Empresas que movem Guarulhos: Por dentro da expansão da Hitachi Energy
Você sabia que Guarulhos tem um papel fundamental no funcionamento do moderno sistema de energia elétrica do Brasil? É da fábrica da Hitachi Energy, localizada no Cecap, que saem produtos, soluções e serviços para a transmissão de energia para diferentes estados brasileiros e também países ao redor do mundo. O Guarulhos Todo Dia visitou a multinacional e conversou com Glauco Freitas, presidente da Hitachi Energy no Brasil.
Nessa reportagem, a primeira da série “empresas que movem Guarulhos”, você terá detalhes sobre a expansão da Hitachi Energy no Brasil, os novos empregos que serão gerados, a profunda tradição da companhia em Guarulhos, a relevância para o setor de energia elétrica e a força de suas exportações.
Atualmente com mais de 1.400 funcionários no Cecap, a Hitachi Energy investirá um total de US$ 200 milhões (R$ 1,09 bilhão) no Brasil, marcando o maior aporte pontual já feito por uma empresa de energia no país. Desse montante, cerca de 20% está sendo aplicado na expansão do estabelecimento industrial (também chamado de site) de Guarulhos, que terá sua capacidade de produção aumentada em aproximadamente 40%.
Os 80% restantes serão destinados a uma nova fábrica, com inauguração prevista para meados de 2028. As obras em Guarulhos devem ser concluídas em meados de 2026. Juntos, esses investimentos prometem dobrar a produção da empresa.
Com uma presença física em Guarulhos desde 1954 e um legado que remonta a 1912 com o primeiro fornecimento para a eletrificação do Pão de Açúcar no Rio de Janeiro, a Hitachi Energy se consolida como um pilar da infraestrutura elétrica brasileira. Antes de ser Hitachi Energy, a empresa funcionava em Guarulhos com o nome de ABB. No entanto, a partir de 2018, a Hitachi comprou a operação da ABB.
A empresa em Guarulhos é especialista em fornecer produtos, soluções e serviços para a transmissão de energia elétrica, conectando fontes de geração aos centros de consumo e integrando grandes indústrias ao Sistema Interligado Nacional (SIN). A Hitachi Energy está presente em todos os grandes projetos estruturantes do país, como Itaipu, Rio Madeira e Belo Monte, e ostenta a maior base instalada de soluções e equipamentos de transmissão de energia no Brasil, sendo o dobro de seu principal concorrente em capacidade.
Ao GTD, Glauco Freitas explica que a localização estratégica de Guarulhos, com acesso a importantes rodovias e ao aeroporto, é crucial para a logística da empresa, permitindo a exportação para o Brasil e para o mundo.
Ao aumentar a sua capacidade de produção, a Hitachi Energy se prepara para o cenário energético futuro do Brasil, que prevê aumento na geração de energia até 2034, com a eletricidade ocupando 50% da matriz energética nacional até 2050. Com um sistema de transmissão considerado referência mundial e a abundância de energia renovável, o Brasil possui uma “janela de oportunidade incrível” para atrair indústrias e se firmar como um exportador de energia limpa para o mundo.
Ambas as fábricas da Hitachi Energy no Brasil, incluindo a de Guarulhos, exportam para os Estados Unidos. A empresa tem acompanhado de perto as tarifas impostas por Donald Trump, trabalhando com associações setoriais e a Embaixada da Suíça para buscar soluções diplomáticas.
A expansão no Brasil reforça a capacidade produtiva e também é um motor de desenvolvimento social. A ampliação da unidade em Guarulhos resultará na criação de 150 novos empregos diretos e 600 indiretos. Já a nova fábrica gerará 450 empregos diretos e 1.800 indiretos, totalizando 3.000 novas vagas decorrentes da expansão.
A Hitachi Energy planeja iniciar o processo mais intenso de contratação para as novas vagas em Guarulhos já no início do ano que vem, com todas as oportunidades disponíveis sendo divulgadas em seu site oficial, onde os interessados devem cadastrar seus currículos.
