Quarta-feira, 1 de Abril de 2026

Mineração urbana recupera ouro e outros metais do lixo eletrônico

Linha da Green Eletron, que tem taxa de reaproveitamento de 90% — Foto: Divulgação

Linha da Green Eletron, que tem taxa de reaproveitamento de 90% — Foto: Divulgação

 A evolução dos equipamentos tecnológicos, com atualizações constantes e novos produtos chegando ao mercado constantemente, é acompanhada de um problema que cresce na mesma proporção: o acúmulo de lixo eletrônico. Mas o que é um passivo ambiental pode se transformar em receita se medidas como a destinação correta e a reinserção dos resíduos como matéria-prima de novos componentes na cadeia produtiva. 

 O mundo produziu 62 milhões de toneladas de lixo eletrônico em 2022, segundo a ONU, dos quais apenas 22,3% reciclados. No Brasil o cenário é pior: das 2,4 milhões de toneladas de lixo eletrônico geradas por ano, só 3% recebem destinação adequada. A maior parte vai para aterro comum ou é descartada irregularmente, agravando impactos ambientais. 

 Essa baixa adesão ao descarte correto se deve ao mercado informal e à falta de fiscalização, explica Tereza Carvalho, coordenadora do Centro de Descarte e Reúso de Resíduos de Informática (Cedir) da USP. “Atravessadores vendem partes valiosas e descartam o restante no lixo, contaminando solo e água com metais pesados”, diz. A USP recondiciona computadores para instituições sociais e capacita cooperativas, gerando renda local. 

 Além de recicláveis como plásticos, ferro e alumínio, os eletrônicos são ricos em metais valiosos como ouro e paládio. A dificuldade ainda está no refino desses metais, um processo de alto custo. A Green Eletron, que desde 2016 já recolheu 20 mil toneladas de lixo eletrônico em 1.300 cidades, faz a separação do material coletado e envia os metais para recicladoras e refinarias especializadas no exterior. A taxa de aproveitamento da companhia é de 90%. “Muita gente não descarta [eletrônicos corretamente] por falta de informação. Campanhas no varejo são essenciais”, diz o gerente Ademir Brescansin. 

 Devido à baixa adesão ao descarte correto e a entraves logísticos, a maior planta da América Latina para resíduos eletrônicos opera bem abaixo do potencial. A usina da Ambipar, em São José dos Campos (SP), tem capacidade para 80 mil toneladas anuais, mas processa cerca de 10 mil toneladas. A empresa investiu R$ 100 milhões para automatizar a triagem e adotou política de aterro zero. O ferro é enviado à Gerdau; alumínio, à FPM e à CBA; cobre, latão e bronze retornam à indústria, enquanto as placas eletrônicas são exportadas. Para Marcelo Oliveira, diretor global de mineração urbana da companhia, a automação combinada à escala torna o processo viável, gerando receita e reduzindo custos e impactos ambientais. 

 Especializada em recondicionamento, a ReUrbi transforma 20% do lixo eletrônico que recolhe em equipamentos remanufaturados, vendidos na Reset, loja física de economia circular feita com materiais reciclados. A empresa coleta, desmonta e envia parte do material para recicladoras, reaproveitando o restante. “Vendemos para quem jamais teria acesso a um computador novo”, diz Ronaldo Stabile, diretor executivo. Além disso, destina até 15% da receita a projetos de inclusão digital. 

 “Reutilização e reciclagem aumentam a circularidade e reduzem a dependência de matéria-prima virgem”, diz Robson Esteves, presidente da A Associação Brasileira de Reciclagem de Eletroeletrônicos e Eletrodomésticos (Abree). A entidade reúne mais de 50 empresas, representando 170 marcas, que coletam e desmontam produtos para reaproveitar materiais na fabricação de novos itens. Com mais de 4 mil pontos de coleta, a entidade garante destinação ambientalmente adequada. 

 A Abree aposta em inteligência artificial para agilizar a triagem e coleta do material, blockchain para garantir rastreabilidade e transparência e design sustentável para facilitar o reaproveitamento de peças. “Essas tecnologias já começam a ser aplicadas no Brasil na logística reversa, embora em estágio inicial”, afirma Esteves. 

 Um exemplo é o da Samsung Brasil, que ampliou em 58% a coleta em 2024, com 150 pontos e serviço de retirada domiciliar. Após a triagem, os materiais são enviados a parceiros licenciados e reinseridos na cadeia produtiva. Segundo Túlio Toledo, gerente sênior, a iniciativa evitou emissões de CO2 equivalentes a 178 mil tanques de combustível. 

 

 

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