Domingo, 5 de Abril de 2026

O Brasil tem o que é preciso para se tornar uma potência na área de semicondutores?

Os semicondutores se tornaram um dos elementos mais importantes da chamada “guerra fria tecnológica”, e sua importância aumentou ainda mais com o avanço da IA generativa e a necessidade de ter uma maior capacidade de processamento.

O Brasil tem um grande setor de semicondutores, com diversas empresas focadas principalmente na parte de encapsulamento e testes da cadeia produtiva. Depois de um 2023 fraco, as receitas do setor estão crescendo de novo e devem voltar este ano a um nível de cerca de US$ 1 bilhão.

Nesta entrevista, Rogério Nunes, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Semicondutores (Abisemi), conversa com a BNamericas sobre as perspectivas gerais para o setor, IA, nearshoring e a Lei de Chips dos Estados Unidos.

BNamericas: Qual é a expectativa para o mercado este ano?

Nunes: Estamos com boas perspectivas para o setor de semicondutores este ano no Brasil, e mesmo no mundo. As coisas melhoraram bastante. Tivemos um ano de 2023 bem ruim.

Os semicondutores incluem vários setores e etapas. Software, equipamentos, materiais, desenvolvimento e manufatura. Esta, dividida em duas fases. A parte do wafer e a de encapsulamento e testes, que é o que temos no Brasil.

Era previsto que, em 2023, o setor de semicondutores, dentro da venda de produtos, wafer e encapsulamento, passaria dos US$ 600 bilhões mundialmente. Mas a indústria fechou o ano com US$ 535 bilhões. No Brasil não foi muito diferente.

BNamericas: Por que essa queda? A demanda por chips não tem aumentado?

Nunes: Vários fatores. Ainda há choques da pandemia. Os conflitos na Ucrânia e no Oriente Médio, por sua vez, são inflacionários. A inflação aumentou bastante no mundo todo. A demanda por produtos em geral caiu muito, particularmente nos Estados Unidos e na Europa. O setor de semicondutores reduziu os preços para poder vender mais.

O segmento de placas de memória, carro-chefe do setor no Brasil, teve uma redução expressiva de preços no ano passado. Isso gerou prejuízos em várias grandes empresas mundiais fabricantes desses produtos, prejuízos sem precedentes.

Em 2024, ainda que os conflitos persistam, já ocorre um processo desinflacionário mais generalizado. Estamos vendo uma nova demanda chegando.

Além disso, os fabricantes globais ajustaram suas produções. Com esse reajuste, houve um aumento de preços de 2023 para cá. O setor de memória teve aumentos de preços de cerca de 50%. Ainda é inferior a 2021, em termos de preços médios, mas já é superior ao ano passado.

BNamericas: E no Brasil?

Nunes: No Brasil, prevemos que o setor de semicondutores retorne aos níveis de US$ 1 bilhão de faturamento este ano. Este foi aproximadamente o valor do mercado nacional em 2022. Em 2023, o mercado nacional caiu entre 30-35%, para algo próximo de US$ 700 milhões.

Por enquanto, o mercado tem evoluído positivamente. Claro que ainda tem metade do ano para acontecer. Ainda há desafios.

O mercado ilegal de smartphones, por exemplo, cresceu muito. De cada quatro smartphones vendidos no Brasil, um é ilegal. Isso afeta a produção local, a produção de componentes e semicondutores. Isso atrapalha bastante a indústria.

Mas, ainda assim, fruto de maiores densidades de memória, a demanda está mais aquecida.

BNamericas: Chipsets para diferentes funções de processamento de IA, por exemplo.

Nunes: Isso. Estou me referindo a componentes para IA, para computação de alto desempenho (HPC). Vamos ter muito mais softwares e aplicativos para tratar e cuidar da IA.

Mas, para que tudo isso possa rodar, precisamos de hardware. Um computador com capacidades de IA hoje precisa de três processadores: MPU, GPU e NPU. Cada um com uma função.

Nota do editor: MPU, GPU e NPU são unidades de microprocessamento, de processamento gráfico e de processamento neural, respectivamente.

Será preciso mais memória. A quantidade de memória utilizada está dobrando, triplicando.

Mesmo com a questão dos smartphones ilegais, um tema, aliás, que já está sendo tratado pelo governo federal e que deve reduzir nos próximos meses e anos, um celular que antes rodava com 128 GB de memória agora conta com 256 GB ou 512 GB. Isso significa mais negócios para nós. E me refiro apenas à Abisemi, à parte de manufatura.

BNamericas: Quais são os outros impactos positivos?

Nunes: Prestadores de serviços. Há prestadores de serviços no país que, somados, já estão comercializando mais de R$ 350 milhões [US$ 62,7 milhões] em serviços. São designers brasileiros, empresas com até 15 engenheiros, que prestam serviços de projetos de chips para o exterior. Temos mais de 520 profissionais fazendo isso no país. É um mercado que está crescendo de uma forma bastante interessante.

BNamericas: O Brasil está bem posicionado para o fornecimento de GPUs para servidores em grandes datacenters? Ou eles são basicamente importados, vindos da Nvidia, por exemplo?