Entrevista
Abaixo, você lê a entrevista de Glauco Freitas, presidente da Hitachi Energy no Brasil, ao Guarulhos Todo Dia:
O que a Hitachi Energy produz em Guarulhos?
A Hitachi, o background da Hitachi é fornecer produtos, soluções e serviços para transmissão de energia elétrica. O que é transmissão de energia elétrica? São essas torres de transmissão que trazem energia das plantas de geração. Elas podem ser hidrelétricas, solares, eólicas, térmicas. Não importa a fonte de de geração de energia, mas ela traz a energia dessas gerações, que a gente chama de geração centralizada, para os centros de consumo. As torres de transmissão servem para isso: eu trago energia para onde precisa. A energia tem que chegar para pros centros e é assim que ela vem. E a gente também garante que as grandes indústrias sejam conectadas nesse sistema que é totalmente integrado, interligado no Brasil, que chama SIN, o Sistema Interligado Nacional. Então o que a gente fornece? Infraestrutura para essa rede de transmissão de energia, conectando fontes, que são as gerações, ou cargas, que são as indústrias.
A importância logística de Guarulhos
O aeroporto é uma facilidade pra gente, tanto para receber visitantes, empresas, quanto também para importar e exportar equipamentos. Guarulhos tem uma localização que pra gente é privilegiada. Nós temos saída para Fernão Dias, para Dutra, nós vamos ter o Rodoanel. Daqui eu consigo exportar pro Brasil e pro mundo inteiro. Não existem restrições quanto a isso.
E e tenho que reforçar a parceria com a Motiva [antiga CCR], porque eles têm sido muito parceiros na busca de soluções. Quando eu passo por uma ponte uma carga heavy lift, que são cargas acima de 120 toneladas, ela sofre uma deformação. Então, junto com a Motiva, tem gente tem acompanhado o retorno, porque essa é a resiliência, essa é a beleza da engenharia civil. Ela volta ao seu estado original pra gente poder passar de novo. Então, tem sido uma parceria ali entre as partes, porque eles entendem a importância dessa logística rodoviária junto com a gente.
Expansão da empresa
Em setembro do ano passado, a gente anunciou uma expansão em Guarulhos. É um investimento total de US$ 200 milhões (R$ 1,09 bilhão). É o maior investimento pontual feito por uma empresa energia no Brasil. Então, parte desse investimento, 20% mais ou menos, ele tá sendo utilizado aqui em Guarulhos na expansão do site [estabelecimento industrial]. Eu aumento em 40% mais ou menos a capacidade de produção desse site e os outros 80% de investimento em outra planta, uma planta nova que vai ser inaugurada em meados de 2028.
Juntas, esse investimento da planta nova com expansão aqui do site de Guarulhos, eu dobro a produção, ou seja, dependo cada vez mais dessa logística rodoviária. De novo, Guarulhos é privilegiado por estar aqui. Nós somos privilegiados por estarmos em Guarulhos, nessa nessa localização tão privilegiada.
Agora a gente buscou também para essa nova planta uma localização que tivesse sinergia com a nossa fábrica, porque o recurso humano que a gente que tem técnico, ele tá aqui concentrado em Guarulhos e a gente procurou um local aqui nessa rota, Rio-São Paulo, para poder estar perto do Porto de Santos, para poder estar perto do Porto de Itaguaí e para ter essas rotas rodoviárias.
O novo local será anunciado pela Hitachi em 26 de agosto. A obra em Guarulhos deve ficar pronta em meados de 2026.
Geração de empregos da Hitachi em Guarulhos
Essa expansão do estabelecimento industrial em Guarulhos gera 150 novos empregos. E a nossa experiência mostra que cada um emprego direto gerado, eu gero quatro indiretos. Teremos 150 vagas diretas mais 600 indiretas que vão ser geradas aqui, de cadeia de suprimentos, de cadeia de parceiros logísticos e tudo mais. Já a nova fábrica gera 450 novos empregos diretos e 1800 indiretos. Então, essa expansão gera 3.000 novos empregos.
As contratações hoje são feitas todas por equipe própria que fica aqui em Guarulhos. A Hitachi tem um processo muito justo de contratação. Toda e qualquer vaga disponível da empresa é postada no nosso site. A fábrica só vai estar pronta em meados de 2026, mas a gente deve começar esse processo de contratação mais pesado já no começo do ano que vem.
