Terça-feira, 7 de Abril de 2026

Liderança na produção de energia renovável torna Brasil atrativo para investimentos

 No ano em que sediará a COP30, a primeira na Amazônia, o Brasil convive com desafios trazidos pela diversificação da matriz energética, com avanço das fontes variáveis, como solar e eólica, e descentralizadas, como a geração distribuída (GD) solar. Segundo a consultoria Ember, o país é líder em renovabilidade na matriz elétrica entre as 20 maiores economias do mundo, com 89% da eletricidade oriunda de fontes renováveis – o triplo da média global, segundo a Agência Internacional de Energia (AIE). 

 De 2024 a 2034, a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) prevê investimentos de R$ 600 bilhões no país em transmissão e geração, com destaque para renováveis. A expansão rumo a uma transição energética equilibrada implicará superar obstáculos, como reduzir encargos e subsídios, oferecer flexibilidade, criar um sistema de precificação mais aderente à realidade da operação e aprimorar a governança setorial. 

 Ganha relevância o conceito de reserva de potência, espécie de folga para que o sistema possa atender rapidamente a demandas extremas. “O sistema vive uma situação diametralmente diferente dos últimos 20 anos: está restrito em potência e com folga de energia, e essa potência não é mais gratuita”, afirma o diretor de planejamento do ONS, Alexandre Zucarato. Em apresentação na Academia Nacional de Engenharia, ele disse que leilões de potência serão relevantes e podem ter demanda de 3 GW por ano daqui para frente. 

 Em fevereiro, em uma onda de calor, o país bateu cinco recordes de demanda instantânea de energia no horário de pico, no meio da tarde, em razão do uso de ar-condicionado. Parte dessa demanda é atendida pela GD solar. Mas quando o sol se põe, o ONS tem de acionar 30 GW que deixaram de ser gerados pela GD. Para aumentar a segurança, o governo deve realizar em junho um leilão de reserva de capacidade, que já tem 74 GW de projetos cadastrados – 67% em termelétricas novas, 30% em termelétricas existentes e 3% em ampliações de hidrelétricas. Também poderá ser realizado este ano um leilão de armazenamento. 

 No leilão de reserva, a Engie cadastrou duas hidrelétricas com capacidade de expansão: Jaguara (entre SP e MG) e Salto Santiago (PR). A empresa avalia que os leilões podem ser mais recorrentes em função da necessidade de recursos flexíveis e controláveis à disposição do ONS. “Os montantes futuros a serem contratados dependem de diversas variáveis, como o crescimento da demanda e das fontes não controláveis, bem como do próprio resultado deste leilão”, diz Marcos Keller, diretor de regulação e mercado da Engie Brasil Energia. 

 “Em estudos recentes do planejador [ONS], aponta-se para 2030 um requisito de potência da ordem de 10 GW, ou próximo a 15 GW em um cenário superior, podendo chegar a aproximadamente 40 GW em dez anos, ou acima de 60 GW em um cenário superior”, cita Marcelo Lopes, diretor de hidráulica da Neoenergia, que avalia a participação no leilão de reserva de capacidade considerando a ampliação de um dos ativos hidrelétricos do grupo. 

 O certame movimenta também o setor de gás natural. Boa parte das térmicas em operação começaram a gerar energia no começo dos anos 2000, diante do racionamento de 2001. Cerca de 10 GW em capacidade – quase a mesma potência da hidrelétrica de Itaipu, a segunda maior do mundo – terão contratos concluídos até 2028. 

 A Eneva poderá entrar na licitação com cerca de 1 GW em projetos de recontratação de térmicas a gás natural e 1,2 GW de um projeto termelétrico. Também olha a intenção do governo de realizar um leilão de armazenamento de energia. “Essa oferta de serviços ancilares, quando regulada, poderá criar um mercado”, afirma Marcelo Lopes, diretor de marketing, comercialização e novos negócios da Eneva. 

Um dos problemas é direcionar a produção do Nordeste para consumo na própria região

 O leilão ainda amplia as discussões sobre os custos (e seu rateio) da expansão do sistema, que hoje ocorre basicamente por subsídios, observa o presidente da PSR, Luiz Barroso. “Se flexibilidade é um produto a ser contratado, quem a causa deveria pagar sua parte.” Outro ponto são os cortes de geração renovável (curtailment) promovidos quando há excesso de demanda e poupam a GD solar. A Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar) alega que os cortes são atribuíveis a geradoras, enquanto a GD se conecta à rede como unidade consumidora – e, portanto, não deveria ser afetada. 

 Para o futuro, cresce a expectativa sobre a possibilidade de atração de grandes cargas de eletricidade, com destaque a projetos de hidrogênio verde (H2V) e data centers. Com uma matriz diversificada e limpa, o Brasil ganha destaque nesse contexto, mas será preciso superar obstáculos para que não haja mais corte de geração renovável ou aumento de geração térmica na base, diz o consultor Luiz Maurer. 

 Projetos desse porte podem exigir reforços em subestações e investimentos em novas linhas de transmissão que poderiam ser dedicadas a essas instalações. Esses servidores movimentaram US$ 4,6 bilhões em 2024 no Brasil (1,4% do mercado global), e o país tem potencial para aumentar sua presença no segmento. Além de ser a maior economia da América Latina, possui alta taxa de conectividade entre a população – é um dos três maiores mercados da Netflix e das redes sociais no mundo, por exemplo. 

 Isso pode levar a uma concentração de data centers para streaming e telecomunicações no Sudeste, região de maior consumo. Por outro lado, como boa parte das usinas eólicas e solares estão no Nordeste, essa concentração de servidores pode levar a mais curtailment e ociosidade no escoamento da energia. “Um dos desafios do país é fazer com que a produção de energia do Nordeste possa ser direcionada para a própria região”, destaca o ex-diretor da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) Edvaldo Santana. 

 Há outros obstáculos. Projetos de H2V têm perdido ímpeto em razão, principalmente, do fim de subsídios para o novo energético e do custo de produção até quatro vezes acima do previsto inicialmente, aponta estudo do JP Morgan. 

 

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