APLs resistem com criatividade em meio à escassez de recursos
Com verbas públicas cada vez mais escassas, os Arranjos Produtivos Locais (APLs) do Rio Grande do Sul enfrentam desafios para manter suas atividades, apesar de sua importância para o desenvolvimento regional. Criados formalmente a partir dos anos 1990, os APLs tiveram avanços institucionais por meio de leis e decretos estaduais, mas sofrem com a redução dos recursos e o impacto da pandemia, que levou à paralisação de vários projetos. Casos como o APL da Agroindústria do Vale do Rio Pardo, o Metal Mecânico Pós-Colheita da Região Noroeste e o Eletrônico da Região Metropolitana ilustram a dificuldade de manter a sustentabilidade sem financiamento público. Ainda assim, lideranças locais destacam os ganhos obtidos e defendem a retomada com apoio coletivo e articulação entre entidades, empresas e o Estado.
APL de Alimentos e Bebidas do Vale do Taquari é um dos mais recentes e representa segmento com mais de 1,2 mil indústrias em 36 municípios da região
A evolução institucional de apoio a Arranjos Produtivos Locais (APLs ) no Rio Grande do Sul remonta aos anos 1990, antecipando-se inclusive à ação dirigida em nível federal. Em 1999, a então Secretaria do Desenvolvimento e dos Assuntos Internacionais criou o programa de apoio aos Sistemas Locais de Produção, base da política voltada aos APLs no Estado. Mas, somente em 2011, foi definido um regramento mais específico com a aprovação da Lei nº 13.839, instituindo a Política Estadual de Fomento à Economia da Cooperação, dando origem ao Programa Estadual de Fortalecimento das Cadeias e Arranjos Produtivos Locais.
O ano de 2012 foi marcante para o fortalecimento do programa. O Decreto 48.936 instituiu uma nova organização para os APLs. Entre outras definições, passou a responsabilidade de reconhecimento e enquadramento de novos APLs para o Núcleo Estadual de Ações Transversais. Outro decreto fixou a delimitação dos organismos com base nas municipalidades, a partir dos Coredes, e a Classificação Nacional de Atividades Econômicas para orientar a definição das empresas passíveis de enquadramento. No mesmo ano ocorreu o lançamento do primeiro edital de seleção de projetos encaminhados pelos arranjos.
O governo sempre estimulou que os organismos buscassem a autossustentabilidade, apresentando projetos coletivos com capacidade para aumentar a competitividade das empresas. Os APLs precisam dar como contrapartida a governança, realizando ações para conseguirem se manter sem recursos públicos. Ao longo dos anos, os diferentes governos gaúchos vêm apoiando diversas aglomerações produtivas. No entanto, o apoio não foi linear, principalmente quanto à destinação de recursos via editais, que foram sendo reduzidos, motivo de argumentação para a suspensão das atividades por alguns APLs. Outro fator determinante para a descontinuidade dos projetos foi a pandemia da Covid-19.
Nessa condição está o APL da Agroindústria e Produção de Alimentos da Agricultura Familiar do Vale do Rio Pardo. Adair Pozebom, que atuou junto ao arranjo, recorda o enfraquecimento gradual ao longo dos anos e a desarticulação total com a pandemia. A Universidade de Santa Cruz foi a última entidade gestora e, no site do governo, está a indicação da Escola Agrícola Santa Cruz como provável futura gestora.
Pozebom, que é membro da escola, frisa que o programa foi importante e garantiu conquistas relevantes para o setor. Entre elas, um levantamento do potencial de industrialização e das demandas da atividade, a visibilidade por meio da participação em feiras e eventos, como na Oktoberfest e Expoagro Afubra, e o desenvolvimento de um app para conectar produtor e consumidor. “Acredito que é fundamental a retomada do APL, mas a coletividade, em conjunto com o poder público, precisa se mobilizar”, afirma. Estima em torno de 180 o número de agroindústrias nos 23 municípios da região.
Situação semelhante ocorre com o APL Metal Mecânico Pós-Colheita, na Região Noroeste Colonial, tendo por base principal os municípios de Panambi e Condor. A entidade gestora é a Associação Centro de Inovação Tecnológica (Acitec), criada para garantir acesso a recursos públicos.
