Domingo, 5 de Abril de 2026

Ensino de IA nas escolas públicas já é realidade

A discussão sobre como ensinar inteligência artificial (IA) nas escolas públicas brasileiras já saiu do campo hipotético e entrou na agenda concreta das políticas educacionais. O ponto de partida, segundo debatedores reunidos no evento Edtechs 2026, do Tele.Síntese, nesta terça-feira, 24, em Brasília, é reconhecer que os estudantes já usam essas ferramentas, mas ainda com pouca orientação pedagógica. A questão central, portanto, deixou de ser se a IA deve entrar na escola e passou a ser como incorporá-la de forma estruturada, segura e alinhada ao currículo.

A coordenadora de estudos setoriais do Cetic.br, Graziella Castelli, lembrou que a TIC Educação 2024, divulgada em 2025, mostrou uso massivo de IA generativa entre estudantes do ensino médio. Segundo ela, “70% dos estudantes do ensino médio no Brasil declararam já ter utilizado” ferramentas do tipo em atividades escolares. Entre os professores desse mesmo nível de ensino, o índice chegou a 58%. Ao mesmo tempo, o mediador do painel ressaltou que apenas 32% dos alunos disseram ter recebido algum tipo de orientação da escola sobre como utilizar essas tecnologias.

Na avaliação de Graziella, esse descompasso revela o principal desafio da escola pós-conectada: os estudantes já acessam a tecnologia, mas ainda falta mediação institucional. Nos grupos focais conduzidos pelo Cetic.br, os alunos relataram usos diversos de IA em sua rotina e demonstraram curiosidade sobre o funcionamento dessas ferramentas, mas também lacunas importantes de compreensão. “Eles convergiram para a ideia de que a IA é uma tecnologia baseada em aprendizado contínuo e a partir dessas interações humanas”, afirmou, acrescentando que se trata de uma percepção apenas parcial e que há “um trabalho importante de sensibilização de como isso funciona”.

A representante da Unesco no Brasil, Maria Rehder, defendeu que o ensino de IA na educação básica deve ser centrado em competências, e não no uso instrumental de uma plataforma específica. Segundo ela, a diretriz internacional da entidade é que a IA seja “centrada no ser humano”. Na prática, isso significa formar estudantes capazes de compreender, aplicar, avaliar e criar, com pensamento crítico e uso ético da tecnologia. “A gente não quer um estudante que compete com a IA generativa. Pelo contrário, ele domina”, disse. Para a Unesco, o estudante do ambiente pós-conectado precisa saber os impactos da IA, usar a tecnologia de forma inclusiva e entender “tudo que está por trás da máquina”.

Cristieni Castilhos, CEO da MegaEdu, sustentou que ensinar tecnologia na escola pública exige foco no raciocínio analítico, e não apenas em treinamento técnico. “Quando fala sobre ensino de tecnologia a gente tem que falar sobre o pensamento analítico, o raciocínio crítico que está por trás e não um treinamento específico”, afirmou. Ela destacou que 2026 representa uma janela de oportunidade porque a BNCC Computação passa a ser obrigatória nas escolas públicas, com repasses federais vinculados à implementação. Segundo ela, 22 dos 27 estados já homologaram currículos na área, e há experiências concretas, como a do Piauí, onde já existe currículo de IA.

Mas o painel também apontou que ensinar IA na escola pública depende de resolver uma camada anterior: a infraestrutura de uso. Cristieni afirmou que o principal gargalo deixou de ser apenas a chegada da internet e passou a ser o acesso a dispositivos. “Não tem uso de tecnologia se o aluno não tiver um dispositivo”, resumiu. Na visão dela, o celular não é o equipamento ideal para o trabalho pedagógico contínuo em sala de aula. “O celular não é feito para ser um dispositivo pedagógico”, disse, defendendo equipamentos da própria escola, com filtros e configurações voltadas à aprendizagem.

A mesma avaliação apareceu na fala de Thamyris Alonso, da Vero, a partir de levantamento com 201 escolas acompanhadas pelo Instituto Redes do Futuro. Segundo ela, 85% dessas unidades já usam conectividade para fins pedagógicos diariamente, mas persistem entraves como distribuição interna do sinal, dificuldade de uso simultâneo por diferentes turmas, escassez de equipamentos e necessidade de apoio técnico e formação docente. Entre as escolas consultadas, 92% apontaram notebooks como principal instrumento de uso e 86% mencionaram o celular como recurso alternativo.

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