Casa dos Ventos se prepara para disputar posto de maior empresa de energia eólica e solar do País
Com a entrega de novas usinas no Piauí, no Ceará e em Mato Grosso do Sul, a Casa dos Ventos se encaminha para disputar com a multinacional italiana Enel o título de maior empresa de energia eólica e solar do Brasil. Hoje, a companhia nacional tem em operação projetos que somam 3,3 GW em capacidade instalada (cerca de 1,5% do total do Brasil). Até o fim de 2027, esse número deve quase duplicar, alcançando 6,4 GW, de acordo com a empresa. Até lá, a Enel deve passar dos atuais 5,4 GW para 6,5 GW.
Em um momento adverso para o setor – em que novos projetos ficaram praticamente paralisados em decorrência de um período de fraca demanda entre 2022 e 2024, seguido pela crise do “curtailment” –, a Casa dos Ventos continuou trabalhando para estimular a demanda por energia. A estratégia rendeu novos contratos.
No ano passado, por exemplo, a empresa anunciou a instalação de um parque eólico no Piauí com capacidade instalada de 828 MW e previsão de entrega para setembro de 2027. Sozinho, esse projeto representa 25% da capacidade da Casa dos Ventos hoje.
Também em 2025, a companhia fechou parceria para fornecer energia para empresas em Mato Grosso do Sul. Serão instalados três parques solares no Estado que somam mais 1,5 GW, ou 45% do que a Casa dos Ventos tem hoje, e que passarão a operar entre este e o próximo ano.
Contratos como os assinados em Mato Grosso do Sul foram um dos principais modos que a companhia encontrou para gerar demanda em um momento difícil para usinas de energia renovável. O setor passa por uma crise iniciada em 2022 e que começou a dar os primeiros sinais de alívio no ano passado.
O declínio da indústria eólica ocorreu em decorrência da crise brasileira da década anterior. Com a economia do País andando praticamente de lado entre 2014 e 2020, houve uma queda na demanda por energia que se arrastou por anos e reduziu o número de novos contratos de fornecimento.
“Quando se fala em novos contratos de energia no Brasil, fala-se em contratos de energia eólica e solar. Não tem outra fonte em expansão no País hoje. Por isso, a crise de novos contratos é uma crise no setor eólico e solar”, diz Elbia Gannoum, presidente da Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica). A executiva destaca que o fundo do poço do setor foi 2024. No ano passado, apareceram os primeiros indícios – ainda que suaves – de uma recuperação.
Nesse cenário delicado, os contratos de autoprodução – nos quais a usina, eólica ou solar, é construída para fornecer energia para uma determinada empresa – tornaram-se uma das poucas fontes de nova demanda para a Casa dos Ventos. “Conseguimos uma participação no mercado acima da média para autoprodução, com parcerias importantes, como a com a ArcelorMittal”, diz o CEO da Casa dos Ventos, Lucas Araripe. “Aumentamos nossa capacidade comercial e, no ano passado, tivemos recorde de venda de energia de autoprodução.”
Com a ArcelorMittal, a Casa dos Ventos construiu e passou a operar um parque eólico e um solar na Bahia – juntos, eles somam 753 MW. No empreendimento de R$ 4,9 bilhões, a Casa dos Ventos fornece parte da energia gerada ali para a produtora de aço.
Araripe afirma também que, além de encontrar oportunidades fora do mercado tradicional de energia, a empresa conseguiu continuar avançando durante a crise do setor por atuar com projetos de grande porte. Isso lhe permitiu, por exemplo, negociar melhores preços de equipamentos, aumentando a competitividade da Casa dos Ventos. O fato de a francesa TotalEnergies – um dos maiores grupos de energia do mundo – ser sócia da companhia, com 34% de participação, também ajudou a empresa a ter um custo de capital mais barato.
Outro fator que tem favorecido a companhia é o fato de a crise do “curtailment” ter atingido menos localidades em que estão instalados parques da Casa dos Ventos. O “curtailment” é a limitação de inserção de energia na rede. Na prática, o Operador Nacional do Sistema (ONS) determina cortes na geração, principalmente eólica e solar, quando a demanda por energia é menor do que a oferta. Essas interrupções na produção se tornaram mais comuns nos últimos três anos em decorrência do aumento da geração distribuída (produzida pelos consumidores com painéis solares instalados no telhado das residências e estabelecimentos comerciais).
“Temos sido impactados pelo ‘curtailment’, mas menos do que a média”, diz Araripe. O executivo afirma ainda que, diante do problema, a empresa tem exigido um retorno maior para participar de novos projetos.