De acordo com Eduardo Sperb, diretor-executivo da Associação Comercial e Industrial de Panambi, o APL teve atuação contínua e efetiva até a pandemia, resultando em importantes avanços e benefícios. Entre as iniciativas destacam-se missões para feiras no exterior, como Hannover, na Alemanha, e visitas a Estados para conhecer outras realidades agrícolas. Foram organizadas oito edições do Tecnopós, evento dividido em rodadas de negócios, mostra tecnológica da indústria pós-colheita e seminários. Cursos de capacitação e um diagnóstico para apurar as potencialidades e desafios do setor também fizeram parte das atividades. “Estamos buscando formas de viabilizar a retomada do APL”, garantiu.
Tendo como gestora a Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), Regional Rio Grande do Sul, o APL Eletrônico Automação e Controle está inativo desde a redução de verbas aportadas pelo Estado, situação agravada durante a pandemia da Covid-19. Conforme o gestor do projeto, Antônio Costa Sobrinho, o organismo precisou abrir mão dos trabalhos de um consultor que atuava junto às empresas do setor. “O APL, como os demais, teve um ótimo posicionamento inicial, mas foi minguando pela falta de recursos públicos e apoio institucional”, argumenta.
O gestor salienta que a entidade mantém contatos com a Secretaria do Desenvolvimento Econômico visando criar condições para uma retomada mais concreta. “A Sedec sugeriu que a Abinee investisse valores para a manutenção do consultor, algo que não temos como assumir”, afirma.
Sobrinho recorda que o APL recebeu valores em 2008 para investir em um site de vendas, que se manteve até a pandemia, quando foi descontinuado. “Era um projeto de risco, que não avançou como se pretendia por problemas comerciais”, frisa. A plataforma digital Eletron Place, inédita no Estado, tinha o objetivo de aproximar demandantes e ofertantes, fomentando a geração de negócios e ampliando os horizontes das empresas participantes. O e-business era um ambiente para comercialização de produtos e equipamentos eletroeletrônicos para uso industrial e residencial.
O executivo frisa que o segmento é representativo no Estado, com empresas de diferentes portes e presença forte nas regiões de Porto Alegre e Caxias do Sul. Em torno de 100 empresas e 19 entidades participavam do APL, que agrega 10 municípios da Região Metropolitana do Delta do Jacuí, onde há grande concentração de universidades, centros de pesquisa, institutos de formação profissional e laboratórios.
Governo avalia mudanças no programa
No edital de 2024, foram repassados em torno de R$ 200 mil, divididos igualitariamente entre os APLs Trino Polo e Metalmecânico
Por meio de nota enviada pela assessoria de comunicação, o diretor-geral da Secretaria do Desenvolvimento Econômico (Sedec), Roger Pozzi, informa que, a partir da apresentação do Plano de Desenvolvimento Econômico, Inclusivo e Sustentável do Estado, alguns programas estão sendo reformulados internamente na pasta, entre eles, os APL’s.
“O texto está sendo atualizado e adaptado às diretrizes do plano, com mudanças que serão oficializadas por meio de decreto. As alterações visam desburocratizar o processo e criar facilidades para a formação de reconhecimento desse modelo de trabalho, que tem a proposta de ser autogerenciável com auxílio do Estado”, ressalta.
Frisa que os APL’s nascem de uma associação de empresas com atividades afins para melhorar a produtividade, representando uma estratégia cooperativa de desenvolvimento econômico local. “O Estado não tem responsabilidade pelo funcionamento dos APL’s, mas criou esse modelo que é uma política pública para estimular a auto-organização produtiva e o desenvolvimento territorial desses grupos”, reforça.
Também salienta que são estruturas formadas por empresas e instituições que precisam existir de forma independente.
Na sua avaliação, a paralisação de alguns APL’s decorre da falta de autogerenciamento. “Estão se movimentando somente quando há recurso público estadual, disponibilizado por meio de editais, para ter avanços. O Estado já apoia esses grupos, destinando verbas para implementação do projeto, mas o APL precisa ser autônomo na sua gestão e desempenho”, acrescenta.
No edital de 2024, foram repassados em torno de R$ 200 mil, divididos igualitariamente entre os APL’s Trino Polo e Metalmecânico, ambos com sede em Caxias do Sul. Para este ano, o governo destinou o montante de R$ 467.263. O repasse ocorrerá por meio de três termos de colaboração, no valor máximo de R$ 155.754,33 cada um, a serem assinados com as organizações vencedoras.