E também tem o banco de talento. Então, todo currículo tem que ser cadastrado ali naquele site, naquele link. Esse é um processo bem bonito e justo. Legal de contratação.
As vagas da Hitachi Guarulhos estão disponíveis no site: https://careers.hitachi.com/
search/jobs/in/guarulhos
Aumento da capacidade de produção e foco na sustentabilidade
A expansão daqui está bastante focada nas máquinas grandes HVDC, exportação, porque os laboratórios são dimensionados para isso. A nova fábrica também estará focada em máquinas grandes, mas também máquinas num range um pouco menor de potência para atender todo o mercado de transmissão e subtransmissão brasileiro e global.
Os novos produtos já são utilizados aqui no Brasil e hoje eles contemplam uma gama de produtos cada vez com menor pegada de carbono. Então, a gente tem muito equipamento… como a gente trabalha num nível de tensão muito alto, acima de 138 mil volts, quando ele tá em operação gera um arco elétrico e para proteger as pessoas e os equipamentos do arco elétrico, existe um meio de extinção que é o gás SF6. Então, hoje a Hitachi já trabalha com soluções livres do gás SF6.
A Hitachi já trabalha com soluções pré-fabricadas, pré-engenheradas, pré-montadas para diminuir a parte de concreto, para diminuir o espaço físico. A Hitachi já trabalha com soluções compactas para diminuir espaço físico e você poder utilizar mais terreno. E aí eu economizo em transporte, cabo, tudo, mão de obra, tudo. Então, hoje essa linha de produtos já está disponível aqui, o que eu vou ter é ampliar essa linha de produtos.
A Hitachi hoje no Brasil e no mundo é a empresa que tem a maior base instalada de soluções e equipamentos de transmissão de energia. Hoje a gente é o dobro do nosso principal concorrente em tamanho, em capacidade de produção. Então é sempre bom lembrar da importância. A Hitachi está presente no Brasil em todos os projetos estruturantes do país. Linhas de transmissão de Itaipu é Hitachi. Rio Madeira, Belo Monte, Gerdau, Petrobras, Suzano… é tudo nosso. Então, a gente tá num processo de tornar isso conhecido. O país está conhecendo o quão orgulhoso é o funcionário que trabalha aqui por fazer parte de tudo isso há tanto tempo.
Tarifaço
A Hitachi no Brasil tem duas fábricas hoje. Aqui em Guarulhos com pouco mais de 1400 funcionários, todos os nossos negócios estão lotados aqui. E uma fábrica em Blumenau de transformadores menores. As duas fábricas exportam para os Estados Unidos. Então, a gente enxerga com preocupação o tarifaço. O decreto saiu com isenção de alguns produtos. Então, existem alguns produtos que a gente exporta que estão isentos do tarifaço.
Hoje os Estados Unidos precisam dos equipamentos que são são fabricados no Brasil para transmissão de energia. Por que que eles precisam? Aqui no Brasil, 97% do país tá interconectado pelo sistema de transmissão de energia. Então, caiu energia no Ceará, rapidamente o operador do sistema manobra os seus equipamentos e a energia é restabelecida porque o sistema é integrado. Agora em setembro, outubro, o último estado da federação, Roraima, vai ser interconectado por um projeto que tá sendo feito e que nós estamos presentes lá. Então, será 100% do país interconectado. Essa interconexão é referência mundial, é uma das belezas do Brasil, o sistema de transmissão. Como engenheiro, eu tenho bastante orgulho disso.
Os Estados Unidos estão interconectando seus estados para aumentar a flexibilidade, confiabilidade e a robustez da rede, porque eles estão numa fase adiantada de transição energética. Eles não possuem os equipamentos que são produzidos aqui no Brasil e eles são grandes importadores dos transformadores de potência brasileiros. Existem fábricas em construção lá, mas vão demorar algum tempo.