Nunes: Nós temos fabricação de servidores no Brasil. As grandes empresas já fabricam aqui há algum tempo. Existe no Brasil um número expressivo de datacenters que eventualmente utilizam memórias locais.

Mas você está correto. Em grande parte, o setor importa esses produtos. Nós temos interesse em passar a oferecer essas tecnologias localmente, para que a gente possa penetrar também nesse segmento.

BNamericas: Mas será que essas grandes empresas globais de nuvem estariam interessadas em novos fornecedores, em fornecedores locais?

Nunes: Há três questões a serem consideradas: custo, tecnologia proprietária – e, neste ponto, muitas vezes essas empresas não têm interesse em discutir com novos fornecedores – e disponibilidade tecnológica.

Quer dizer, essa tecnologia precisa estar disponível. Estamos trabalhando nessas três frentes. Então, sim, é possível, ainda que hoje seja um mercado com pouca penetração de empresas locais.

BNamericas: O governo colocou os semicondutores no novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e na nova política industrial, e retirou a estatal Ceitec de um processo de liquidação. Essa suposta priorização já se reflete em mais negócios para o setor?

Nunes: Temos visto uma ação muito forte do governo no sentido de dar suporte ao setor. O governo passou a reconhecer que esse é um setor realmente estratégico, de segurança nacional, até.

Nós da Abisemi já vínhamos discutindo há algum tempo novos incentivos, e passamos a ter apoio do Executivo atual. Neste momento, tramita no Congresso o PL 13, aprovado pela Câmara há algumas semanas.

Estou em Brasília para que tenhamos o PL 13 sancionado antes do recesso parlamentar. Esse projeto de lei é capitaneado pelo Executivo, e é um projeto em que a Abisemi, a Abinee, a P&D Brasil e outras associações estão diretamente envolvidas, para subsidiar com questões técnicas a discussão no parlamento.

O texto corrige pontos do Padis, a legislação anterior para semicondutores. O Padis mudou de nome nesse projeto de lei, e passa a se chamar Brasil Semicon. Ele abrange questões cruciais para o sucesso e o futuro do nosso setor e para os investimentos de que estamos falando aqui.

BNamericas: Quais, por exemplo?

Nunes: A primeira questão é a longevidade do programa. O Padis, pela legislação atual, expira em 31 de dezembro de 2026. O plano Brasil Semicon vai até 2073. Isso dá segurança jurídica e é decisivo para que novos investimentos sejam feitos no Brasil, tanto por empresas existentes quanto por novos entrantes.

A segunda está vinculada ao custo. O Padis, como incentivo, está baseado em produtos. Então, imagine que uma empresa do setor tenha centenas de produtos. Para cada um, ela precisa ir ao governo, fazer uma solicitação e esperar meses pela aprovação até que possa colocar o investimento.

Na redação atual do PL 13, nós teríamos o que eu chamo de Padis por empresa. No Brasil Semicon, a empresa é obrigada a produzir semicondutores, nada mais que isso. Mas, uma vez que ela esteja dentro do programa, e após a verificação de conformidade pelo governo, ela não necessitará mais ser certificada por produto. Isso trará uma grande velocidade para o desenvolvimento de novos modelos e tecnologias.

Um terceiro ponto fundamental é que a nova lei promove P&D e desonera P&D. Ela obriga investimentos em P&D correspondentes a 5% do faturamento de uma empresa e dá créditos financeiros a esses processos.

Há outros itens também. O novo programa será revisto a cada dois anos, o que é ótimo. Tenho certeza absoluta de que a nova legislação vai colocar o país não só como um player que atende o mercado local, mas como um player global, que atende o mercado internacional.

BNamericas: Na América Latina, com o nearshoring e a reacomodação das cadeias de suprimento, países como o México e a Costa Rica têm sido apontados como polos interessantes para investimentos no setor. O Brasil conseguirá enfrentar esses mercados?

Nunes: O Brasil já é um player muito importante. Quando falamos de estrutura de encapsulamento e testes, e designers, o Brasil está mais bem posicionado que o México e a Costa Rica, que tem apenas uma empresa.

A Intel retornou agora [para a Costa Rica], há seis meses. E está em um processo de implantação. O México tem duas empresas.

O Brasil tem a melhor infraestrutura desse setor em todo o hemisfério sul. O PL 13 abre ainda mais as portas para as exportações, porque reduz custos. Além disso, países como o México têm particularidades. O México tem acordos com os Estados Unidos para produção local de produtos destinados ao mercado dos EUA.

México, Costa Rica, Panamá, Indonésia, Malásia são países que foram incluídos no programa da Lei de Chips como elegíveis para receber investimentos do governo norte-americano para encapsulamento e testes. O Brasil não está incluído. E isso ocorre porque o Brasil não tem um acordo de livre comércio com os EUA.

Mesmo sem ter um acordo, o Brasil pode não ter o benefício de receber investimentos do governo dos EUA, mas eu entendo que o país pode ser objeto de investimentos de empresas norte-americanas, e de empresas mundiais, para atender o mercado norte-americano com o conceito de nearshoring e friendshoring.

 

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