Confira como estão os APLs
Estruturação do Trino Polo começou há mais de 20 anos
Evento Bom Dia TI é realizado mensalmente há mais de 15 anos
A estruturação do APL Tecnologia da Informação da Serra Gaúcha iniciou em meados de 2002 a partir do movimento de 25 empresas do setor de informática, prefeitura, governo estadual, entidades e associações empresariais e instituições de ensino e pesquisa de Caxias do Sul. Uma das primeiras medidas foi a criação da Associação das Empresas do Polo de Informática, com a adesão de 59 empresas, além de outras representações públicas e privadas.
Maletz cita a liderança da entidade no setor em número de associados
Em 2006, foi constituída a Associação Polo de Informática de Caxias do Sul como instituição civil, sem fins lucrativos, reunindo apenas as entidades que compõem a governança do APL, que ganhou a denominação de Trino Polo. Atualmente, são 10 entidades e 105 empresas contribuintes. “É a entidade de empresas de tecnologia da informação com o maior número de associados do Rio Grande do Sul”, destaca Edison Maletz, gerente executivo. O APL também agregou associados da Infobento, que era uma entidade do setor com base em Bento Gonçalves.
O executivo recorda que o movimento nasceu de forma natural, com forte apoio da Prefeitura de Caxias do Sul. Desde a constituição, o APL tem sustentabilidade financeira própria a partir das mensalidades dos associados e se habilita em editais do governo para outros projetos. “Com certeza, faríamos mais se o Estado aportasse valores maiores no programa”, enfatiza.
Com os recursos liberados pelo governo via editais, média de R$ 100 mil por entidade contemplada nos últimos anos, o Trino Polo prioriza cursos de capacitação online em áreas mais avançadas para a gestão das empresas, contratação de consultorias e mentorias com especialistas. “Pelo baixo valor liberado, os eventos presenciais tornaram-se inviáveis pelos custos de viagem e hospedagem dos palestrantes”, argumenta Maletz.
Outra iniciativa do APL é o café da manhã mensal, denominado Bom Dia TI e realizado há 15 anos, com foco em palestras de conteúdos relevantes para os associados. Há, também, cursos e treinamentos em espaços cedidos pelas instituições de ensino parceiras. “Em um ano chegamos a oferecer 10 treinamentos de formação técnica para colaboradores em áreas de gestão, rede, segurança e programação”, recorda. Em 2024 foi firmada parceria com a Rockeseat, especializada em trilha de aprendizagem para TI, garantindo descontos aos associados. Os encontros têm periodicidade semestral, com a participação de 30 a 40 pessoas. Empresas não associadas podem participar de todas as atividades, mas com valores mais elevados.
Entre as principais preocupações estão os desdobramentos da reforma tributária, que deverá trazer forte oneração fiscal para o setor, colocando-o no topo dos contribuintes. Também preocupa a carência de mão de obra. Para sanar este problema, está em desenvolvimento um projeto com recursos do Estado para apresentar nas escolas palestras sobre tecnologia da informação e oferecer cursos de introdução à atividade.
Na busca por atrair mulheres, que têm baixa presença no setor, o Trino Polo criou, em parceria com o Senac, o projeto Elas na TI. São 210 horas de capacitação exclusiva para as mulheres. As 12 participantes da primeira turma receberam diplomas em janeiro deste ano.
Já o movimento Trino Mulher visa ao fortalecimento do protagonismo feminino no setor. “Buscamos integrar, capacitar e dar visibilidade às mulheres que atuam ou desejam ingressar no setor de TI, promovendo um ambiente mais inclusivo e ampliando as oportunidades para profissionais femininas na área”, afirma o executivo. Também está no radar do APL atrair gestores de TI de empresas de outros segmentos produtivos. “São consumidores de serviços que provemos e queremos entender as duas dores, visando maior integração”, ressalta.
APL Basalto busca a valorização e preservação de atividade centenária
Extração da pedra basáltica ocorre em 12 municípios da Serra Gaúcha
Um dos mais recentes APLs reconhecidos pelo governo do Estado, em 2023, reúne empresas que atuam na extração e no beneficiamento de basalto na Região da Serra. São 17 municípios envolvidos, mas somente 12 ainda têm o segmento ativo: Antônio Prado, Casca, Fagundes Varela, Guabijú, Ipê, Nova Bassano, Nova Prata (polo do APL), Paraí (maior produtor), Santo Antônio do Palma, São Domingos do Sul, Veranópolis e Vila Flores.
