Falta de energia limpa na cozinha afeta um terço da população, diz copresidente da agência de energia da ONU
A transição energética tem progredido, mas a um ritmo abaixo do necessário, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU). Para piorar, os avanços chegam por último àqueles que mais precisam, ou seja, as populações vulneráveis de países em desenvolvimento. Combater a desigualdade no acesso à energia sustentável exige inovações financeiras e institucionais, envolvendo governos, empresas e o terceiro setor, de acordo com Damilola Ogunbiyi, CEO da organização Sustainable Energy for All (SEforALL) e copresidente da agência UN-Energy, da ONU.
O foco principal de seu trabalho é o sétimo Objetivo do Desenvolvimento Sustentável (ODS 7), que trata de energia limpa e acessível. Apesar dos progressos lentos, a ativista aponta que iniciativas de inovação financeira para garantir o acesso à eletrificação vêm se espalhando pela África. É o caso dos “pactos de energia”, da “instalação universal de energia” e de mecanismos que disseminam redes locais de painéis solares, que podem se tornar modelos replicáveis no resto do mundo.
Apesar do barateamento da geração de energia solar e eólica, a ONU afirma que o acesso à energia está longe da meta. O que impede que energia sustentável barata se traduza em acesso real?
O investimento global em energia deve ultrapassar US$ 3 trilhões em 2024, com US$ 2 trilhões alocados em tecnologias de energia limpa. Mas só 15% desse investimento vai para mercados emergentes, excluindo a China. Está bem abaixo dos valores necessários para garantir acesso à energia moderna e atender à crescente demanda por energia de forma sustentável. Uma estatística reveladora é que, nos países de alta renda, o setor privado fornece mais de 80% do investimento, enquanto nos emergentes são 14%. É preciso mais colaboração entre o financiamento público e o privado, integrando projetos de energia de curto e longo prazo em mercados emergentes. É urgente encontrar mecanismos inovadores para atrair financiamento privado e reduzir custos de investimento.
A eficiência é uma meta fundamental do ODS 7, mas recebe menos atenção do que a geração. Os ganhos nesse campo também estão lentos. Onde está o gargalo?
São vários fatores. O crescimento populacional, a urbanização e a expansão econômica geram maior demanda de energia, dificultando a redução do consumo por medidas de eficiência. Apesar da disponibilidade de políticas e tecnologias comprovadas, o progresso global tem sido lento, situação agravada pela pandemia e tensões geopolíticas. Para atingir a meta, vamos precisar de compromissos políticos, além de triplicar os investimentos anuais em eficiência energética, chegando a US$ 1,8 trilhão (R$ 9,8 trilhões) até 2030. Em regiões sem acesso confiável à eletricidade e dependência de biomassa tradicional para cozinhar, melhorar a eficiência é crucial, mas difícil, devido aos desafios de infraestrutura.
A senhora enfatiza a importância do financiamento para a sustentabilidade da transição energética. Temos mecanismos satisfatórios?
De fato, tenho sido uma espécie de voz solitária, pedindo mais investimentos para atender à crescente demanda do mundo em desenvolvimento por energia renovável. Insisto nisso porque os fundos disponíveis de fontes públicas tradicionais não são suficientes para atender às necessidades das economias em rápido crescimento. Para preencher a lacuna, os líderes em mercados emergentes devem ser inovadores nas estratégias financeiras. O potencial existe. É preciso um pensamento inovador, juntamente com facilitadores-chave, como estruturas de habilitação estáveis e previsíveis.
Na África, a SEforALL desenvolve o projeto financeiro de “instalação universal de energia”. Como funciona?
É um mecanismo financeiro baseado em subsídios, que compensa os custos iniciais de investidores privados e incentiva projetos em países e áreas considerados arriscados demais. Esperamos poder inspirar outras organizações e governos a usar o modelo para acelerar o acesso à energia em comunidades remotas. Outra abordagem inovadora são os pactos de energia [energy compacts], que têm sido eficazes para unir governos, setor privado e cidades, na busca por fechar as lacunas de acesso à energia e acelerar o desenvolvimento de energia limpa. Os parceiros se juntam para estabelecer políticas, impulsionar o financiamento, desenvolver tecnologias e gerar os dados para acelerar o progresso nas nações em desenvolvimento. Em setembro, foi firmado na ONU o compromisso de implementar US$ 1,4 trilhão(R$ 7,6 trilhões) em financiamento até 2030.
O Fundo Verde para o Clima tem estado bem aquém de suas promessas. Há esperança?
