Grupos reforçam instalações para evitar paradas imprevistas e multas
Empresas que atuam na geração de energia elétrica têm investido em modernização de instalação, uso de tecnologias e gestão e ativos em hidrelétricas para evitar paradas imprevistas, que causam perda de receita e penalidades. As geradoras buscam otimizar a operação no momento em que as hidrelétricas são consideradas uma das soluções para o horário de pico, quando o consumo de energia cresce exponencialmente.
Geradoras de energia são exemplos da chamada infraestrutura crítica – são sistemas cujo funcionamento é essencial para a sociedade; quando eles falham, geram impactos negativos no dia a dia. No setor elétrico, as hidrelétricas ainda são a principal fonte de energia, com cerca de 65% do sistema, mesmo com o avanço de renováveis como eólicas e solares, e da geração térmica a gás.
Logo, quando as hidrelétricas têm falhas e saem do sistema, há risco de apagão, levando o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) a atuar para evitar interrupções de energia – e mesmo assim, nem sempre com sucesso. No jargão do setor, essas falhas são chamadas de indisponibilidades e são passíveis de multas. As hidrelétricas podem também ter redução da garantia física, quantidade de energia que pode ser comercializada no mercado, entre outras penalidades.
Há ainda as paradas programadas, voltadas para a manutenção dos equipamentos. Elas devem ser comunicadas previamente ao ONS. Mas se a paralisação exigir mais de 90 dias, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) também deve ser comunicada.
No caso da Cemig, o trabalho envolve a realização de investimentos da ordem de R$ 2 bilhões até 2028 para modernizar hidrelétricas do grupo. Um destaque é a modernização da hidrelétrica de Salto Grande, de 102 megawatts (MW) de capacidade instalada, que terá mais de R$ 150 milhões em recursos para modernização e atualização digital de todas as instalações, inclusive a subestação, em operação desde 1956.
As hidrelétricas da Cemig registraram em 2023 uma disponibilidade de 96,98%, 8,8 pontos percentuais acima da média do setor elétrico nacional, ajudando na elevação das receitas de geração. Esse aumento é importante, especialmente para hidrelétricas que renovaram as concessões, cujos preços da energia tiveram redução da ordem de 60% ante os contratos anteriores.
Foi o caso das hidrelétricas Itutinga, Camargos e Salto Grande que representou, por exemplo, receita adicional de R$ 6,5 milhões em 2023, segundo o então vice-presidente de geração e transmissão da Cemig, Thadeu Silva – o executivo deixou o cargo um mês após a entrevista ao Valor. “Hoje, a Cemig não tem nenhuma usina exposta a penalidades”, disse Silva.
Em abril, a estatal abriu licitação para modernização de Itutinga, Camargos e Salto Grande, que incluem a operação remota, alinhando-se a outras plantas, dentro do processo de digitalização. A modernização das hidrelétricas e o aumento da disponibilidade para o sistema pode significar a oportunidade de negociar energia excedente no mercado livre.
É possivel aumentar geração sem construir novas usinas” — Adriana Waltrick
Parte das usinas da Cemig e da Eletrobras, por exemplo, renovou a concessão de hidrelétricas em 2013, pelo chamado regime de cotas, cujo custo da energia teve redução em torno de 65% frente ao praticado antes dos novos contratos. As cotas, rateio dos custos da geração por entre as distribuidoras, reduziram a receita, o que levou as empresas a apostarem na maior disponibilidade.
Na Eletrobras, um terço dos R$ 10 bilhões previstos para investimentos em 2024 é destinado para reforços e melhorias em transmissão e geração, disse o vice-presidente executivo de operações e segurança da companhia, Antonio Varejão Godoy. O pacote inclui acompanhamento e gestão de cerca de 60 mil equipamentos em todo o país.
“Especificamente sobre hidrelétricas, posso citar a substituição de equipamentos em Paulo Afonso IV, Sobradinho e Xingó, totalizando aproximadamente R$ 1 bilhão já contratados entre 2024 e 2028”, disse Godoy. Há ainda previsão de investimentos da ordem de R$ 400 milhões para manutenção de hidrelétricas de Furnas, como Porto Colômbia e Simplício, e da Eletronorte, especialmente Tucuruí, que teve aprovado orçamento de R$ 1,25 bilhão para modernização, contou o executivo.
Ele conta que a Eletrobras encerrou 2023 com índice de disponibilidade real de 89%, mas ao se considerar um indicador verificado pela referência regulatória, que exclui paradas para modernização, o percentual de disponibilidade é de 101,6%, ressaltou.
Parte dos investimentos da Eletrobras foi direcionada para um contrato entre a fabricante de equipamentos Voith Hydro e Furnas, no valor de R$ 400 milhões para um amplo processo de modernização de Porto Colômbia, num acordo que ficou conhecido como o primeiro contrato de grande porte do grupo Eletrobras, após a privatização.
O diretor de modernizações da Voith Hydro América Latina, Ricardo Lee, afirmou que, nos últimos 10 anos, geradoras públicas e privadas conseguiram modernizar até 18 GW de energia hidrelétrica e a projeção é que nos próximos 5 anos poderão ser modernizados outros 10 GW.
Na Neoenergia, a gestão de ativos é a ferramenta que ajuda a empresa a avaliar quais serão os investimentos necessários para a modernização. A modalidade permite que a empresa possa avaliar cenários de riscos e buscar saídas para mitigar potenciais ofensores para a confiabilidade dos equipamentos, segundo Marcelo Lopes, diretor de hidráulica e offshore da Neoenergia.
Ele conta que entre janeiro e maio de 2020, a empresa tinha indicador de 93,8% de disponibilidade média para o sistema elétrico, passando para 96,6% nos cinco primeiros meses deste ano. “Quando a gente melhora, a gente fica mais exigente. É o conceito de melhoria contínua”, afirmou.
Também nos cinco primeiros meses de 2020, observa, a Neoenergia foi acionada para ligar as hidrelétricas 680 vezes para atender ao sistema. Entre janeiro e maio deste ano, a companhia recebeu 1.140 pedidos, aumento de 67% em quatro anos.
Esses pedidos se deram, em grande parte, para suprir a demanda quando eólicas e, principalmente, solares, deixam de gerar no fim do dia. “Ela tem que estar disponível e tem que ter um alto índice de confiabilidade.”
A Spic Brasil, subsidiária da State Power Investment Corporation of China (Spic), fechou com a americana GE e a Powerchina um contrato de contrato de R$ 700 milhões para modernização das unidades geradoras e serviços auxiliares da usina. Considerando todos os pacotes, o investimento total é superior a R$ 1 bilhão.
A presidente da Spic, Adriana Waltrick, diz que até o final de 2029, todas as seis unidades geradoras da usina estarão totalmente modernizadas e equipamentos importantes estarão atualizados, incluindo o sistema de controle, antes analógico e agora digital. “É possível aumentar a geração de energia em até 11 gigawatts sem construir novas usinas hidrelétricas, apenas usando o potencial já disponível hoje, observa Waltrick.