Camila Turmina, coordenadora do APL, bióloga e responsável técnica do Sindicato da Indústria de Extração de Pedreiras de Nova Prata e Região, destaca que a atividade iniciou com a chegada de imigrantes europeus. A maioria vinda do Norte da Itália identificou na região relevos semelhantes aos que já conheciam e começaram a desenvolver a produção, inicialmente, para a construção de estruturas para o abrigo de animais, estendendo depois para moradias. “A atividade foi sendo repassada às gerações seguintes”, salienta.
Camila cita como entraves a falta de mão de obra e de infraestrutura
Em 1980, tiveram início os registros de minerários e a criação do sindicato dos proprietários de pedreiras da região. Até o ano 2000, a atividade foi o motor econômico da região, tanto que Nova Prata conquistou, e ainda detém, o título de Capital Nacional do Basalto. Em 2010, começou a migração mais intensa da extração para municípios vizinhos, concentrando a maior produção em Paraí. Nova Prata tem a segunda posição, mas o maior número de empresas.
De acordo com Camila, o APL vinha sendo trabalhado há décadas, mas esbarrava na legislação que exigia um CNPJ para o funcionamento. Com a mudança na lei, o APL pôde ser vinculado a uma entidade, dando início à materialização por meio do sindicato. “O APL incentiva micro e pequenas empresas a desenvolver seu mercado, permitindo também que jovens permaneçam na zona rural em torno dessa produção”, ressalta.
Serra busca preservar tradição centenária no setor; são estimados 5 mil empregos diretos na atividade
A coordenadora destaca que desde a década de 80, o setor passou por vários avanços significativos, como o retorno aos municípios de 75% do imposto arrecadado pela atividade para aplicação em melhorias na exploração mineral, como meio ambiente, infraestrutura de escoamento e educação. “Infelizmente, o recurso vai para o caixa único dos municípios, que não o aplicam de forma correta. Os acessos que eram ruins, pioraram com as enchentes e estão inviáveis. Estamos tratando desta questão junto aos prefeitos”, alerta.
Outros entraves para a maior expansão da atividade são o fechamento de cavas por falta de mão de obra e a sucessão familiar. Com o fechamento, no entanto, tem início um longo trabalho de recuperação ambiental junto a mananciais de água e plantio de árvores.
A estimativa é que o Rio Grande do Sul possua cerca de 200 pedreiras de basalto. Na região do APL em torno de 150 empresas extraem e beneficiam o material e, dessas, 131 integram o organismo. São estimados 5 mil empregos diretos na atividade. Camila assinala que 90% são empresas familiares, localizadas em zona rural, e parte relevante tem a atividade como complemento de renda e emprega funcionários com mais de 50 anos, muito aposentados, que têm dificuldade de encontrar emprego em outras áreas.
Após a extração, o material segue para beneficiamento, que envolve corte e polimento, gerando novos itens. Estes materiais são direcionados, na maioria, para a construção civil, com destaque para as regiões de Porto Alegre, Caxias e Santa Maria, além de cidades no Paraná e Rio de Janeiro. “O basalto se ajusta a vários outros produtos, concorrendo com o porcelanato, com a vantagem da resistência, durabilidade e design natural. Deixou de ser aquela pedra de rua e entrou para o interior das casas”, explica.
De acordo com Camila, o APL, juntamente com o sindicato, tem trabalhado fortemente na legalização da extração e beneficiamento por meio de programas ambientais com suporte de especialistas. Outra preocupação é produzir estudos de reserva mineral e de mercado, além de oferecer cursos de capacitação. “Não é atividade fácil, mas tem boa renda econômica”, frisa. O organismo se mantém com as mensalidades dos associados do sindicato, mas já prepara projeto para participar de editais do governo estadual.
Em parceria com a Universidade de Caxias do Sul será desenvolvido um diagnóstico regional e sustentável da cadeia do basalto, visando prospectar reservas e mercados. Em 2023, integrantes do APL participaram de viagem institucional à Itália para conhecer a Escola de Mosaico de Fiuzi. Receberam informações sobre as técnicas de mosaicos com rochas, que serão transmitidas em forma de cursos para crianças ou pessoas com mais de 60 anos.
