Quinta-feira, 29 de Janeiro de 2026

Governo vê potencial de expansão da indústria brasileira com acordo UE–Mercosu

O governo brasileiro identificou potencial para ampliar mercados em diversos segmentos da indústria — da aviação à siderurgia — a partir do mapeamento das oportunidades de exportação abertas pelo acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul.

O tratado, assinado neste sábado (17), em Assunção, no Paraguai, ainda precisa ser validado pelo Parlamento Europeu e pelos Legislativos dos países do Mercosul para entrar em vigor.

Levantamento do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) mostra que o Brasil exportou US$ 662,6 milhões em 2024 em veículos aéreos, como helicópteros e aviões, para a União Europeia. O valor representa menos de 2% dos US$ 36 bilhões importados pelo bloco europeu nessa categoria no período.

O estudo cruza a pauta exportadora brasileira — considerando produtos em que o país é competitivo globalmente e cuja participação nas importações europeias chega a até 10% — com itens amplamente adquiridos pela UE no mercado internacional.

No segmento de máquinas e equipamentos, o Brasil exportou US$ 1,2 bilhão em máquinas, aparelhos, caldeiras, reatores nucleares e instrumentos mecânicos para a UE em 2024. No mesmo período, os europeus importaram US$ 736 bilhões nesse grupo de bens.

Segundo estimativas da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), o acordo pode elevar entre 25% e 30% as exportações do setor eletroeletrônico para a União Europeia no médio prazo, além de favorecer a diversificação de fornecedores de insumos para a indústria nacional.

Para o governo, os dados reforçam a estratégia do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de ampliar a participação de produtos industrializados de maior valor agregado na pauta exportadora brasileira. “Queremos produzir e vender bens industriais de maior valor agregado”, afirmou Lula após encontro com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, no Rio de Janeiro, na sexta-feira (16).

A secretária de Comércio Exterior do Mdic, Tatiana Prazeres, destaca que o acordo também deve garantir ao Brasil acesso a instrumentos mais competitivos e a novas tecnologias, contribuindo para a modernização e o aumento da produtividade da indústria. Segundo ela, estudos indicam que as exportações brasileiras para outros mercados também tendem a crescer em função do tratado, diante do ambiente de maior segurança jurídica e estabilidade para as empresas.

Na siderurgia, tubos e perfis ocos de ferro ou aço estão entre os produtos com maior potencial de expansão. Já nos setores químico e farmacêutico, o acordo pode favorecer itens como hidrogênio, gases raros, outros elementos não metálicos e medicamentos para fins terapêuticos ou profiláticos.

O presidente-executivo da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), André Passos Cordeiro, observa que a União Europeia historicamente impôs barreiras não tarifárias ao setor químico e petroquímico, mas que o acordo introduz mecanismos de facilitação do comércio, como o reconhecimento mútuo de certificações. Ele também avalia positivamente o pacto sob o aspecto geopolítico, em meio às medidas tarifárias adotadas pelos Estados Unidos.

Apesar das oportunidades, Cordeiro aponta desafios, como o alto custo das matérias-primas, que afeta a competitividade de Brasil e Europa frente a países como China e Estados Unidos. Segundo ele, o Brasil ainda enfrenta desvantagens estruturais em áreas como logística e custo de capital.

O acordo também abre perspectivas para setores como madeira e móveis. A Associação Brasileira das Indústrias do Mobiliário (Abimóvel) avalia o tratado como parte de um reposicionamento estratégico internacional. Estudos da entidade indicam que as exportações brasileiras de móveis para a Europa podem crescer cerca de 20% já no primeiro ano de vigência do acordo.

Em 2024, o Brasil exportou US$ 57,95 milhões em móveis e partes para a União Europeia, volume ainda pequeno diante dos US$ 32 bilhões importados pelo bloco no mesmo período. Países como França, Alemanha e Espanha já são destinos do mobiliário brasileiro, mas o acordo amplia o acesso a mercados do Leste Europeu.

O ex-secretário de Comércio Exterior Welber Barral ressalta, contudo, que a legislação europeia anti desmatamento exigirá adaptação das empresas brasileiras, sobretudo nos setores de madeira e celulose.

Além desses segmentos, outros produtos podem ganhar espaço na pauta exportadora brasileira para a Europa, como couros preparados, óleo de soja, preparações alimentícias e confecções. Para Tatiana Prazeres, a concretização das oportunidades dependerá de articulação com o setor privado, promoção comercial e aproximação entre empresas dos dois blocos.

 

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