Terça-feira, 7 de Abril de 2026

Entidades pregam cautela sobre resposta brasileira a tarifaço de Trump

Apreensão e alívio resumem as primeiras impressões do mercado após os Estados Unidos anunciarem, nesta quarta-feira (2) a imposição de tarifas para importação de produtos de mais de 180 países. Ainda procurando digerir e avaliar os impactos da medida, representantes de diferentes segmentos defendem cautela por parte do governo brasileiro antes de adotar qualquer eventual retaliação.

Contemplado com a taxa mínima, de 10% sobre todos os produtos, o Brasil tem nos EUA um dos principais parceiros comerciais, embora o superávit seja americano. O Rio Grande do Sul tem tabaco, máquinas agrícolas, móveis, produtos de madeira, celulose, armas de fogo e calçados entre seus produtos mais exportados para a América.

A indústria calçadista brasileira, que tem nos Estados Unidos seu principal destino internacional, enxerga o “tarifaço” de Donald Trump como uma “janela de oportunidades”, mas também teme uma inundação de calçados daquele continente em mercados importantes para o Brasil e até mesmo no mercado doméstico nacional. O presidente-executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), Haroldo Ferreira, avalia que os EUA taxaram a China em mais 34%, o Vietnã em mais 46% e a Indonésia em mais 32% sobre os atuais 17,3%, aplicados também sobre o produto brasileiro.

“São tarifas muito mais elevadas do que as aplicadas para o Brasil, o que pode tornar o nosso calçado mais competitivo nos Estados Unidos. Por outro lado, além de a medida diminuir o consumo naquele país, também deve fazer com que os asiáticos busquem alternativas para desovar sua produção. E, entre essas alternativas, certamente teremos o próprio mercado brasileiro e países para onde exportamos nossos calçados”.

Já o presidente do Sindicato Interestadual da Indústria do Tabaco (SindiTabaco), Valmor Thesing, diz que os impactos do pacote de tarifas recíprocas divulgado pelo governo americano estão sendo avaliados pela entidade para tentar entender como será a aplicação no caso do produto brasileiro.

“Os EUA importaram US$ 255 milhões em 2024 e figuram em terceiro lugar no ranking de 113 países que adquiriram o tabaco brasileiro no período”.

Olhando em uma perspectiva mais ampla, a Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim) projeta que o cenário posto à mesa por Trump é muito maior que melhorar os resultados americanos nas balanças bilaterais comerciais pelo mundo. O objetivo seria ganhar terreno na comparação dos negócios internacionais com a China.

“A produção da indústria química americana é de US$ 680 bilhões, enquanto a chinesa é de US$ 2,7 trilhões. Essa disparidade não acontece apenas nesse segmento, mas no geral. A China tomou cresceu e ganhou mercados pelo mundo, de forma muito mais competitiva. E é nisso que os Estados Unidos querem interferir”, diz o presidente-executivo da Abiquim, André Passos Cordeiro.

Para ele, os EUA estão mais de olho em quanto os chineses faturam nos demais mercados do que em quanto cada mercado negocia com os Estados Unidos. O Brasil, por exemplo, importa US$ 20 bilhões em produtos químicos da Ásia, e US$ 12,7 bilhões dos EUA.

“Trump quer equilibrar as relações. Está dando um recado para cada um dos países com quem se relaciona, avisando que as tarifas podem ser ainda maiores se não houver mudanças no comércio com os asiáticos”.

Para o economista-chefe do Sistema Fiergs, Giovani Baggio, os sucessivos anúncios e recuos do presidente Donald Trump, desde o início de sua gestão, em 20 de janeiro, geram muita instabilidade no comércio global. E o tarifaço, aliado a outros movimentos adotados pela Casa Branca, aponta a ruptura da sistemática de regras comerciais estabelecidas desde a assinatura do Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio, em 1947, para promover o comércio global reduzindo tarifas e outras barreiras comerciais.

“É hora da diplomacia, de buscar conversar com a Câmara de Comércio americana e tentar contornar a situação. Ir para a disputa não é o melhor caminho. Ficou barato para o Brasil”, avalia. Segundo ele, a taxação aplicada ao Brasil causa certo alívio, na comparação com outros, como o Japão (24%) e a União Europeia (20%), por exemplo.

“Por essa ótica, 10% é um índice positivo. Ainda mais tendo o presidente Trump citado o Brasil como um país que taxa muito, o que é verdade. O déficit comercial com os EUA ajudou muito para o cálculo das tarifas. O foco deles são países superavitários na relação comercial com os Estados Unidos”.

O economista projeta o surgimento de novas oportunidades a partir de agora, com países menos taxados procurando ocupar o lugar de outros nas exportações para a América, e também para o mundo. Mas cada segmento será atingido de forma diferente.

“Uma empresa com margem de lucro apertada pode ficar inviabilizada com uma tarifa de 10%. Teria de redirecionar seus produtos. Mas isso não é um processo rápido. O Brasil deveria agir com o tradicional pragmatismo, enquanto acontece essa grande reorganização do comércio global. Observar como outros países se posicionam para, então, definir seu novo espaço no tabuleiro mundial”, analisa Baggio.

A Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee) avalia que a sobretaxa imposta pelos EUA aos produtos de diversos países, incluindo os maiores competidores do setor, representa uma oportunidade estratégica para o Brasil, mas também impõe riscos para a indústria nacional. A Abinee acredita, porém, que o Brasil não deve entrar nessa guerra tarifária, mas se armar para enfrentar uma concorrência ainda maior no mercado interno, uma vez que países como China, Coreia
do Sul e Vietnã deverão redirecionar suas exportações.

A Abinee enfatiza que a situação atual coloca o Brasil em um momento único para utilizar medidas de salvaguarda, a fim de proteger a indústria local, estimular a competitividade e, ao mesmo tempo, consolidar-se como um destino atrativo para investimentos produtivos. E defende que o Brasil adote uma postura proativa, explorando essas novas condições comerciais, para garantir não apenas a proteção de sua indústria, mas também o fortalecimento das suas relações comerciais no setor
elétrico e eletrônico.

“Se não baixarmos o custo Brasil, nós vamos nadar e morrer na praia”, diz o presidente Humberto Barbato.

 

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