O basalto é uma rocha vulcânica e, devido à formação, permite a extração manual de suas camadas. Muito utilizada na construção civil, em itens como passeio público, pode ser usada também como artigo de beleza natural para ambientes internos.
Arranjo Metalmecânico da Serra prioriza feiras e eventos
Fórum da Cadeia Automotiva tem sido o principal evento organizado pelo APL do segmento
As atividades do APL Metalmecânico e Automotivo da Serra Gaúcha tiveram início em 2003 por meio de parceiros e empresários visando organizar esforços conjuntos e otimizar recursos em favor do desenvolvimento da indústria da região. Constituído de direito em 25 de agosto de 2011, o organismo reúne sindicatos da indústria, como metalmecânico e plástico, universidades e organizações públicas e privadas. Nas estimativas de Paulo Scopel, diretor-presidente, o APL representa em torno de 10 mil empresas nos municípios de abrangência do Corede Serra.
Conforme o diretor, o APL tem papel importante na articulação de políticas para o desenvolvimento econômico e social das comunidades. Admite, no entanto, que a atuação foi minguando ao longo dos últimos anos, principalmente pela perda de diretrizes com as trocas de governos. “Os valores destinados nos editais são baixos e não contemplam as demandas dos APLs”, afirma. A organização da Serra é uma das três definidas como enquadradas no programa, com projeto em desenvolvimento em parceria com o Estado.
O principal projeto do APL é a realização anual, durante a programação da Mercopar, em Caxias do Sul, do Fórum da Cadeia Automotiva, que terá sua quinta edição neste ano – a primeira, em 2021, ocorreu de forma virtual em razão da Covid-19. O evento visa compartilhar tendências para atualização da cadeia automotiva, contribuindo para o melhor entendimento do momento e dos movimentos tecnológicos que estão direcionando os negócios.
Scopel salienta que, mesmo com o recurso estadual, é necessário buscar parceiros privados para custear o investimento na organização do evento, que tem oportunizado a presença de palestrantes de renome nacional e internacional. “É um evento que tem se fortalecido a cada edição, pois trata de assuntos atuais para o setor. A edição deste ano está confirmada e será mais robusta que as anteriores. A repercussão tem sido muito positiva, conferindo visibilidade a quem patrocina, o que se reflete num interesse maior de investimento por empresas ligadas ao setor”, avalia.
Para este ano o valor destinado pelo Estado para o projeto é de R$ 95 mil. Em anos anteriores, de acordo com Scopel, os recursos eram bem mais elevados, o que permitia, inclusive, que o APL assumisse custos para a participação de empresas de pequeno porte em feiras, como a Mercopar. Outra ação do APL é a participação em feiras técnicas e profissionais por meio da formação de caravanas para visitas ou organização de espaço coletivo para empresas.
O diretor-presidente frisa que as entidades têm mantido contatos frequentes com o Estado demandando a necessidade de aportar mais recursos nos editais e mostrando os benefícios que os APLs já introduziram nas regiões onde estão funcionando e como podem ajudar ainda mais.
“O governo tem projeto para melhorar o APL, sabe da sua importância para a economia”, observou. As empresas ligadas aos APLs têm benefícios adicionais quando se habilitam para obtenção de financiamentos pelo Fundopem.
Prestação de serviços suporta a atuação no Médio Alto Uruguai
Região tem uma das maiores concentrações de agroindústrias familiares
Constituída em agosto de 2013 por 28 entidades, a Agência de Desenvolvimento do Médio Alto Uruguai (Admau) é a gestora do APL Agroindústrias Familiares e Diversidade do Médio Alto Uruguai e Rio da Várzea. O organismo obteve reconhecimento pelo governo um ano antes, especificamente para o Médio Alto Uruguai. Em função de similaridade territorial e de objetivos, foi agregado o Corede Rio da Várzea, totalizando 43 municípios envolvidos.
A Admau, que substituiu a Universidade Regional Integrada de Frederico Westphalen, primeira entidade gestora do APL, também foi criada para prestar serviços, principalmente para a formalização das agroindústrias familiares. A região abrangida, de acordo com Eliseu Luis Liberalesso, diretor-executivo da organização, detém um dos maiores contingentes de agroindústrias no estado, superando 350 empreendimentos. Também são representativas as cooperativas e propriedades de integrados de suínos. Frederico Westphalen e Palmeira das Missões são os municípios de maior representação da atividade na região.
