Cisco vê demanda sustentada: ‘Investimentos seguem do México à Argentina’
A rápida expansão da inteligência artificial está impulsionando uma demanda sem precedentes por infraestrutura digital, ao mesmo tempo em que expõe gargalos relevantes no Brasil e na América Latina especialmente em redes e data centers.
Segundo Ricardo Mucci, presidente da Cisco Brasil, e Laércio Albuquerque, presidente da Cisco para a América Latina, o volume de tráfego e processamento exigido por aplicações de IA já supera a capacidade de muitas infraestruturas existentes.
“Você não consegue executar projetos de inteligência artificial com estruturas de 10 anos atrás”, afirmou Albuquerque em coletiva de imprensa em São Paulo, destacando que há um déficit global e regional de infraestrutura para suportar essa nova carga de dados.
América latina e resiliência dos investimentos
Albuquerque disse à BNamericas que a Cisco segue vendo investimentos fortes e sustentados em toda a América Latina, do México à Argentina, apesar da volatilidade macroeconômica e geopolítica, além de fatores como custos elevados e ciclos eleitorais.
Segundo ele, o movimento reflete uma demanda firme que continua avançando independentemente do cenário externo e de questões econômicas.
“A demanda das empresas, dos governos, por tecnologia, inteligência artificial e digitalização é incontornável”, afirmou.
Para o executivo, esse contexto reforça o papel da região como um mercado relevante para expansão de infraestrutura digital, com projetos em curso e novos investimentos sendo planejados.
Por outro lado, a demanda está levando empresas a revisarem suas arquiteturas tecnológicas, incluindo o equilíbrio entre nuvem e infraestrutura local.
Segundo os executivos, há um movimento relevante de retorno parcial a estruturas on-premise, impulsionado por custos elevados do processamento em nuvem.
“O custo de tokens é alto e, quando você escala isso, pode ficar inviável no modelo de nuvem”, disse Mucci na coletiva, realizada durante o evento Cisco Connect.
Como resultado, cresce a procura por modernização (“refresh”) de data centers próprios e aumento de capacidade de rede, com projetos já sendo desenhados para suportar conexões de alta velocidade, como 64Gbps e 100Gbps.
Além disso, a Cisco observa uma tendência de descentralização da infraestrutura e maior necessidade de edge computing. Nesse modelo, parte do processamento é realizada mais próxima da geração dos dados – o que aumenta ainda mais a demanda por redes robustas.
“Não é só o data center central. É preciso levar processamento de IA para a ponta, e isso exige rede”, afirmou Mucci.
Infraestrutura defasada e riscos
Outro ponto crítico apontado pelos executivos é a “obsolescência” das redes atuais.
Segundo Albuquerque, parte significativa da infraestrutura global não está preparada para lidar com o volume e a complexidade das cargas de IA.
Há também preocupações crescentes com segurança, uma vez que sistemas desatualizados aumentam a exposição a ataques cibernéticos.
“O mundo enfrenta um déficit de infraestrutura, e muitos equipamentos já não suportam essas novas cargas”, afirmou.
No Brasil, a Cisco mantém forte presença em clientes corporativos e governo, e afirma que cerca de 90% das grandes organizações no país utilizam tecnologias da empresa, incluindo parcela relevante da infraestrutura de data centers.
Cadeia de suprimentos e gargalos
A forte demanda também está pressionando a cadeia de suprimentos, especialmente componentes críticos como memória.
Segundo Albuquerque, a situação não é nova, tendo sido já vivida de alguma forma na pandemia, mas segue desafiadora e sem previsão de acomodação no curto prazo.
A escassez impacta prazos e aumenta a volatilidade de preços, com propostas comerciais tendo validade mais curta devido às incertezas.
“A demanda pelos componentes é maior do que a capacidade de entrega. Trabalhamos projeto a projeto com os clientes para priorizar entregas”, afirmou, ao ser questionado por BNamericas.
No segmento de conectividade, a empresa observa expansão de provedores regionais e maior relevância de redes de backbone. Recentemente, novas empresas têm se lançado no mercado regional vendo oportunidade para oferecer conectividade via fibra para e entre data centers.
A Cisco tem forte atuação na camada de backbone IP e identifica uma tendência de integração entre redes ópticas e IP, além do uso crescente de inteligência artificial para gestão de tráfego e segmentação de redes.
“Há uma evolução na arquitetura, com colapso entre camadas óptica e IP e uso de IA na gestão”, disse Mucci.
Regulação e oportunidade no Brasil
Os executivos também destacaram o potencial do Brasil como pólo de data centers na América Latina, impulsionado por sua posição geográfica, energia renovável, mercado consumidor e demanda crescente.
Segundo Mucci, a Cisco vê com bons olhos o ReData, programa que busca estimular investimentos por meio de incentivos fiscais para infraestrutura de data centers e equipamentos, mas em equilíbrio com a indústria local.
“Somos superfavoráveis ao modelo do ReData”, afirmou.
A empresa participou das discussões por meio da Abinee (Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica), defendendo “ajustes” para equilibrar a competitividade entre produtos importados isentos e aqueles manufaturados no Brasil.
Entre os pontos incorporados ao debate, está a extensão de benefícios fiscais também para equipamentos produzidos localmente, além de maior clareza sobre critérios como “eequipamentos sem similar nacional”.
“Foi incluída a possibilidade de benefícios também para produtos fabricados no Brasil, o que equilibra o modelo”, disse Mucci.
A Cisco possui produção local em Sorocaba (São Paulo), em uma fábrica responsável por parte relevante dos equipamentos vendidos no mercado brasileiro.
“Nós somos o único fabricante de redes robustas no Brasill e 55% do que a gente vende no país é fabricado localmente.”
Segundo os executivos, os ajustes feitos tornaram o ReData mais aderente à realidade da indústria e aumentam sua capacidade de atrair investimentos.
Apesar disso, o programa ainda não foi votado no senado e alguns projetos de grande escala, especialmente de operadores de data centers para IA, ainda aguardam definições regulatórias e fiscais para avançar, admitiram os executivos.
Ainda assim, a demanda segue elevada.
“A demanda está muito forte e não vai esperar indefinidamente por incentivos”, afirmou Albuquerque.
IA e mudança organizacional
Por fim, a adoção de inteligência artificial também está transformando a própria governança das empresas.
Segundo os executivos, o tema passou a estar na agenda dos próprios CEOs, com criação de novas funções executivas dedicadas à tecnologia.
“O CEO hoje tem inteligência artificial como prioridade número um”, disse Mucci.
