Segunda-feira, 6 de Abril de 2026

Com gargalos na coleta seletiva e baixo índice de reciclagem, Brasil se distancia da cadeia ideal de descarte de lixo

Para muitos, pôr o saco de lixo na porta de casa é o ato final do ciclo de consumo. No entanto, aquele resíduo ainda percorrerá longo caminho até seu destino. Apesar do avanço da reciclagem e do aumento de aterros sanitários certificados, o Brasil ainda sofre com o descarte irregular, que contamina rios, solos, mares e mexe com a saúde humana e até com as mudanças climáticas. Segundo a Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema), 40% do lixo produzido aqui, cerca de 32 milhões de toneladas, é descartado de forma inadequada.

Segundo especialistas, há dois desafios essenciais: a conscientização da população e o investimento público na coleta adequada, com destino à reciclagem. Ainda que muitas leis específicas tramitem no Congresso há anos, o Brasil não cumpre a legislação existente. A Política Nacional de Resíduos Sólidos e o Marco Legal do Saneamento estabeleceram o fim dos lixões a céu aberto, mas os prazos são sucessivamente postergados.

— A população de maneira geral acha que saneamento é uma coisa mágica. Você vai ao mercado, faz uso do produto, depois bota o lixo na porta de casa e ele desaparece. Nunca mais você vê, não sabe para onde vai, o que acontece. Não tem essa conscientização de que o que você adquire é seu, ou seja, o resíduo também é seu — afirma Caio Fontana, professor de engenharia ambiental da Unifesp e coordenador executivo de PD&I da Fundação Vanzolini.

Enquanto isso, o país dispõe de cooperativas e empresas de reciclagem bem equipadas, mas que não recebem o volume devido de resíduos. Em muitos casos, a ociosidade da força de trabalho alcança 60%.

No setor industrial, no hospitalar e em alguns serviços, como o hoteleiro e de restaurantes, o descarte é bem resolvido, avalia Caio Fontana, professor de engenharia ambiental da Unifesp. O principal problema é o lixo residencial. Na origem, em grande parte falta a conscientização para a separação entre recicláveis e resíduos orgânicos. Depois, não há uma cadeia bem estruturada para que os recicláveis sejam levados até processadores apropriados. Além disso, o Brasil ainda convive com intenso consumo de produtos descartáveis e é o quarto maior consumidor de plásticos do mundo, com apenas 1,2% reciclado, de acordo com estudos da WWF e do Banco Mundial.

Exemplos de fora
Em muitos países, em especial na Europa e na Ásia, a conscientização ambiental foi impulsionada por leis que exigem participação maior da população na gestão do resíduo. Na Holanda, o morador precisa levar seu saco de lixo até um contêiner. Em Portugal, um plano nacional erradicou os lixões em 10 anos. Em boa parte da comunidade europeia, assim como no Japão e na Coreia do Sul, a população paga tarifas proporcionais ao que gera de resíduo.

— A partir do momento que está pagando, a pessoa vai se preocupar em gerar menos resíduo. Vai separar direito, levar em ecoponto, tudo para gastar menos. Mas trata-se de um tema que ainda é tabu no Brasil — avalia Jesus Gomes, CEO da Waste Brasil, a maior feira de gestão de resíduos e reciclagem da América Latina. — Temos leis, mas que não são aplicadas. Como consequência, perdemos santuários ambientais pela contaminação.

Alguns materiais como ferrosos, vidros, papel e resíduos da construção civil conseguem ter altos índices de reciclagem no país, pelo valor comercial maior. Por outro lado, o plástico, principal vilão no Brasil e no mundo, é barato de ser produzido e caro para reciclar.

— Qualquer material é reciclável, só que, para passar de reciclável para reciclado, precisa ter viés econômico — constata Clineu Alvarenga, presidente do Instituto Nacional de Reciclagem (Inesfa). — Todas as cidades precisam ter coleta seletiva para tirar o máximo possível de lixões.

Segundo Alvarenga, só 1,5% do material recebido pelas processadoras vem de cooperativas. A grande base da cadeia, diz, são catadores autônomos e ferros-velhos. Uma barreira é a alta tributação às cooperativas. Daí o instituto defender isenção fiscal da cadeia de reciclagem. Além do PL 1800/21, que autoriza as indústrias a receber créditos de PIS/Cofins na aquisição de recicláveis, o Inesfa pleiteia que a indústria de reciclagem receba tratamento diferente na Reforma Tributária.

— O Congresso esquecer a reciclagem na reforma mostra que o discurso é um, mas a atitude é outra —lamenta.

Lixo eletrônico: como recolher

Dos 2,4 milhões de toneladas de resíduos eletrônicos gerados no ano no Brasil, segundo maior número das Américas, só 3% têm destinação correta. Apesar seu valor comercial, o reciclado eletrônico depende de alto investimento para o processamento, o que limita a entrada de cooperativas. Outra dificuldade é a alta presença de plástico nos materiais, o que gera contaminação química. Além da reciclagem, fabricantes e políticas públicas precisam atentar à logística reversa, afirma Marcello Fornari, cofundador da Circular Braini, startup dedicada à economia circular desse produto.

— É preciso entender como o fabricante pode inovar. Promover reúso, recondicionamento de produtos, design mais sustentável e novos modelos de negócio. E esperamos que surjam políticas públicas.

Um exemplo de inovação nesse sentido vem da Kuba Áudio, primeira empresa brasileira de aparelhos sonoros, que tem seus fones 100% modulares, ou seja, o aparelho não precisa ser inteiramente trocado por causa de algum defeito, já que as peças são substituíveis. Esse modelo abre caminho para que os fones com problemas possam ser recolhidos, recondicionados e revendidos. Assim, a Kuba ajuda no combate ao problema conhecido como “cemitério de fones”.

— Imagine um mundo em que, quando o pneu do seu carro fica careca, é necessário descartar o carro inteiro e comprar um novo. É absurdo, mas é assim que é o mundo dos fones – explica o CEO da Kuba, Leonardo Drummond. — Além de diminuir a quantidade de lixo eletrônico que geramos, ainda oferecemos uma solução que, a médio prazo, acaba sendo mais econômica.

A agenda da sustentabilidade se amplia. Em 2023, a Vivo recolheu mais de 12 toneladas de eletrônicos — celulares, cabos, fones e baterias descartados nas suas lojas. Para 2024, a expectativa é aumentar em até 10% a coleta.

 

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