Montadoras abraçam a conectividade, mas infraestrutura ainda é obstáculo
O avanço da conectividade veicular está remodelando a indústria automotiva brasileira e já é realidade para fabricantes como Stellantis e Ford. Embora os serviços conectados já tenham se tornado um item relevante para o consumidor, especialistas alertam: sem uma infraestrutura de telecomunicações mais robusta, especialmente nas rodovias, o País ainda está distante de explorar todo o potencial das novas tecnologias, como V2X e direção autônoma.
Durante o evento Movecomm 2025, organizado em parceria entre a TELETIME e a Mobile Time e realizado em São Paulo nesta quinta-feira, 27, a vice-presidente de gestão de negócios de software para a América do Sul da Stellantis, Gisele Tonello, apontou que, com mais de 400 mil veículos conectados no Brasil, a Stellantis aposta em um ecossistema amplo de serviços oferecidos em parceria com a TIM. A mudança mais recente no modelo de negócio foi integrar o Wi-Fi embarcado ao período de teste gratuito e ao pacote premium.
A oferta está dividida em dois grupos: segurança e emergência e conveniência e conectividade. A primeiro conta com uma central 24h, chamada automática de emergência e assistência na recuperação veicular. A funcionalidade de localização e resgate é apontada pela empresa como “super valorizada” pelos clientes. Já a segunda, envolve comandos remotos via app, relatórios de saúde do veículo e alertas de manutenção preventiva.
Além disso, a empresa garante um serviço básico gratuito por cinco anos, que inclui telemetria contínua, um ativo usado visando a melhoria de produtos e a monetização via parcerias.
A Ford com cerca de 150 mil veículos conectados no Brasil em parceria com a Claro, orienta sua estratégia para o segmento comercial, segundo o diretor de veículos comerciais para a Ford America do Sul, Guillermo Lastra. No centro do modelo está o Ford Pro, que usa a conectividade para aumentar a eficiência das frotas.
A montadora opera um centro de monitoramento que acompanha a saúde dos veículos e comunica proativamente gestores de frota para evitar paradas não programadas, consideradas mais caras e disruptivas do que manutenções preventivas.
Diferentemente da Stellantis, a Ford não oferece Wi-Fi embarcado e mantém uma estrutura de serviços dividida por perfil de cliente: produtividade para frotas e funcionalidades remotas básicas para uso pessoal. Modelos como Maverick e Bronco já trazem arquitetura preparada para 5G.
Cobertura de rede nas rodovias
Apesar do avanço das parcerias entre montadoras e operadoras, a conectividade esbarra em um problema estrutural: a cobertura de telecomunicações nas estradas brasileiras.
O diretor de soluções da Ericsson, Paulo Bernardocki, lembrou que, hoje, apenas 50% das rodovias federais têm cobertura, enquanto 40% permanecem totalmente sem sinal. A disparidade regional é enorme: São Paulo chega a 90% de cobertura.
Ele pontuou que operadoras historicamente priorizaram áreas urbanas, onde há retorno financeiro. Para mudar esse cenário, o governo tem incluído a obrigatoriedade de cobertura nos novos contratos de concessão de rodovias e nos editais de frequência, como o do 5G.
Desafios técnicos e econômicos
Segundo Bernardocki, ampliar a conectividade nas rodovias exige decisões fundamentais:
Definir o tipo de serviço: telemetria leve ou banda larga para streaming.
Ajustar a engenharia da rede: torres mais altas podem multiplicar o alcance.
Enfrentar limitações práticas: backhaul via satélite, alimentação por energia solar e vandalismo a equipamentos.
Peso da conectividade para o consumidor
O consumidor brasileiro é visto pelas montadoras como early adopter e muito interessado nas diferentes tecnologias, ainda que não saiba como usá-las, num primeiro momento. Assim, na realidade brasileira conectividade deixou de ser diferencial quase um item obrigatório.
“O interesse do consumidor brasileiro por veículos que tenham a conectividade já é mandatório, é a expectativa de um cliente que já está familiarizado com a tecnologia e não espera algo diferente no veículo”, defendeu Lastra, da Ford.
Os serviços mais valorizados, segundo os representantes das montadoras, são:
Segurança pessoal e patrimonial – rastreamento, resgate e chamada de emergência são os campeões de uso. Um caso de sequestro resolvido por rastreamento foi citado como exemplo da força desse serviço;
Comandos remotos – especialmente a localização do veículo;
Gestão de frotas – monitoramento de consumo, falhas e uso;
Veículos elétricos – planejamento de rotas com recarga e programação dos horários de carregamento.
No entanto, apesar da demanda crescente, a representante da Stellantis alertou que há consumidores que ainda confundem conectividade com seguro, reforçando a necessidade de educação do mercado. “Alguns casos ainda demandam um esforço nosso muito de comunicação sobre o valor da conectividade”, avaliou Tonello.
Modelos de negócios e parceria com as seguradoras
O custo de telecomunicações é descrito pelas montadoras como um dos mais pesados no modelo de conectividade. A monetização ocorre via assinaturas, venda de pacotes de dados e uso de telemetria para parcerias.
O gerente de conectividade e customer service da Deutsche Telekom, Gilson Santos, vê a conectividade veicular não só com bons olhos, mas como uma grande oportunidade de receita para as teles. “O que é custo para eles [montadoras], para a gente é receita. Então, eu digo: ‘gastem, gastem, podem gastar'”, brincou.
A integração com seguradoras tem ganhado força tendo em vista que veículos com rastreamento nativo apresentam risco menor e a Stellantis já lançou até um seguro conectado com descontos reais.
Mas ainda há resistência: algumas seguradoras continuam exigindo rastreadores próprios, mesmo quando o carro já tem tecnologia superior de fábrica.
Tecnologia embarcada e cibersegurança
As montadoras informaram que utilizam eSIM nos veículos conectados, e atualizações OTA permitem corrigir falhas e adicionar funções remotamente.
A conectividade, porém, amplia riscos, como possibilidade de invasão de sistemas veiculares; exposição de dados sensíveis, como localização; o que implica em uma de conformidade rigorosa com a LGPD. As empresas afirmam investir em proteção de hardware, software e processos internos.
Futuro distante?
Apesar dos avanços, os especialistas acreditam que o Brasil ainda não está pronto para tecnologias como Vehicle-to-Everything (V2X), que permitem a comunicação entre carros e infraestrutura, nem para níveis mais altos de automação veicular. Antes disso, será preciso pavimentar todas as rodovias, estabelecer cobertura contínua e robusta, além de criar padrões e ecossistemas de comunicação interoperáveis.