Liberalesso destaca que a restrição de recursos para os APLs iniciou no governo de José Ivo Sartori por diversos fatores. O último valor substancial foi repassado no final do governo de Tarso Genro, em 2014, com o qual foi criada uma plataforma digital denominada Alimento de Origem, ainda ativa. Composta por vários módulos, foi desenvolvida em parceria com a Universidade Federal de Santa Maria-Campus Frederico Westphalen, para atender demandas de rastreabilidade de produtos vegetais; proporcionar a ampliação de canais de comercialização por meio da vitrine de produtos, lojas online e feira virtual; e fornecer funcionalidades necessárias para a implantação do Serviço de Inspeção Municipal (SIM).
Sem verba estadual, a Admau passou a ter sustentação financeira por meio da oferta de serviços especializados para diferentes organismos da região, mas especialmente aos municípios na formatação do SIM. Liberalesso explica que a agroindústria é um nicho de mercado alternativo, mas de muitos gargalos, em especial quanto à legalização. “As prefeituras precisavam criar os serviços de inspeção, mas faltava orientação. Criamos assessoria com um grupo de profissionais para contribuir tecnicamente com as administrações públicas e empresas”, destacou.
Pela falta de ajuda pública para avançar nesta política, Liberalesso define que a continuidade efetiva das organizações tem sido o grande problema dos últimos 10 anos. “A sobrevivência se deu pela parceria com universidades e a necessidade de serviços legais dos municípios, que sozinhos não conseguem dar a resposta. As agroindústrias demandam soluções porque querem crescer”, ressalta.
O gestor destaca que a carente estrutura pública dos municípios compromete a oferta de atendimento similar aos serviços de inspeção do Estado e União, gerando dificuldades para que as agroindústrias acessem mercados maiores. Na avaliação do diretor, já existe potencial econômico de nicho para ampliar a oferta a mercados maiores, condição que vai facilitar a venda no ganho de escala. “Já temos um bom número de empresas legalizadas que vendem localmente a maioria dos produtos. Mas um processo legalizado com as equivalências necessárias para vender em todo o País é vital”, frisa.
A consultoria para a implantação do serviço de inspeção é prestada aos municípios por profissionais habilitados, os quais orientam quanto à elaboração do arcabouço legal e às demais exigências necessárias para padronização e correto funcionamento do SIM. Para conferir legalidade à produção das agroindústrias de produtos de origem animal, a Admau disponibiliza um profissional para a criação e implantação da legislação, bem como para realizar a execução do serviço de inspeção.
Outro serviço supre a exigência legal de ter responsável técnico nas agroindústrias. Para sanar essa demanda, a entidade coloca à disposição do poder público, a possibilidade de contratar o responsável técnico como forma de incentivo às agroindústrias. O serviço também pode ser contratualizado diretamente pelos empreendimentos. Outra frente de atuação é o apoio às agroindústrias na venda da produção. Construído a partir do debate coletivo da governança, o selo Nosso Gosto identifica a origem geográfica dos produtos originários do APL. O selo dá destaque aos produtos pela sua identidade visual, garantindo também a qualidade sanitária.
Vale do Taquari aposta no turismo
Produção das agroindústrias é destacada em feiras e eventos
Enquadrado no programa estadual em agosto de 2013, o APL das Agroindústrias Familiares do Vale do Taquari tem a participação de 40 agroindústrias familiares, duas cooperativas e sete empreendimentos nas áreas de artesanato, hospedagem e oferta de serviços de alimentação no meio rural, como pizzaria, café colonial e restaurante.
O organismo é gerido pela Fundação Alto Taquari de Educação Rural e Cooperativismo (Faterco), que tem sede junto ao campus da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul. A coordenadora do APL, Eliane M. Kolchinski, destaca o recebimento de verbas públicas em vários exercícios, de forma intercalada, aplicados em projetos e na sustentação das atividades – o último repasse foi em 2021.