Então, qual é a ação que a gente participou? As associações de classe das quais a gente faz parte, a Abinee, que é a Associação Brasileira da Indústria Nacional Eletroeletrônica, a ABDIB, a Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base, em conjunto com os demais agentes do setor, a gente encaminhou para o MDIC, o Ministério de Desenvolvimento da Indústria e Comércio, uma carta demonstrando essa preocupação.
Sugerimos algumas ações e imediatas, que seria um plano de contingência enquanto essa tarifa durar, porque existe já todas as fábricas de transformadores do Brasil, não somente a Hitachi, elas têm um backlog para ser entregue pros Estados Unidos. Com o decreto, vai ser cobrada uma tarifa em cima desse backlog que tem que ser entregue. Então, ao MDIC já foram enviadas as nossas preocupações, soluções, propostas e planos de contingência.
Além disso, via Embaixada da Suíça, embaixada da qual a gente faz parte, porque apesar de sermos uma empresa japonesa, a nossa sede é em Zurique, então as empresas suíças presentes no Brasil fizeram também o manifesto. Então, a gente já demonstrou essa preocupação. Eu, pessoalmente, quero acreditar que os dois países ainda encontrarão uma solução diplomática para o problema, mas a gente já demonstrou e já propôs algumas ações.
O futuro da Hitachi em Guarulhos e no Brasil
Apesar de estarmos aqui fisicamente neste mesmo prédio em Guarulhos, neste mesmo site, desde 1954, o primeiro fornecimento da empresa foi feito em 1912, que foi a eletrificação do Pão de Açúcar no Rio de Janeiro e tá lá até hoje lá. Então esse é um motivo de bastante orgulho nosso.
O Brasil tem uma janela de oportunidade que é incrível. A gente demorou 120 anos, mais ou menos, para conseguir gerar… a nossa capacidade instalada hoje no país é de 230 GW (gigawatts). Então, eu gero 230 GW. Só que eu consumo muito menos que isso. O nosso recorde de consumo foi em março desse ano, 105 GW. Ou seja, eu tenho o que o mundo busca, energia renovável, porque mais de 85% dessa geração de 230 GW, mais de 85% é renovável. Eu tenho energia renovável, barata e abundante.
E a gente tem um monte de Indústrias eletrointensivas que são necessárias e tendência mundial. Indústria da eletromobilidade, indústria de hidrogênio verde, que é um combustível do futuro. Eu tenho a indústria dos data centers, além da transição energética em si.
O plano decenal de energia do governo brasileiro, que é lançado a cada ano, prevê o futuro num espectro de 10 anos. Então, o que foi lançado neste ano, 2025, ele vai até 2034 e ele e crava ali que a nossa geração de energia para atender o que vem por aí, que é a eletrificação do mundo. A eletricidade passa a consumir um espaço muito grande na matriz energética nacional. Hoje ela ocupa 20%, ela vai ocupar 50% até 2050. Então o mundo não tá preparado para isso.
No Brasil, o PDE, que é o Plano Decenal de Expansão de Energia, diz que a gente vai ter que estar gerando 320 GW em 2034, ou seja, eu demorei 120 anos para gerar 230, agora eu tenho que gerar mais 90 em 9 anos. Para tá gerando 90 a mais em nove anos, eu tenho que começar agora a fabricar, a produzir.
E o Brasil tem esse cenário super positivo, considerando que ele tem umas essa janela de oportunidade para atrair essas indústrias pro país. Então, olha que legal, eu tenho que gerar 30% a mais do que eu gero hoje. Então, são muitas oportunidades de geração. E quando eu gero, eu tenho que transmitir. Eu tenho que transmitir para depois distribuir.
Então, o que a gente está fazendo é estar preparado para esse futuro que tá ali batendo na porta. Isso pensando só em Brasil. A mesmo coisa que tá acontecendo no Brasil tá acontecendo num ritmo muito mais acelerado na Europa e nos Estados Unidos, que não possuíam um sistema tão integrado e tão renovável quanto a gente. E tá acontecendo também no Oriente Médio. Então, o Brasil tem uma janela de oportunidade para atrair essas indústrias, para garantir esses investimentos e exportar para esses centros consumidores que, tudo indica, serão ratificados aí no ao longo do tempo.