Conectividade rural avança com redes 4G e privativas, mas 5G ainda enfrenta barreiras econômicas
O avanço da conectividade no campo tem ocorrido principalmente com o uso de redes privativas 4G na faixa de 700 MHz e tecnologias complementares como NB-IoT e LTE-M, enquanto o 5G ainda enfrenta barreiras de custo e cobertura para aplicações em áreas produtivas. A avaliação foi unânime entre os participantes do Painel 1, sobre infraestrutura e conectividade rural realizado no AGROtic 2025, nesta terça-feira, 29.
Daniel Fuchs, sócio-fundador da Arqia, destacou que a empresa não identifica aplicações no campo que demandem 5G. “A aposta da gente é no 4G, usando 700 MHz. A gente não vê aplicações necessitando do 5G. E acrescentou: “Nós vemos todas essas outras tecnologias, como LoRa, como Wi-Fi, como complementares”
Eduardo Polidoro, diretor de IoT da Claro, reforçou o papel do 4G e das tecnologias de baixo consumo. “Se você tem sensores de pH, você tem sensores de umidade, você tem estações agrometeorológicas espalhadas pela área produtiva, que muitas vezes não precisam dessa banda. O que elas precisam é o máximo de cobertura e o mínimo de bateria”.
Sobre o 5G, Polidoro foi enfático: “O módulo que vai no dispositivo, o módulo que faz a comunicação, do 5G ele ainda é muito mais elevado do que o 4G. Então, assim, o 5G atende as necessidades? É óbvio que atende, porque é melhor que o 4.”
Já Leandro Nazareth, head de inovação do Grupo Algar, relatou a experiência com grandes áreas cobertas por rede privativa. “A gente tem um grande cliente em Mato Grosso com 300 mil hectares conectados em rede privativa com 4G, mil máquinas conectadas e mil pessoas conectadas. É um grande case nosso”.
Ele reforçou que a conectividade precisa estar acompanhada de aplicações práticas para o produtor. “A conectividade, seja o modelo público integrado com o privado ou o modelo da extensão da rede pública, ela só vai ter significado para o produtor se as aplicações forem colocadas de maneira assertiva e se no final das contas ele tomar decisões mais robustas a partir daquilo que foi aplicado ali”.
Renato Bueno, diretor da Nokia, afirmou que o 4G segue sendo a solução mais eficiente no campo. “O 4G, ele é ainda a solução tecnicamente viável que atende 85, 95% dos casos do agro-brasileiro que é diferente das sedes, dos silos, das fábricas, que é onde já vem sendo adotado o 5G”.
Ele também observou que o desafio não é tecnológico. “Tecnologia, especialmente de conectividade, não é o desafio pra se conectar ao campo, né? (…) O desafio é a gente. Os desafios são pessoas”.
Renato Coutinho, diretor da Conectar Agro e executivo da TIM, lembrou que a associação tem buscado novos formatos para reduzir os custos de implantação.
“Tentamos fazer com cooperativas, tentamos fazer com aglomerados de fazendas, tentamos mostrar todos os benefícios, mas estão sempre em momentos diferentes, nem todo mundo está no momento tecnológico da transformação”.
Painel AGROtic 2025 defende propósito em conectividade rural
Coutinho também pontuou que a conectividade isolada não resolve o problema. “A conectividade por si só chegando, sem nenhuma aplicação digital, sem nenhum benefício, ela não vai gerar conhecimento, vai gerar tráfego de dados, YouTube e navegação sem propósito”.
Além das questões técnicas, os painelistas defenderam o uso da conectividade como vetor de inclusão digital, educação e valorização da população rural. “Tivemos exemplos dentro da associação já de quanto a educação profissional ou a educação básica também pode ser transformada levando conectividade aos nossos rincões”, disse Coutinho.
Ainda durante painel da AGROtic 2025, ao explicar sobre o setor rural, Leandro Nazareth completou com um exemplo concreto: “A gente, com a nossa empresa de renováveis, no passado, a gente levou a energia, depois levou conectividade, levou escola, levou posto de saúde, levou agora recentemente biblioteca na floresta”.
A Claro informou que seu modelo de negócios não exige investimento inicial do produtor, mas sim o compromisso com a digitalização. “A gente não cobra em si, a gente não tem um modelo de cobrar. O produtor tem que fazer um CAPEX ali, algum investimento em equipamento. Todo equipamento é nosso (…) A única coisa que a gente pede é o compromisso de se digitalizar”, afirmou Polidoro.
Os painelistas também citaram iniciativas como o projeto Semear, da Embrapa, e o uso de redes híbridas para reduzir custos em regiões de média densidade produtiva. Uma das sugestões foi permitir que redes privativas instaladas em fazendas possam também atender comunidades vizinhas, o que atualmente enfrenta barreiras regulatórias.
