Celular barato acabou: preço médio sobe 27,6% e a alta é permanente
O preço dos celulares subiu 27,6% em um ano, e a IDC parou de chamar isso de fase passageira. A consultoria projeta que o aparelho médio vendido no mundo em 2026 saia por US$ 581, algo como R$ 2.990 em conversão direta pelo dólar de hoje.
A revisão publicada nesta quarta (26) piorou tudo que a própria consultoria projetava em fevereiro. Os embarques globais caem 16,7% em 2026, para pouco mais de 1 bilhão de unidades. É a maior contração anual já registrada no setor.
Em fevereiro, a queda prevista era de 12,9%, com preço médio de US$ 523. Um trimestre atrás, 13,9% e US$ 550. Três números piores em seis meses. O valor total do mercado, mesmo assim, cresce 6,3% e chega a US$ 613 bilhões.

A memória explica quase tudo. Custos de NAND e DRAM subiram mais de 300% em doze meses, e a escassez iniciada no fim de 2025 bate mais forte agora: no segundo semestre, os embarques recuam 27,2% na comparação anual.

A avalanche de memória que a gente vinha avisando chegou inteira, e o consumidor começou a pagar a conta da IA. Os mesmos componentes que fazem a IA funcionar estão em falta.
Francisco Jeronimo, vice-presidente de worldwide client devices da IDC
Os celulares abaixo de US$ 100 estão saindo de linha
Foram 173 milhões de aparelhos nessa faixa em 2025. No segundo trimestre de 2026, o segmento encolheu quase 60% ante o mesmo período do ano passado, e a IDC espera queda ainda mais rápida no segundo semestre.
Marcas Android que viviam da entrada já operavam com margem mínima. Agora cortam modelos e empurram o portfólio para cima. Quem depende de aparelho barato perde a opção antes de perder o preço.

No Brasil, o menor volume desde 2012
A IDC projeta 31,6 milhões de smartphones vendidos no país em 2026, patamar mais baixo desde 2012, segundo levantamento publicado pelo
A Abinee calculou repasse de pelo menos 20% em computadores e celulares no varejo brasileiro até o fim de 2025, em levantamento reproduzido pela Oficina da Net. Hoje a memória responde por 15% a 20% do custo total de um aparelho.
A IDC atribui a resistência do topo de linha ao financiamento longo e sem juros comum nos Estados Unidos e no Reino Unido. Aqui o parcelamento no cartão cumpre papel parecido, e o dólar a R$ 5,15 pesa antes mesmo de o aparelho chegar à prateleira.

Dobráveis crescem, e a Apple é a razão
A categoria sobe 12,6% em 2026, para 22,9 milhões de unidades, e acelera para cerca de 27 milhões em 2027. Sem a estreia da Apple no segmento, a IDC calcula que os dobráveis teriam caído em ritmo de dois dígitos.
A projeção da consultoria coloca a Apple em mais de 17 milhões de dobráveis embarcados até 2027, perto de 40% do mercado global. Com preço médio acima de US$ 2.550, cerca de R$ 13.100 no câmbio atual, isso vira US$ 45,7 bilhões e mais da metade do valor da categoria.

A Apple não só reacendeu o crescimento de uma categoria que perdia fôlego. Ela mudou a trajetória do mercado e agora disputa liderança onde Huawei e Samsung sempre mandaram.
Nabila Popal, diretora sênior de pesquisa da IDC
Quem comprar em 2027 vai pagar mais que hoje
A IDC não vê estabilização da oferta de memória antes de 2028. Mesmo depois disso, a projeção é de recuo de apenas 1% a 2% ao ano no preço médio. Nesse ritmo, o patamar de 2025 não volta nesta década.
O que sobra do outro lado, segundo a própria consultoria, é um mercado menor em unidades, maior em valor e mais concentrado no topo. Apple, Samsung e Huawei têm escala para atravessar os próximos 18 meses. Marcas médias de Android ancoradas na entrada, não.
O celular de US$ 100 não ficou mais caro. Ele sumiu do catálogo.
