Sábado, 11 de Abril de 2026

Com clima extremo, distribuidoras buscam reforçar redes

 Com o desfecho da definição, pelo governo, das regras para a renovação de 20 contratos de concessão que vencem entre 2025 e 2031, as distribuidoras de energia elétrica voltaram-se agora para os futuros investimentos em resiliência de redes, diante da frequência cada vez maior de eventos climáticos extremos. 

 Em teleconferências com analistas ou nos balanços de resultados de 2024, executivos de grupos que comandam distribuidoras apontaram o tema em algum momento como crucial em 2025 – e nos anos seguintes. 

 Especialistas consideram que o foco em redes mais robustas ganha força porque a conclusão do processo de renovação das concessões garantiu mais previsibilidade e segurança jurídica para as empresas destravarem recursos. Entre as diretrizes para a renovação, estão novas metas de recomposição do serviço após interrupções causadas por fatores climáticos. Até o momento, o regulamento da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) exclui do cálculo dos indicadores de qualidade os cortes de energia causados pelo clima extremo. 

 “Um ponto é certo: teremos mais eventos climáticos extremos. Não sabemos aonde e nem quando, mas eles estão cada dia mais frequentes e intensos”, disse Marcos Madureira, presidente da Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee). Para o executivo, as distribuidoras precisam seguir investindo no aumento da capacidade de reação, o que passa pela ampliação dos equipamentos de automação na rede e pelo maior número de alternativas de atendimento para determinadas áreas. 

 As empresas já vinham apontando, nos últimos anos, a mudança do perfil de investimentos ante os últimos cinco ou dez anos. Apesar das distribuidoras ainda dedicarem recursos à expansão da malha, ganhou espaço o aumento da resiliência e a mitigação dos efeitos do clima extremo, como fortes chuvas, vendavais e altas temperaturas, acima da média histórica. São situações como as ocorridas em São Paulo em novembro de 2023, quando ventos acima de 100 quilômetros por hora derrubaram mais de 1 mil árvores sobre a rede elétrica, destruindo trechos inteiros e deixando milhões de pessoas sem energia por dias. 

 Dona da concessão que atende a capital paulista, a Enel anunciou investimentos de R$ 25,3 bilhões no país entre 2025 e 2027. Desse total, R$ 24 bilhões serão direcionados para as três distribuidoras do grupo, como parte de um projeto de reforço da resiliência na rede elétrica, e é 62% superior ao estimado para o triênio 2024-2026. “Os investimentos são destinados, sobretudo, para reforço, digitalização e expansão dos sistemas de distribuição”, disse a Enel, em nota. A empresa afirmou também que está reforçando o plano operacional com “intensificação das manutenções e podas preventivas”, além da contratação de profissionais próprios para serviços de campo. 

 A Neoenergia vai investir R$ 26 bilhões nas cinco distribuidoras do grupo entre 2024 e 2027, para tornar as redes da companhia mais resilientes, robustas e automatizadas. O plano inclui expansão e modernização da rede elétrica, contratação de equipes próprias de eletricistas e melhoria no atendimento ao cliente, entre outras medidas. “A Neoenergia segue em 2025 com uma estratégia de crescimento sustentável, baseada em um plano de qualidade robusto e disciplina na alocação de capital, com investimentos destinados principalmente em redes de distribuição para que possamos assegurar a melhoria contínua do fornecimento de energia aos nossos 17 milhões de clientes”, disse Eduardo Capelastegui, presidente da Neonergia.

 No caso da Light, se o desafio em 2024 foi o de manter, sob recuperação judicial, a operação dentro dos padrões regulatórios de qualidade, para 2025 o foco será assegurar os esforços em preservar o caixa. “O principal vetor dessa administração é o caixa, que vai permitir à companhia aumentar o ritmo de investimentos com a renovação da concessão”, disse o presidente da companhia, Alexandre Nogueira ao Pipeline, site de negócios do Valor.

 Nós teremos eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes e mais intensos”  — Marcos Madureira 

 Para 2025, a Cemig Distribuição anunciou um investimento de R$ 4,7 bilhões para ampliação, modernização e fortalecimento da confiabilidade da rede elétrica em Minas Gerais. “Os investimentos em rede não são apenas uma resposta técnica, mas também estratégica, fundamentais para garantir a continuidade do serviço com qualidade, promover inclusão energética e sustentar a transição energética para uma matriz mais limpa e descentralizada”, disse Denis Mollica, superintendente de planejamento e engenharia da Cemig. 

 Bruna de Barros Correia, advogada da área de energia do BMA Advogados, disse esperar que a discussão sobre redes resilientes avance neste ano, e apesar de cenários incertos existem medidas de baixo impacto e de curto prazo que podem fortalecer sistemas de distribuição. Por exemplo, a criação de planos de contingência robustos e bem estruturados, que podem atenuar impactos negativos dos eventos climáticos e garantir a continuidade do fornecimento. “O compartilhamento de equipes e equipamentos entre as distribuidoras também é uma ação importante em cenários de emergência”, acrescentou Bruna. 

 Na visão de Nivalde de Castro, coordenador do Grupo de Estudos do Setor Elétrico da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Gesel-UFRJ), dada a imprevisibilidade e intensidade do clima extremo os investimentos terão que ser elevados, como forma de evitar que a culpa acabe “caindo sobre a distribuidora”, como ocorreu, na visão dele, no caso da Enel em São Paulo, ainda que a responsabilidade seja de muitos agentes em muitos casos. 

 “O desafio é ter as condições regulatórias para que se possa fazer os investimentos considerados prudentes para garantir a qualidade do serviço, sem serem culpabilizadas pelas consequências dos eventos climáticos extremos”, disse Castro. Para ele, outros temas ligados à transição energética também trazem desafios à operação das redes das distribuidoras. 

 

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