IA “física” pressiona redes móveis por mais uplink, latência e automação, diz Ericsson
A Ericsson avalia que a expansão da inteligência artificial “física”, aquela embarcada em robôs, drones e dispositivos autônomos, deve pressionar a infraestrutura de telecomunicações e alterar a forma como as redes móveis são planejadas, operadas e monetizadas.
Em conversa com jornalistas nesta sexta, 13, com jornalistas, o CEO da Ericsson Latam South, Rodrigo Dienstmann, disse que a IA está deixando de ser apenas uma ferramenta voltada a prompts de texto e processamento em data centers para avançar sobre aplicações que dependem de conectividade mais sensível a latência, uso intensivo de dados e computação distribuída.
“A AI está se movendo do prompt para uma AI física”, afirmou. Segundo ele, esse movimento envolve robôs, drones, óculos de realidade aumentada e câmeras móveis de segurança pública, aplicações que passam a exigir outro perfil de infraestrutura de acesso. “Todos esses casos de uso vão requerer um outro paradigma de rede”, disse.
Na avaliação do executivo, a primeira onda da IA concentrou investimentos em data centers, processamento e energia. Agora, porém, o impacto tende a chegar com mais força às redes. “O que não está se falando muito, e agora no MWC já se falou, é o investimento posterior que vem para as redes”, afirmou.
Inferência descentralizada e mudança no tráfego
Dienstmann disse que a disseminação da IA física deve impulsionar uma arquitetura de inferência descentralizada. “O poder computacional vai estar descentralizado, porque senão você não tem baixa latência”, afirmou.
Ele argumenta que, em muitos casos, esse processamento também não poderá ficar integralmente no dispositivo. “Ela não pode estar no dispositivo necessariamente, senão o óculos de realidade aumentada ou virtual vai consumir muita bateria, vai esquentar a tua cabeça, ele vai ter que ser pesado”.
Outro ponto destacado é a alteração no perfil de tráfego das redes. Dienstmann comparou o uso de IA generativa baseada em texto com aplicações de IA física e afirmou que, neste segundo caso, o envio de dados tende a ganhar peso. “Na AI física pode ser o contrário. Eu mando bastante dado, que são imagens, sons, contexto, telemetria, e recebo até menos dados”, disse.
A leitura da Ericsson é que essa mudança pressiona redes historicamente desenhadas para consumo humano, em que predomina o downlink. “Hoje, as redes são projetadas para o uso humano”, afirmou o executivo.
Mudança na engenharia e na operação
Na visão da companhia, a evolução da IA exige alterações estruturais na própria lógica de funcionamento das redes móveis. “É uma mudança genética”, afirmou Dienstmann. Sistemas autônomos farão a maior parte da gestão da infraestrutura. “Humanos vão supervisionar a rede autônoma, que ela toma decisões por si só e não responde a comandos, mas a intenções”, afirmou.
Andrea Faustino, CTO da Ericsson Latam South, disse que a companhia já aplica algoritmos de inteligência artificial em diferentes partes de seu portfólio. “Nossas base bands de RAN, nosso equipamento de core, nosso software de core, as aplicações de core que vão para dentro da rede, as aplicações que rodam ali no sistema de BSS das operadoras, todas elas têm um software onde a gente já embarcou há mais de 10 anos algoritmos de inteligência”, afirmou.
Ela acrescentou que a discussão atual envolve também camadas de coordenação e controle para o uso de agentes de IA em vários domínios da rede. Ao comentar o SMO, sigla para Service Management and Orchestration, Faustino afirmou que se trata de “uma camada de controle, de políticas, de como os agentes que vão trabalhar dentro de cada domínio de rede, core, transporte, como que a gente controla a política desse monte de agentes tentando tocar as redes das operadoras”.
Capex, eficiência e novas receitas
Dienstmann afirmou que o setor já vive uma fase de maior seletividade nos investimentos, que tende a se intensificar com a IA. “A gente vê essa tendência das operadoras globais que querem reduzir a intensidade de capex em relação às suas receitas”, disse. Para ele, isso não significa desaparecimento dos aportes, mas um escrutínio maior sobre o retorno esperado de cada projeto.
“As operadoras estão sendo muito mais seletivas no seu CAPEX”, afirmou. Segundo ele, a decisão de ampliar rede hoje passa por uma análise mais precisa sobre retorno e perfil de demanda. “Qual é o retorno específico esperado para esse investimento, é cirúrgico mesmo”, disse.
Nesse contexto, o executivo sustenta que a IA aplicada à operação pode abrir espaço para eficiência e, com isso, liberar recursos para novos investimentos. “O dinheiro vai sair daí, vai sair de eficiência”, afirmou, ao citar ganhos com gestão mais automatizada da rede, redução de intervenção manual, melhora da resiliência e da experiência do cliente.
Ao mesmo tempo, ele sustenta que a ampliação estrutural do capex dependerá da criação de novas receitas ligadas às capacidades avançadas do 5G. “Eu vou vender slice”, disse, ao defender que as operadoras precisarão monetizar recursos além dos pacotes tradicionais de dados.
Na leitura da Ericsson, portanto, a IA não pressiona apenas data centers e infraestrutura de computação. Ela também deve alterar os requisitos das redes móveis, exigindo mais uplink, menor latência, inferência distribuída e maior autonomia operacional.
