Logística reversa vem ganhando peso como caminho para ampliar a recuperação de materiais
Especialista aponta que avanço da legislação, da fiscalização e do consumo consciente transforma obrigação ambiental em estratégia de negócio
Embora o Brasil gere mais de 78 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos por ano e, segundo a Associação Brasileira de Logística Reversa (Abelore), apenas cerca de 8% desse total seja reciclado, a logística reversa vem ganhando peso como caminho para ampliar a recuperação de materiais. Assim, cada vez mais setores são obrigados a estruturar sistemas para o retorno de produtos e embalagens após o consumo, seja por pressões regulatórias, seja por exigência do público.
“Para as empresas, a obrigatoriedade implica mudanças operacionais, investimentos em sistemas de coleta e parcerias com cooperativas e operadores logísticos especializados. O descumprimento pode gerar multas, sanções administrativas e danos à reputação”, explica Anderson de Miranda Gomes, coordenador do curso de graduação em Logística da UNIASSELVI. Para ele, o avanço da logística reversa está diretamente ligado ao fortalecimento da economia circular, modelo que busca reduzir desperdícios e reinserir materiais produtivos na cadeia econômica.
A Política Nacional de Resíduos Sólidos já previa a responsabilidade compartilhada entre fabricantes, distribuidores, comerciantes e consumidores. Agora, a fiscalização e as exigências se intensificam, ampliando o impacto sobre empresas de diferentes portes.
Setores como eletroeletrônicos, embalagens, medicamentos, pneus e baterias já enfrentam regras mais rígidas, com metas de recolhimento e rastreabilidade dos resíduos, com resultados promissores. No sistema de logística reversa de embalagens de defensivos agrícolas, que é referência no Brasil, quase 76 mil toneladas de embalagens vazias foram recicladas em 2025, um crescimento de 11% em relação a 2024 e maior volume já registrado na história do Sistema Campo Limpo, programa brasileiro de logística reversa para resíduos.
O especialista detalha que, do ponto de vista estratégico, a logística reversa pode gerar ganhos competitivos. “Empresas que estruturam bem seus sistemas reduzem custos de matéria-prima, melhoram a imagem da marca e atendem a consumidores cada vez mais conscientes”, diz.
A pesquisa “Resíduos Eletrônicos no Brasil 2025”, realizada pela Green Eletron em parceria com a Radar Pesquisas, revelou que 85% dos brasileiros valorizam e reconhecem marcas que investem em logística reversa.
O funcionamento do sistema
Campanhas educativas e pontos de coleta acessíveis são fundamentais para que o sistema funcione. Sem a participação do consumidor, a logística reversa perde eficiência e escala.
“Boas práticas incluem o design de produtos mais fáceis de desmontar, uso de materiais recicláveis e integração da logística reversa ao planejamento estratégico das empresas. Outro ponto relevante é a geração de renda e inclusão social. Cooperativas de reciclagem ganham protagonismo, fortalecendo cadeias locais e ampliando o impacto social positivo da economia circular”, diz Anderson.
No Brasil, o tema ganha força em meio à pressão por compromissos ambientais, sociais e de governança (ESG), cada vez mais valorizados por investidores e consumidores.
Para o coordenador do curso de Logística da UNIASSELVI, a logística reversa não deve ser vista apenas como custo regulatório, mas como oportunidade de inovação e diferenciação no mercado. “A legislação avança, diante disso, empresas que se antecipam tendem a sair na frente. A economia circular deixa de ser discurso e passa a ser prática essencial para a sustentabilidade dos negócios e do planeta”, conclui.
