Quinta-feira, 12 de Março de 2026

Economia circular transforma resíduos em recursos

A economia circular vem ganhando espaço no debate global como alternativa ao modelo linear tradicional, baseado em “extrair–usar–descartar”. A abordagem busca eliminar resíduos, prolongar o ciclo de vida dos produtos e regenerar sistemas naturais por meio de estratégias como reutilização, reparo, reciclagem e redesign, na proposta de um ciclo fechado, no qual os recursos permanecem em uso pelo maior tempo possível.

Recentemente, o tema deixou de ser apenas uma pauta ambiental e passou a orientar políticas públicas e iniciativas privadas em escala mundial. No Brasil, planos nacionais recentes incorporam a lógica circular à agenda de desenvolvimento, enquanto experiências internacionais já demonstram benefícios concretos em redução de emissões, geração de empregos e crescimento econômico.

O economista britânico Kenneth Boulding é considerado, no meio acadêmico, o criador do termo. Em seu artigo de 1966, “A Economia da Futura Espaçonave Terra“, Boulding argumentou que “o homem precisa encontrar seu lugar em um sistema ecológico cíclico capaz de reproduzir continuamente a forma material, embora não possa evitar aportes de energia”. Essa mesma ideia foi posteriormente notada e popularizada por Ellen MacArthur, uma velejadora premiada mundialmente, após sua volta ao mundo.

Todos os anos, o Brasil gera 80 milhões de toneladas de resíduos, um volume que exige a criação de políticas e ações eficazes para a reciclagem, reaproveitamento e redução de resíduos.

Vantagens ambientais e econômicas globais

A adoção em larga escala da economia circular tem potencial de transformar não apenas os sistemas produtivos, mas também os indicadores ambientais e econômicos em todo o mundo. De acordo com o Ministério Público do Mato Grosso, a adoção da economia circular é fundamental para a proteção do meio ambiente e o combate à crise climática. “Ao implementar esse modelo em apenas cinco setores principais (cimento, alumínio, aço, plástico e alimentos), poderíamos reduzir as emissões em 3,7 bilhões de toneladas até 2050. Esse volume é comparável à eliminação das emissões atuais de todos os meios de transporte”.

Segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), há mais de 50% de chance de a temperatura global atingir ou ultrapassar 1,5°C entre 2021 e 2040. E, especificamente em um cenário de emissões extremamente altas, o mundo pode atingir esse limiar ainda mais cedo – entre 2018 e 2037. Segundo a avaliação do IPCC, é preciso mudar o rumo para manter o aquecimento global em 1,5°C. Na prática, isso exige uma redução profunda das emissões de GEE em curto prazo, e a economia circular seria uma das estratégias para a manutenção deste cenário.

Do ponto de vista econômico, os ganhos também são significativos. Apenas nos setores de alimentos, bebidas, têxteis e embalagens, a economia de recursos poderia chegar a US$ 700 bilhões anuais, na Europa. Estudos da McKinsey apontam que uma economia circular na Europa pode criar um benefício líquido de €1,8 trilhão até 2030, superando desafios sobre recursos, criando novos empregos e estimulando a inovação para a geração de benefícios ambientais.

Oficialmente a União Europeia (UE) divulgou que todos os anos são produzidas mais 2,1 mil milhões de toneladas de resíduos nos países que fazem parte do bloco. Segundo o parlamento, “criar produtos mais eficientes e sustentáveis desde o início ajudaria a reduzir o consumo de energia e recursos, pois estima-se que mais de 80% do impacto ambiental de um produto seja determinado durante a fase de projeto”.

De acordo com a Ambipar, a reciclagem ainda é um dos gargalos da Política Nacional de Resíduos Sólidos. Tendo como consequência a economia, o país deixa de arrecadar cerca de R$ 14 bilhões com o reuso do lixo. A instituição acredita que as empresas são as responsáveis pela” produção esmagadora de resíduos da atualidade”, por isso têm grande responsabilidade na implementação da economia circular.

O papel da logística reversa na economia circular

A logística reversa é um dos pilares fundamentais da economia circular. Trata-se do processo de recolhimento, recuperação e reaproveitamento de produtos e materiais descartados, visando reinseri-los no ciclo produtivo ou descartá-los de forma ambientalmente correta.