Promessas e políticas levam tempo. Hoje, o mundo enfrenta uma miríade de desafios, como as mudanças climáticas, pandemias e conflitos. O Fundo Verde é particularmente importante. Se não receber financiamento adequado, investimentos em agricultura sustentável, proteção costeira, reflorestamento e transição energética na Ásia, África, Europa Oriental, América Latina e ilhas do Caribe e Pacífico serão muito limitados. Sobre esperança, posso dizer que, em colaboração com muitos governos ao redor do mundo, incluindo o brasileiro, estamos trabalhando para elaborar políticas e intervenções que tornem o acesso aos fluxos financeiros mais fácil para as populações mais afetadas pelas mudanças climáticas.
O que é preciso para que as energias renováveis estimulem o desenvolvimento?
Muitos emergentes podem garantir crescimento e empregos de qualidade estimulando, por exemplo, a fabricação doméstica de energia renovável. É por isso que defendemos a Iniciativa de Fabricação de Energia Renovável, que enfatiza a cooperação Sul-Sul e a criação de oportunidades para empresas se conectarem, aprenderem umas com as outras e formarem parcerias, acelerando a produção local de energia renovável, ao mesmo tempo em que focam nas cadeias de suprimentos de minerais essenciais. Aliás, muitos países podem aprender com o Brasil, que está na vanguarda da transição de energia limpa globalmente.
Discussões sobre a transição se concentram em questões como carros e manufatura. A senhora destaca problemas da vida cotidiana, como cozinhar. Qual o papel desses tópicos na transição energética?
É importante falar sobre as lutas diárias das pessoas com acesso deficiente à energia. Isso não é bem compreendido, mas 685 milhões de pessoas não têm acesso a formas confiáveis de eletricidade. Muitos não entendem que essas pessoas recorrem a combustíveis poluentes, que afetam gravemente suas vidas. Em muitos países, a dependência de geradores a gasolina gera emissões equivalentes a até mil termelétricas. Há lugares onde geradores de reserva fornecem mais capacidade elétrica do que a rede nacional. A falta de energia limpa para cozinhar afeta um terço da população mundial, contribui para o desmatamento e resulta em poluição do ar doméstico, o que mata prematuramente milhões de pessoas por ano, sobretudo mulheres e crianças. Por isso, apoiamos o desenvolvimento de planos nacionais de energia integrada, que definem claramente as metas de um país para eletrificação.
A senhora tem alertado para a relação entre o acesso à energia e a desigualdade de gênero.
Em muitas partes do mundo, as mulheres têm a responsabilidade primária pela gestão da energia doméstica, incluindo cozinhar, aquecer e iluminar. Porém, a infraestrutura energética tende a chegar às mulheres por último. A falta de acesso à energia afeta mulheres e crianças desproporcionalmente. Muitas mulheres são forçadas a depender de alternativas tradicionais e prejudiciais para cozinhar, como biomassa e querosene, o que as expõe a níveis perigosos de poluição do ar doméstico. O resultado são impressionantes 3,8 milhões de mortes prematuras a cada ano. Isto não só perpetua a pobreza energética, como expõe mulheres e suas famílias a riscos de saúde.
A eletrificação rural é um tópico importante do seu trabalho. Qual é o potencial das minirredes de geração local?
Soluções descentralizadas de energia renovável têm o potencial de fechar a lacuna de acesso em áreas remotas e rurais, onde a baixa credibilidade de serviços públicos e outros desafios, como a ausência de infraestrutura e baixas densidades populacionais, impedem o progresso na eletrificação. Essas soluções são complementares aos sistemas elétricos continentais. Estima-se que até 2030 mais de 70% das novas conexões de eletricidade virão de soluções off-grid ou mini-grid. Sistemas descentralizados de energia renovável serão um dos principais fatores para o sucesso do ODS 7.
Os combustíveis fósseis ainda crescem, mesmo com esforços para descarbonizar. O que é preciso para quebrar esse ciclo vicioso?
Os combustíveis fósseis são sustentados por subsídios, que devem chegar a US$ 8,2 trilhões (R$ 44,6 trilhões) até 2030. Eles visam proteger os consumidores com preços baixos, mas têm um custo enorme, levam a impostos mais altos, promovem a alocação ineficiente dos recursos e desfavorecem os mais pobres. Remover os subsídios e usar o ganho de receita para gastos sociais mais bem direcionados, reduções em impostos e investimentos em fontes de energia sustentáveis pode transformar o mundo.
