Quarta-feira, 29 de Abril de 2026

Indústria nacional e big techs divergem sobre regras para data centers

A elevação do imposto de importação sobre grandes servidores, decidida pela Câmara de Comércio Exterior (Camex), ampliou a disputa entre empresas globais de tecnologia e fabricantes instalados no Brasil. O debate envolve regras tarifárias e políticas de incentivo e já mobiliza entidades empresariais e órgãos do governo federal.

Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, representantes de big techs e da indústria nacional divergem sobre os efeitos da medida. A Brasscom, que reúne empresas como Microsoft, Oracle e Amazon, tenta reverter o reajuste, argumentando que o aumento encarece a instalação de novos data centers ao dificultar a importação de equipamentos montados no exterior.

Na direção oposta, a Abinee, que representa fabricantes como Cisco, Foxconn e Dell, apoia a mudança. A entidade afirma que a medida corrige distorções que prejudicavam a produção local e destaca que isenções continuam possíveis quando não houver similar nacional.

O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) afirma que o aumento das tarifas de importação visa fortalecer a competitividade da indústria nacional. Em nota, a pasta informou que a medida busca estimular empresas que projetam e fabricam tecnologia no país e que mantêm diálogo com os setores envolvidos, embora não tenha recebido pedidos formais de revisão.

O impasse envolve o modelo de operação das big techs, que preferem importar servidores montados no exterior, equipados com componentes de alto valor, como GPUs. A exigência de comprovar a inexistência de similares nacionais para obter redução tarifária é apontada como um entrave, pois as empresas evitam divulgar especificações técnicas por motivos de sigilo industrial.

Apesar das divergências, houve consenso em torno do programa ReData, que previa incentivos fiscais para data centers, mas o programa não avançou após a perda de vigência da medida provisória. O setor tenta retomar o tema por meio de um projeto de lei.

A tensão aumentou após a Resolução 852 da Camex, que elevou o imposto sobre servidores de grande capacidade a até 25%, com o objetivo de alinhar preços entre produtos importados e nacionais, segundo documento técnico do governo.

Empresas do setor de data centers afirmam que o aumento das tarifas e a falta de incentivos têm afetado o ritmo de novos investimentos. Para Luciano Fialho, vice-presidente sênior da Scala Data Centers, a combinação de custos elevados, incertezas regulatórias e ausência de estímulos fiscais tem paralisado projetos.

Outras operadoras compartilham a avaliação. Marcos Siqueira, da Ascenty, afirma que, apesar de vantagens como matriz energética limpa e boa conectividade, o Brasil perde competitividade devido ao preço dos equipamentos. Segundo ele, sem incentivos como os previstos no ReData, os investimentos podem migrar para outros países.

O cenário expõe o desafio de equilibrar as políticas de estímulo à indústria nacional com a necessidade de atrair investimentos em infraestrutura digital, em um momento de expansão global da demanda por processamento de dados.

Compartilhe: