Avanço do 5G no Brasil depende de parceria entre setores público e privado
Atualmente com mais de 20 milhões de usuários no Brasil, a tecnologia 5G ainda tem um bom caminho a percorrer até sua universalização no país. Mas passos importantes vêm sendo dados nessa direção. Com dois anos de operação, o 5G já está em mais de 490 cidades, indo além das metas fixadas no edital. No último dia 27 de maio, mais um passo no avanço da nova tecnologia: a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) liberou o licenciamento e ativação da quinta geração das redes móveis em mais 236 municípios brasileiros para as operadoras que adquiriram lotes na faixa de 3,5 GHz. Com isso, 4.134 cidades já estão autorizadas a receber o 5G.
“Esse é o lado social. Ao mesmo tempo, temos que atuar com políticas públicas em parceria com a iniciativa privada para expandir as redes no setor produtivo. Vamos avançar nos próximos anos. Vamos antecipar, no que for possível, o cronograma de expansão”, disse o ministro de Estado das Comunicações, Juscelino Filho, em fala de abertura do seminário “Os Avanços e Desafios do 5G”. Promovido pela Editora Globo, em parceria com a Conexis Brasil Digital, Huawei, Brisanet e Surf, o evento reuniu executivos das principais empresas e instituições do setor.
O ministro destacou a relevância do 5G nos diversos segmentos econômicos e sociais. Na indústria, abre portas para novas oportunidades, oferecendo conectividade de alta velocidade e baixa latência; na agroindústria, permite ganhos na produtividade, com redução de desperdício na irrigação e precisão no plantio e na colheita; e para a sociedade, possibilita melhor atendimento em saúde e educação.
Dê o play para conferir a íntegra do evento:
Boas perspectivas
Tais efeitos levaram o governo a prever investimentos de cerca de R$ 28 bilhões, no novo PAC, em políticas de inclusão digital e conectividade, com foco na expansão da rede 5G nos 5.570 municípios brasileiros. Boa parte disso com recursos do leilão 5G, de caráter não arrecadatório, e do Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações (Fust), que passou a ser gerido, recentemente, pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
“Conseguimos assinar os primeiros contratos e vamos avançar para ajudar a expandir a rede”, disse Juscelino Filho, tendo ao lado o presidente-executivo da Conexis, Marcos Ferrari, e o gerente de monitoramento e controle de projetos da Diretoria de Tecnologia e Inovação da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Rodrigo Pastl.
As primeiras operações do Fust no ano passado, depois de 23 anos de sua criação, foram comemoradas por Marcos Ferrari. “Várias pessoas sem acesso à internet hoje passarão a ter mediante uso dos recursos do Fust”, disse, para quem entre os grandes ganhos do 5G está a conectividade produtiva, primordial para obtenção de ganhos marginais de inovação.
“Estamos trabalhando para oferecer a conectividade, mas cada R$ 1 que investimos tem que propiciar investimentos maiores aos setores da economia que usarão o 5G”, disse o presidente-executivo da Conexis, entidade que reúne as principais empresas de telecomunicações e de conectividade.
Desafios da expansão
Apesar dos ganhos visíveis da expansão da rede, há, segundo Ferrari, limites a serem superados, como as dificuldades de monetização do 5G. O setor investe anualmente de R$ 35 bilhões a R$ 40 bilhões, por ser intensivo em tecnologia, e tem, por meio do 5G, potencial de ampliar a participação da indústria no PIB nacional ao permitir um salto de produtividade no setor. Diante disso, defendeu a desoneração do que chamou de “indústria do futuro”, aquela que tornará possível um aumento de produtividade.
A indústria 4.0 pode se beneficiar da expansão da rede, segundo Rodrigo Pastl, com uma série de mudanças, possíveis a partir do gerenciamento de volume gigantesco de dados. Por exemplo, a manutenção preventiva para identificar possíveis falhas e reduzir interrupções e uma maior conexão entre máquinas e equipamentos. “Estamos vendo como adensar as cadeias, para que não seja só aplicação, mas desenvolvimento interno, no Brasil”, disse.
Outro ponto destacado por Ferrari para que a nova tecnologia avance ainda mais é a reforma tributária. Para o executivo, é preciso que a regulamentação da reforma garanta uma tributação menor para o telecom. Hoje o setor tem a terceira maior carga tributária entre os 15 países com maior número de celulares. “Precisamos revisitar a tributação do setor para garantir que a conectividade chegue a todos, incluindo a população mais pobre. Hoje, inclusão digital é sinônimo de inclusão social”, afirmou.
Redes privativas
O debate sobre as redes privadas de telecomunicações reuniu o secretário de Telecomunicações do Ministério das Comunicações, Hermano Barros Tercius; o vice-presidente de Relações Públicas para a América Latina e Caribe da Huawei, Atilio Rulli; e o superintendente de Outorga e Recursos à Prestação da Anatel, Vinicius Caram.
A área, grande aposta da indústria de telecomunicações para o 5G, enfrenta desafios para a expansão. “Em 2023, o Brasil construiu 100 redes privadas, o que é pouco perto do potencial que temos”, disse Rulli.
Hermano Tercius observou que o modelo regulatório brasileiro de incentivar a competição fez com que o Brasil contabilizasse, hoje, mais de 20 mil pequenos prestadores de serviços de banda larga fixa. “Ainda temos gaps importantes, principalmente em áreas mais distantes”, disse, citando programas de governo criados para mitigar o problema.
Encerrando os debates, Vinicius Caram defendeu o aumento dos investimentos em transformação digital, que caíram de 20% do PIB nos anos 1990 para menos de 10%. “Sem isso, o país não cresce”, disse.
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Operadoras e indústria detalham projetos com 5G
Os avanços da quinta geração das redes móveis já resultam em experiências bem-sucedidas nas parcerias entre operadoras e setor produtivo. Algumas delas foram apresentadas no seminário “Os Avanços e Desafios do 5G”.
Tiago Machado, diretor de relações institucionais da Vivo, detalhou dois projetos exitosos da operadora com a Vale: um que leva conectividade para minas abertas, e outro que garante cobertura para as ferrovias da mineradora possibilitando o controle da logística de todo o processo. No caso das minas, as redes móveis viabilizaram processos que vão desde o controle de inventário até sofisticadas operações com veículos remotos. “O ganho de produtividade é astronômico”, comentou.
Já o diretor de desenvolvimento de mercado IoT & 5G da TIM, Alexandre Dal Forno, destacou a parceria em serviço oferecido à Stellantis. Usando o 5G privado, a operadora criou solução para aumentar a precisão e a velocidade da adesivagem dos diversos modelos de carros da marca. “Comparamos a adesivação com o banco de dados da Stellantis, utilizando câmera de alta resolução. Eles reduziram demais o tempo de controle de qualidade no final da linha de produção”, contou.
A parceria entre a Claro e a Gerdau na fábrica de Ouro Branco (MG), iniciada há dois anos, também gerou bons resultados. “O objetivo era tornar a usina a mais automatizada e autônoma da indústria de aço”, disse Marcelo Miguel, diretor executivo de negócios e marketing da Claro. A operadora instalou cinco torres 5G na usina, possibilitando o monitoramento em tempo real, o que aumentou a precisão na identificação de impurezas na matéria-prima.
