Sexta-feira, 3 de Abril de 2026

O Brasil é um gigante da energia renovável, diz CEO de empresa norueguesa que investe em usinas solares no país

A Scatec, empresa norueguesa que se dedica a fontes renováveis de energia em várias partes do mundo, vê no Brasil um grande potencial de expansão de seus negócios. Com 4,6 GW em projetos em mais de 20 países, incluindo Egito, África do Sul e Filipinas, a companhia identificou no Brasil oportunidades para investir em geração solar.

Sócia de uma fazenda solar no Ceará, inaugurou em abril uma usina de placas fotovoltaicas com capacidade de 531 MW (suficiente para abastecer uma cidade com mais de 600 mil habitantes) em Assu, no Rio Grande do Norte, em parceria com Hydro, Equinor e Alunorte.

Agora, a empresa já está envolvida em um novo projeto por aqui: acaba de firmar um contrato para construir uma usina solar de 142 megawatts (MW) em Minas Gerais, o primeiro projeto da multinacional no Sudeste. Em entrevista ao GLOBO, Terje Pilskog, CEO global da Scatec, diz que o Brasil é um mercado-chave para a empresa, pela dimensão territorial, pelo clima favorável e pela alta demanda de descarbonização de empresas.

Ele acredita que a geração de energia renovável vai atrair para o país indústrias interessada em produzir a partir de energia limpa.

Considerando o novo projeto em Minas, serão três usinas solares com participação da Scatec no Brasil. A empresa tem mais planos para o Brasil?

Nós definitivamente temos o objetivo de implantar novos painéis solares no Brasil. Há um histórico muito bom com o projeto Mendubim, no Rio Grande do Norte. É um dos seis maiores projetos no Brasil, com 531 MW e 1.500 pessoas trabalhando. Foi construído em torno de 20 meses. Um detalhe interessante é que essa planta está disponibilizando energia para Alunorte (fabricante de alumínio), que consome muita energia no Brasil. Está ajudando a Alunorte a se descarbonizar. Acredito que o potencial para gerar mais energia renovável no Brasil é enorme.

O país é, em princípio, o gigante das energias renováveis na América Latina. No ano passado, foi o terceiro maior mercado de instalações solares do mundo. Existem muitas companhias internacionais olhando para o Brasil como um mercado interessante para investir em energia renovável. O Brasil é hoje o terceiro maior mercado solar do mundo, depois da China e dos EUA, e à frente de países como Alemanha e Índia.

A empresa diz ter empregado muitas mulheres que estavam fora do mercado na construção da usina solar no RN. Há perspectiva de criação de vagas fixas nas comunidades do entorno dos projetos?

Cerca de 89% dos trabalhadores desse projeto vieram da própria comunidade, permitindo que pudéssemos contribuir para o desenvolvimento local. Nós tivemos um programa para treinar trabalhadores sem qualificação, sendo a maioria mulheres, em torno de 240. Elas fizeram desde a limpeza da área de forma sustentável até a montagem e o conserto das estruturas de painéis solares.

Todas ganharam um certificado, quase como um diploma. Algumas vão continuar conosco, mas, com as fazendas solares em operação, há menor necessidade de mão de obra. O ponto positivo é que, quando tiver algum outro projeto desse tipo na região, essas mulheres já terão experiência.

Sobre a nova usina solar em MG, qual o tamanho e o que será diferente em relação ao do RN?

A Scatec assinou um contrato de compra de energia (PPA) de 10 anos com a Statkraft Energia do Brasil para uma usina solar de 142 megawatts (MW) em Minas Gerais. O total estimado de despesas de capital (investimento) para a central solar é de US$ 94 milhões. Estamos entusiasmados com este novo projeto, o nosso terceiro no Brasil, elevando a nossa capacidade total para 835 MW.

O Brasil é um dos nossos mercados focais e continuaremos a buscar oportunidades e a impulsionar a transição verde. Para ser lucrativo e fazer bons negócios, você realmente precisa entender o mercado, ser local, entender as regulamentações. Você precisa entender as melhores maneiras de realizar projetos e ter uma organização local com experiência e capaz para ter sucesso.

