Efetividade de fontes limpas de energia depende de transmissão
Além de vento e sol, a expansão das fontes limpas de energia depende da infraestrutura de transmissão. Em especial, da rede que conecta o Nordeste, que tem 92,5% da capacidade de geração eólica e 57,5% da solar, segundo o Ministério de Minas e Energia (MME), ao Sul-Sudeste, que consomem quase 70% da eletricidade do país.
Nos últimos três anos, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) realizou os maiores leilões de transmissão de sua história. Os certames 2022 a 2024, atraíram R$ 80 milhões em investimentos, contra média anual de R$ 11 bilhões entre 1999 e 2021, aponta Mário Miranda, presidente da Associação Brasileira das Empresas de Transmissão de Energia Elétrica (Abrate).
Como o Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE) 2034 – panorama para a década seguinte, produzido pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE) – prevê um investimento total de R$ 128 bilhões até 2034 e R$ 80 bilhões já foram contratados, Miranda afirma que os próximos leilões devem oferecer lotes de valor menor.
Ao mesmo tempo, é preciso retirar do papel os projetos já leiloados. “A gente vem experimentando atrasos gigantes na execução, seja por capacidade de investimento, seja por atraso no licenciamento ambiental”, afirma José Roberto Oliva Júnior, sócio do Pinheiro Neto Advogados.
O Painel de Informações de Empreendimentos de Transmissão da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), mostra que, embora a maior parte esteja com cronograma normal (56,2%) ou adiantado 24,6%), 123 projetos (17,4%), têm algum tipo de atraso; 85 deles, com atrasos superiores a um ano.
Sócio do Mattos Filho, o advogado Pablo Sorj destaca ainda questões de crédito. A Selic, a taxa básica de juros, que há um ano estava em 10,75%, está agora em 14,25%. “As empresas estão buscando financiamentos do tipo ‘mini-perm’ [que financia um projeto até o início da operação e da geração de receitas], de 4 a 5 anos. Tem condições mais estáveis que o financiamento-ponte de um ano, ao mesmo tempo que não amarra essa condição desfavorável de juros a um financiamento de longo prazo, de 15 anos a 20 anos”, explica.
Outros desafios vêm da descentralização da geração. O mercado livre de energia e incentivos à geração distribuída (GD) reforçaram a oferta de energia, mas aumentaram as exigências ao sistema de transmissão. “Os ‘prosumidores’ [junção de produtor e consumidor] quase não existiam em 2018 e hoje são quase 4 milhões, com placas solares que acrescentam mais de 30 GW ao sistema. Mas, quando o sol se põe, essa produção acaba. Em questão de segundos, a rede para de receber e passa a abastecer essa gente. É colossal”, diz Claudio Frischtak, da Inter.B Consultoria.
Para resolver parte da equação, os próximos leilões devem prever linhas capazes de levar energia nos dois sentidos. “A situação indicou que o sistema de escoamento de energia das usinas para o Sudeste poderia ser aprimorado para garantir o suprimento da região [Norte] em momentos de escassez hídrica”, afirma o MME.
Em 2023, a estatal chinesa State Grid Brazil Holding venceu o leilão de transmissão para conectar Maranhão, Tocantins e Goiás, e, assim, aumentar a capacidade de escoamento da energia do Nordeste. O investimento previsto, de R$ 18,1 bilhões, é o maior já leiloado pela Aneel. Segundo empresa, o projeto, previsto para ser concluído em 72 meses, está em processo de licenciamento ambiental.
A expansão da malha é apontada por especialistas como fundamental para atender os “data centers”, que são grandes consumidores de energia e que miram o Brasil em função da oferta de energia renovável. Segundo o MME, 42 projetos nos Estados de São Paulo, Rio Grande do Sul, Ceará, Rio de Janeiro e Bahia indicam uma demanda adicional de 15,2 GW até 2035.
“‘Data centers’ são uma oportunidade que pode mudar o PIB do país”, afirma Franceli Jodas, sócia da KPMG. “As empresas de tecnologia devem aumentar o consumo e, teoricamente, a gente tem muita fonte inexplorada”. Aproveitar a oportunidade dos data centers, contudo, não será simples – em parte, em função do clima.
As enchentes no Rio Grande do Sul em 2024 fizeram a Aneel cancelar um leilão de transmissão. No ano anterior, a seca no Norte obrigou o Operador Nacional do Sistema (ONS) a desligar o Linhão do Madeira, o maior do país, após a hidrelétrica de Santo Antônio (RO) ser desligada devido ao baixo nível do rio Madeira. A EPE destaca que o aumento na frequência de secas na região amazônica exige adaptações no planejamento e na operação do setor elétrico.