No Brasil, a logística reversa é regulamentada pela Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), instituída em 2010 pela Lei n.º 12.305/2010. Esta legislação estabelece a obrigatoriedade de fabricantes, distribuidores, comerciantes e consumidores de assumirem responsabilidades compartilhadas pelo ciclo de vida dos produtos. Apesar disso, segundo a ONU, ainda há um custo alto para a gestão de resíduos sólidos urbanos e isso pode chegar a 640,3 bilhões de dólares até 2050, de acordo com o relatório “Global Waste Management Outlook”.

Um exemplo marcante é o setor de embalagens de agrotóxicos, que, em 2021, destinou adequadamente 98% das embalagens plásticas primárias colocadas no mercado, segundo dados do Instituto Nacional de Processamento de Embalagens Vazias (inpEV). Este modelo de logística reversa demonstra a viabilidade de implementar cadeias produtivas circulares em larga escala no Brasil.

No conceito de economia circular, na indústria de bens de consumo, a lógica da cadeia produtiva passaria por uma reformulação. O objetivo está em permitir que componentes de produtos já utilizados, como peças de eletrodomésticos, possam ser reprocessados. Desse modo, seriam novamente integrados ao ciclo de produção, servindo como matéria-prima ou componentes para a fabricação de novos produtos eletrônicos.

Negócios circulares estão reconfigurando o mercado
Modelos de negócios circulares têm impulsionado empresas a repensarem como gerar valor. Esses modelos se sustentam em práticas como o reaproveitamento de recursos, prolongamento da vida útil dos produtos, reestruturações econômicas baseadas em serviços e o design para a circularidade.

Entre os principais modelos estão:

reutilização e remanufatura: geralmente usado por empresas como a brasileira Renova Ecopeças, especializada na remanufatura de peças automotivas, reduzindo a necessidade de produzir novos materiais.
plataformas de economia compartilhada: exemplificado pelo marketplace Enjoei, que incentiva o prolongamento do ciclo de vida de roupas e acessórios.
Especialistas do Fórum Econômico Mundial destacam que modelos circulares podem gerar receitas adicionais de até US$ 4,5 trilhões até 2030, em escala global.

A transição para a economia circular representa uma oportunidade única para empresas e governos alinharem crescimento econômico a práticas sustentáveis. Ao adotar conceitos como logística reversa, modelos de negócios circulares e políticas nacionais, o Brasil pode posicionar-se como líder mundial em sustentabilidade, promovendo impactos positivos para o meio ambiente e a sociedade.

A Tetra Pak, uma das líderes globais em soluções para processamento e embalagem de alimentos, está presente em 160 países. Em seu relatório de sustentabilidade de 2024, a empresa declarou que desenvolve soluções para promover a reciclagem das embalagens de forma contínua. Além disso, realiza trabalho social com catadores e catadoras de material reciclável. “Sustentabilidade é a nossa estratégia de negócios”, declarou Valéria Michel, diretora de sustentabilidade no Cone Sul e Brasil da Tetra Pak, ao Capital Reset.

No Brasil, mais de 100 mil toneladas de caixinhas longa vida pós-consumo são recicladas todos os anos. Em 2024, a Tetra Pak demonstrou seu compromisso com a sustentabilidade, investindo R$ 26,2 milhões no país. O valor foi 30% superior ao investido no ano anterior em ações e projetos que incluem pesquisas e avanços na sua cadeia de reciclagem.
Segundo o Parlamento Europeu, uma transição para a economia circular aumentaria a competitividade, estimularia a inovação, incentivaria o crescimento econômico e geraria mais empregos (cerca de 700 mil postos de trabalho na UE até 2030).

A União Europeia estabeleceu como meta a construção de uma economia circular e climaticamente neutra até 2050. Para atingir esse objetivo, diversas novas medidas foram implementadas nos últimos anos, visando a redução de resíduos e o aumento da sustentabilidade dos produtos. Incluem design ecológico, embalagens, ecobranqueamento, direito à reparação, gestão de resíduos e outras áreas essenciais.

 

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