Então, esses projetos são importantes para avançarmos no mercado brasileiro. Estamos aprendendo muito.

Encontraram algum entrave com relação à regulação do setor no Brasil?

Em primeiro lugar, acho que temos que dizer que sentimos e recebemos muito apoio do município de Assu e do estado do Rio Grande do Norte (no último projeto inaugurado). Mas, quando a gente fala da esfera federal, como em todos os mercados, uma coisa importante é a previsibilidade. Nós nos adaptamos às regulamentações que estão no mercado, mas é difícil desenvolver projetos se as regulamentações estão mudando o tempo todo.

Esse projeto demorou 20 meses para ser construído, mas a gente começou a desenvolvê-lo em 2018. Leva um tempo. E, em determinado momento do projeto, você assina um acordo para vender a energia. É um cálculo de por quanto podemos vender a energia e se isso ainda continuar fazendo sentindo para nós. Depois disso, podemos construí-lo. Todas essas coisas envolvem elementos regulatórios importantes quando estamos desenvolvendo projetos.

Se ficam mudando no meio do caminho, é difícil para tomarmos a decisão de investimento. Então, a chave para tudo é a previsibilidade.

E como o Brasil se diferencia de outros países nessa área de transição energética? Por que investir aqui?

Para mim, um dos desafios em energia renovável no Brasil é apoiar a eletrificação da sociedade e da indústria, como a de alumínio, a de fertilizantes. Terão de se eletrificar para reduzir as emissões de carbono, e isso vai gerar muita demanda adicional de eletricidade. Haverá muitas oportunidades. Como o mercado de energia renovável no Brasil é muito competitivo, até mesmo em termos globais, e os preços vão continuar caindo. Isso pode ajudar a desenvolver uma nova indústria.

Hoje, o Brasil está importando bastante amônia para fertilizantes. No futuro, pode produzir energia renovável mais barata, produzindo hidrogênio verde e usando-o para produzir amônia e fertilizantes localmente. Então, ao invés de o Brasil importar, pode usar o que produzir e ainda exportar. O crescimento da energia renovável no Brasil tem muito mais a ver com a eletrificação e a descarbonização.

Também tem a ver com usar essa energia renovável mais barata para construir uma nova atividade econômica. A energia renovável continuará a se tornar cada vez mais barata e competitiva.

Como vocês escolhem os países onde vão investir?

Analisamos se somos capazes de fazer bons projetos no país sem muito risco… É o quadro regulatório, o fato de acreditarmos que é um país que tem a intenção de continuar a se descarbonizar, continuar a motivar a eletrificação e, em geral, que a energia renovável seja uma fonte de energia competitiva no mercado.

Os países onde temos negócios têm em comum bons recursos de matéria prima, muito sol, muito vento, a necessidade de eletrificação. São mercados gigantes, onde podemos ter um plano de longo prazo, repetir o negócio e continuar crescendo ao longo do tempo.

O senhor acha que a expansão da energia solar pode aumentar a segurança energética no Brasil e evitar apagões?

Não acho que sozinha seria uma solução. O que precisamos é ter um mix saudável no sistema elétrico. Eu acredito que se você tiver uma combinação de hidrelétricas, eólicas, solar, você pode usar também baterias que podem dar uma contribuição significativa e evitar esse tipo de situação. Vimos isso nas Filipinas, a viabilidade das baterias para estabilização.

Na África do Sul, nós temos um grande projeto que tem mais ou menos a mesma dimensão do Mendubim, em que produzimos energia solar, e eles têm baterias. Entregamos energia o dia todo.

Combinamos a solar e as baterias para garantir que a geração de energia seja equilibrada o tempo todo, para que possamos fornecer a mesma quantidade de energia elétrica ao longo do dia. Isso vai ser cada vez mais comum. Então, não é uma fonte de energia sozinha. E você precisa de eletricidade suficiente, obviamente.

 

 

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