Após atrasos, Angra 3 só deve operar em 2030
A previsão inicial da Eletronuclear para que a usina nuclear Angra 3 começasse a produzir energia elétrica entre 2027 e 2028 não é mais considerada factível pela própria empresa. Os prazos para licitações e assinaturas de contratos, entre outras etapas administrativas, e a própria execução da obra, fariam com que a central só entrasse em operação no fim de 2030 ou na primeira metade de 2031.
Para que as obras prossigam, porém, Angra 3 vai exigir aportes de R$ 23 bilhões e de que responder a questionamentos do Tribunal de Contas da União (TCU), que ainda vê riscos de novos adiamentos.
A conclusão das obras entre 2030 e 2031 também considera uma possível decisão do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) ainda este ano. O CNPE espera apenas o envio, pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), de outros estudos técnicos da usina. A EPE disse prever a liberação dos estudos até o fim deste mês.
O TCU verificou risco de novos atrasos no cronograma das obras da usina devido a problemas contratuais encontrados pelo tribunal, segundo um relatório público de fiscalização. O relator do processo no TCU, ministro Jhonatan de Jesus, destacou no documento o atraso de três anos na contratação da construtora que será responsável por executar todas as etapas da implantação da central nuclear. Procurado, o TCU disse que todas as informações sobre o tema constam do relatório.
Entre os questionamentos, está o contrato para fornecimento de nove trocadores de calor, firmado com a Nuclebrás Equipamentos Pesados (Nuclep). O equipamento é utilizado para aquecimento e refrigeração de sistemas da usina. Procurada, a Nuclep não respondeu até o fechamento desta edição.
Segundo o relatório, há atraso de nove meses na produção nos trocadores de calor, que podem resultar em postergações adicionais na conclusão de Angra 3 caso o CNPE decida pela retomada da obra. “Embora tenha ficado comprovado que o atraso atual não afeta diretamente o cronograma das atividades necessárias para que a usina comece a operar, há risco de que novos atrasos atrapalhem a finalização do projeto”, observa o TCU no documento.
Com 1.405 megawatts (MW) de potência, Angra 3 começou a construção em 1981, mas as obras foram paralisadas em 1984 e retomadas em 2010. Porém, em 2015, quando a usina havia ultrapassado dois terços de implantação, as obras foram novamente paralisadas como resultado das investigações da Lava Jato, que apontaram casos de corrupção na Eletronuclear. Em 2019, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) foi contratado para fazer estudos sobre a viabilidade da usina, concluídos e apresentados em setembro ao governo.
A decisão de seguir com as obras demandará R$ 23 bilhões em investimentos, ao passo que serão necessários R$ 21 bilhões caso se opte por abandonar o projeto, indicou o BNDES. Dos R$ 23 bilhões, parte teria origem em financiamentos já contratados, e que serão desembolsados nos próximos anos.
O presidente da Eletronuclear, Raul Lycurgo, disse que é urgente uma decisão sobre o tema, diante do ônus que o impasse causa ao país. Se a decisão do CNPE sair este ano e for pela continuidade do projeto, afirma, a licitação da empresa responsável por continuar com as obras civis e a montagem eletromecânica ocorreria até junho de 2025 e a assinatura de contratos, na segunda metade do ano que vem. A retomada da construção ficaria para o fim de 2025 ou início de 2026. As obras durariam cinco anos. “A data [de 2027 e 2028] não existe mais.”
O presidente da Eletronuclear afirmou que, dos R$ 21 bilhões estimados pelo BNDES para não concluir a obra, cerca de R$ 9 bilhões estão associados a financiamentos já contratados, com o próprio banco de fomento e com a Caixa, em condições especiais por ser um projeto prioritário para a infraestrutura. Há ainda a necessidade de devolver R$ 1,5 bilhão em incentivos fiscais obtidos na importação de equipamentos para a usina, além de aportes de capital pelo Tesouro e pela Eletrobras, como acionistas, para cobrir os custos da desistência.
O executivo ressaltou também que a Eletronuclear gastou R$ 12 bilhões entre 2009 e 2023 com a guarda dos cerca de 12 mil equipamentos comprados para a usina. Parte dos equipamentos está armazenada em Angra dos Reis e outra nas instalações da Nuclep, também no Estado do Rio. “Não fazer [a usina] significa rasgar esses R$ 12 bilhões.”
Além disso, o preço da energia, da ordem de R$ 660 por megawatt-hora (MWh), é inferior ao custo de combustíveis de térmicas que estão sendo acionadas para preservar armazenamento dos reservatórios, algumas com preços superiores a R$ 1.000/MWh, afirmou. Angra 1 e Angra 2, acrescentou, têm tarifa de geração de R$ 355/MWh. “Se Angra 3 tivesse sido feita junto com Angra 2, o custo dela também seria de R$ 355/MWh”, conclui.
