Dados, conectividade e desigualdade: o risco de um Brasil algorítmico em camadas
Por Alessandra Montini * – A digitalização da economia brasileira avança em ritmo acelerado. Redes 5G, expansão da banda larga fixa, uso crescente de dados e adoção de inteligência artificial começam a redefinir a forma como serviços são ofertados, políticas públicas são desenhadas e decisões econômicas são tomadas. No entanto, esse movimento ocorre sobre uma base estrutural desigual de conectividade e acesso digital, o que cria um risco pouco discutido, que é a formação de um Brasil algorítmico em camadas.
À medida que dados passam a orientar decisões públicas e privadas, conectividade deixa de ser apenas um tema de telecomunicações e passa a ser um fator determinante de inclusão econômica e social. Onde não há conexão de qualidade, não há dados consistentes. E onde não há dados, não há representação nos sistemas que decidem crédito, acesso a serviços, políticas públicas e investimentos.
Dados dependem de infraestrutura. Sem acesso estável à internet, dispositivos adequados e capacidade de uso, populações inteiras ficam fora do ambiente digital que hoje sustenta decisões automatizadas. Segundo dados do IBGE, milhões de brasileiros ainda vivem em domicílios sem acesso adequado à internet, especialmente em áreas rurais e periferias urbanas. Ao mesmo tempo, a expansão do 5G no Brasil, conforme dados da Anatel, segue concentrada em grandes centros urbanos, mesmo após os avanços do leilão de espectro.
Essa assimetria cria um problema estrutural. Os dados que alimentam algoritmos e sistemas analíticos refletem apenas parte do território e da população brasileira. O que não está conectado não gera dados. O que não gera dados não entra nos modelos e o que não entra nos modelos tende a ficar fora das decisões.
O efeito econômico da exclusão algorítmica
O uso de dados e automação já influencia setores como serviços financeiros, varejo, telecom, saúde suplementar e educação. Modelos analíticos definem ofertas, preços, crédito e elegibilidade. Quando esses modelos operam sobre bases de dados incompletas, o risco é econômico.
Segundo a GSMA, associação global das operadoras móveis, países com grandes desigualdades de conectividade tendem a ver a digitalização aprofundar assimetrias regionais, concentrando ganhos de produtividade e investimento em áreas já bem atendidas por infraestrutura. No caso brasileiro, isso significa o risco de uma economia digital que cresce de forma desequilibrada, reforçando diferenças regionais históricas.
Tratar conectividade apenas como tema de mercado é insuficiente. Redes de telecomunicações hoje sustentam serviços essenciais, governo digital, educação, saúde e acesso a oportunidades econômicas. Nesse sentido, infraestrutura digital deve ser tratada como política pública estratégica, assim como rodovias, energia e saneamento.
O Brasil avançou em marcos regulatórios importantes, como a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e iniciativas de governo digital. No entanto, sem uma base homogênea de conectividade, a própria aplicação dessas políticas tende a ser desigual. Regulamentar o uso de dados e algoritmos sem enfrentar a exclusão digital estrutural significa regular apenas a camada superior do problema.
Dados públicos, decisões privadas
Outro ponto crítico é o uso crescente de dados públicos e privados para decisões de mercado. Informações de consumo, mobilidade, comportamento digital e uso de serviços alimentam modelos que operam em larga escala. Quando parte da população está sub-representada nesses bancos de dados, cria-se um ciclo de exclusão. Menos dados geram menos ofertas, menos crédito e menos oportunidades, o que reduz ainda mais a geração de dados.
Esse ciclo já começa a impactar a dinâmica competitiva de diversos setores e coloca desafios adicionais para reguladores, especialmente em mercados altamente dependentes de dados, como telecomunicações e serviços digitais.
O debate regulatório sobre inteligência artificial, dados e automação precisa considerar uma variável central: a desigualdade de conectividade. Governar algoritmos em um país com grandes assimetrias de acesso digital exige políticas integradas, que articulem telecom, dados, inclusão digital e desenvolvimento regional.
Sem isso, o país corre o risco de construir sistemas sofisticados de decisão para uma parcela da população, enquanto outra permanece invisível para a lógica algorítmica que orienta investimentos e políticas.
Um risco estrutural evitável
O Brasil tem condições de avançar na economia digital de forma mais equilibrada. Mas isso exige reconhecer que dados, conectividade e desigualdade fazem parte do mesmo problema. Um país que automatiza decisões sem universalizar o acesso à infraestrutura digital corre o risco de transformar inovação em vetor de exclusão.
O risco do Brasil algorítmico em camadas não está na tecnologia em si, mas na ausência de uma estratégia integrada que trate conectividade como base, dados como ativo estratégico e governança digital como instrumento de desenvolvimento e não apenas de eficiência.
* Alessandra Montini é diretora do LabData, da FIA e escreve mensalmente a coluna Montini Insights no Tele.Síntese
