Brasil ainda está descobrindo suas vocações”, avalia Rodrigo Marques, vice-presidente de estratégia e gestão operacional da Claro. “O mercado B2B está em fase de desenvolvimento de modelos de negócios envolvendo toda a cadeia”, complementa Debora Bertolasi, diretora executiva B2B da Vivo. 

 O amadurecimento está em curso. A Brasil Terminal Portuário (BTP) ganhou disponibilidade ao conectar o terminal de contêineres com rede privada, eliminando interferências comuns do Wi-Fi. A capacidade passou de 30 MB para 1 GB, e a velocidade na troca de informações entre equipamentos caiu de 2.000 para 15 milissegundos. A estabilidade amplia a conectividade dos equipamentos de movimentação de contêineres, a segurança da equipe e a sustentabilidade, com menor consumo de energia, afirma a gerente de TI e segurança da informação da BTP, Fabiana Morgante. 

 A Nestlé se prepara para expandir o uso do 5G, aplicado inicialmente na linha de produção do chocolate Kit Kat na fábrica de Caçapava (SP). Os testes incluíram veículo autoguiado para transporte entre linhas e óculos de realidade virtual para treinamento e de realidade aumentada para verificação interativa de indicadores do processo produtivo. As instalações de infraestrutura já foram ampliadas para cobertura de quase 4 mil m2 e mais processos de produção. 

 O 5G no Brasil ainda está descobrindo suas vocações”  — Rodrigo Marques 

 A Petrobras iniciou seu percurso com 4G, com sinal privativo em 22 unidades industriais onshore e 22 plataformas de produção offshore. O uso inclui soluções para manutenção e inspeção em plataformas e refinarias, assistência remota, solução móvel para gestão de estoque e recebimento de materiais e aplicações para gestão de produtos químicos e abastecimento das embarcações nos portos. A migração para o 5G, segundo Cassiano Ebert, gerente executivo de tecnologia da informação e telecomunicações da estatal, nasce com prova de conceito com controle remoto de robôs e operações de inspeção autônoma. Um dos desafios é a oferta limitada de dispositivos com a tecnologia robustos ou à prova de explosão. 

 A Gerdau evoluiu do 4G para 5G na rede privativa de sua maior planta global, em Ouro Branco (MG), com 8,3 milhões de m2. O projeto inclui cinco torres dedicadas 5G e uma rede de transporte (backbone), com um “túnel” criptografado para usar a rede pública e a fatia privada dedicada pela Claro enxergando tudo como uma rede da própria companhia. A rede privativa atinge capacidade de até 4,8 Gbps. 

 O uso de carregadores manuais para leitura de produtos a serem entregues aos clientes foi eliminado com leitura automática nos caminhões. Trinta câmeras 5G e carboxímetros pessoais atuam na segurança e mais de 1.000 sensores monitoram ativos críticos para, por exemplo, prever uma parada, conta o diretor global de tecnologia e digital, Gustavo França. A modelagem de gêmeos digitais, desenvolvida com cinco anos de dados, é enriquecida com os ativos conectados. Como o backbone facilita a navegação da rede privada para a pública, a planta de São Caetano (SP), a 600 km de distância, consegue adotar as soluções por meio da cobertura 5G na cidade. 

 Já a V2com, da WEG, usou experiência em casa com rede privativa e laboratório 5G para formatar o portfólio de produtos e serviços para conectividade, como equipamentos que interligam rede e dispositivos. Rede privativa na fábrica de placas de Jaraguá do Sul (SC) apoia coleta de parâmetros, testes e desenvolvimento de produtos 5G, como o computador industrial de IoT IGX1, para aplicações de IA na borda, explica o diretor de vendas José Palazzi. 

 

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