Investimentos em data centers virão com ou sem Redata, mas programa definirá escala
Executivos reforçam importância do Redata para o setor de data centers no Capacity Latam (crédito: Teletime)
Ainda que clame pela aprovação urgente do Projeto de Lei (PL) do Redata no Senado, o setor de infraestrutura digital assegura que os investimentos em data centers virão com ou sem medida de redução de impostos. A questão é o ritmo em que os projetos serão tirados do papel, bem como a escala dos complexos a serem instalados no Brasil.
Os investimentos em centros de dados foram debatidos por diversos líderes de provedores de serviços de data centers nesta terça-feira, 17, durante o evento Capacity Latam, em São Paulo.
A avaliação é de que, por dispor de energia renovável e redes de conectividade, o Brasil já se apresenta como um centro para infraestrutura digital, mas pode perder competitividade em relação a outros países se não ajustar a carga tributária e pesar a mão em uma eventual regulação de Inteligência Artificial (IA).
Elena Winters, vice-presidente de Negócios Internacionais da Elea Data Centers, afirmou que “o Redata tem que acontecer para que o Brasil se mantenha competitivo”, indicando que o programa pode abrir uma janela de 20 anos de investimentos no País.
Além disso, a executiva destacou que o programa de redução de impostos federais não é a única pauta na mesa do setor. Em sua visão, uma eventual regulação de IA precisa ser atrativa para hyperscalers (grandes provedores de nuvem) e treinamento de modelos de linguagem no Brasil.
“Estamos com muito foco no Redata, mas precisamos olhar para as regulações, que podem ser uma barreira”, pontuou Winters.
José Eduardo Quintella, CEO da Terranova, empresa que planeja construir pelo menos duas megaestruturas de data centers no território brasileiro, salientou que a postergação do Redata gera impactos sobre os planos de investimentos. Caso o programa seja instituído, mais projetos de grande envergadura devem ser acelerados.
O executivo ainda comentou que o setor procura investir com antecedência, haja vista que a aquisição de determinados equipamentos, como transformadores, pode levar até dois anos. Ele também defendeu “uma regulação infralegal que aperfeiçoe o ecossistema”.
Em outra mesa no mesmo evento, o presidente da Associação Brasileira de Data Centers (ABDC), Renan Lima Alves, afirmou que “há chances” de o PL do Redata ser votado no Senado na semana que vem. A entidade tem feito um trabalho de convencimento dos senadores ao lado de Abinee e Brasscom.
Serviços e soberania
Ricardo Caine, diretor de IP LAT da Nokia, salientou que, apesar do impasse no que diz respeito ao Redata, há uma forte tendência de investimentos em data centers no Brasil. Contudo, indicou que o mercado enfrenta “uma curva de desaceleração”, ainda que as empresas tenham que alocar o capex com antecedência para viabilizar grandes projetos.
Robson Pacheco, diretor de Vendas de Contas Estratégicas para a América Latina da Vertiv, empresa especializada em soluções de energia, refrigeração e gerenciamento de TI para data centers, não descartou a importância do programa de redução de impostos federais, mas lembrou que as demandas de nuvem, IA e streaming vão continuar aumentando. “Esses serviços vão continuar crescendo, independentemente do Redata”, asseverou.
Já o CEO da DE-CIX, Ivo Ivanov, afirmou que o Redata deve ser entendido como um projeto de soberania digital. Em sua avaliação, sem um ambiente tributário atrativo, o investimento vai desacelerar e parte significativa dos dados seguirá sendo processada fora do País.
“A infraestrutura para inferência tem que estar o mais próximo possível do usuário. Ter data centers para missão crítica e aplicações em tempo real é indispensável”, frisou.
PL de IA
Em conversa com o TELETIME, o consultor Rodolfo Macarrein, da Altman Solon, disse que “alguns atores esperam a evolução do Redata” para investir, mas, independentemente do desfecho da proposta no Senado, consideram o Brasil “um ambiente positivo” para data centers.
Todavia, o mercado se mostra reticente com o eventual avanço do PL de IA no Congresso Nacional. A questão é que uma lei muito rígida pode dificultar a implantação de data centers de inferência e treinamento de modelos de linguagem.
“O primeiro [Redata] está apropriadamente endereçado. Mas o segundo [PL de IA] é um question mark, um incômodo se o Brasil vai facilitar ou atrapalhar o crescimento de hyperscalers para soluções de inferência ou treinamento local”, resumiu Macarrein.