O APL das agroindústrias é um dos três organismos considerados enquadrados, com projetos em parceria com o Estado por meio de editais. “O próprio governo nos alertou que deveríamos trabalhar pela sustentabilidade do APL. Portanto, com ou sem governo, precisa funcionar, porque o projeto é muito importante. Precisamos de apoio, mas não podemos depender só do governo. Desde 2022 desenvolvemos diversas ações na região para assegurar os recursos necessários”, enfatiza. A coordenadora reconhece, no entanto, que é preciso retomar o debate em torno da legislação dos APLs para fortalecer os existentes e ampliar para outras regiões.
Uma das prioridades é a promoção do turismo na região para melhorar a situação das agroindústrias, com as quais foi feito um trabalho de legalização e a realização de cursos de capacitação e gestão. A articulação iniciou em 2021, coincidindo com o anúncio da construção do Monumento Cristo Protetor, em Encantado. Em abril de 2023, o APL recebeu da Prefeitura uma área próxima ao ponto turístico e da Associação Amigos de Cristo um contêiner para a instalação de um espaço comercial.
Denominado de Armazém APL, o local passou por melhorias na infraestrutura em 2024, permitindo seu funcionamento aos sábados e domingos, das 8h30 às 17h, para a venda de produtos de 30 agroindústrias familiares associadas aos turistas que visitam o monumento e comunidade local. Em 2022, o APL criou um canal virtual de vendas de produtos dos associados, reestruturado no ano passado para facilitar o acesso às compras. No endereço é possível encontrar 168 itens à venda.
Eliane frisa que algumas agroindústrias estão preparadas e recebem turistas nas propriedades. Outras, no entanto, enfrentam falta de pessoal e estrutura para o atendimento. Nesses casos, conforme a coordenadora, a participação é por meio de produtos colocados à venda em eventos. “Pelo bom trabalho realizado, conseguimos parcerias importantes com o Sebrae, prefeituras, Amturvales, sindicatos de trabalhadores e outras entidades empresariais e públicas, o que facilita a geração de atividades, incluindo a participação em feiras e oferta de cursos. Algumas ações exigem recursos públicos, outras podem ser feitas de forma privada”, comenta.
O APL participou, em 2024, do Promotur, ação organizada pela Amturvales e Sebrae em parceria com empreendimentos e instituições da região. O objetivo é promover o turismo do Vale do Taquari com a participação em feiras e eventos no estado e fora dele. Também é apoiador de projeto coordenado pela Amturvales que propõe a estruturação do turismo rural no Vale do Taquari a partir das agroindústrias familiares. O projeto é executado com recursos aprovados em Consulta Popular e beneficia 20 empreendimentos.
A coordenadora estima que a região tenha mais de 100 agroindústrias familiares, de diferentes portes. Destas, 40 participam de forma efetiva nos cursos e nas iniciativas. “Temos potencial para crescer, mas depende muito do interesse em aderir”, salienta.
Eliane define o programa do APL como importante para a economia da região, pois tem propiciado um trabalho coletivo, que ficou mais evidente durante dois momentos críticos no estado: na pandemia da Covid-19 e nas grandes enchentes dos últimos anos, responsáveis por impactos diretos e indiretos na comunidade, com perda de vidas e de bens. “O APL contribuiu na recuperação das empresas, trabalhou de forma apoiada, compartilhando máquinas, transporte e aprendizado. O grupo quer crescer em conjunto”, reforça. Outro ponto é o envolvimento de fornecedores no sentido de promover compras coletivas de insumos.
APL Alimentos e Bebidas investe na interação entre as empresas de toda cadeia produtiva
Visitas às associadas fortalece a troca de experiências e de conhecimentos
O Arranjo Produtivo Local (APL) de Alimentos e Bebidas do Vale do Taquari foi reconhecido oficialmente em junho de 2022. É gerenciado pela Câmara da Indústria, Comércio e Serviços do Vale do Taquari (CIC-VT) e reúne cerca de 50 empresas dos mais diversos segmentos da cadeia produtiva de alimentos e bebidas.
Criado em 2021, o arranjo surgiu da vocação natural da região para o setor e hoje integra negócios de refrigerantes, cervejas artesanais, laticínios, doces, embutidos, panificação e empresas de toda a cadeia produtiva. A iniciativa abrange os 36 municípios do Vale do Taquari, onde se estima a existência de mais de 1.200 indústrias do segmento. Cidades como Lajeado, Estrela, Teutônia e Arroio do Meio destacam-se como polos estratégicos dessa produção. O segmento gera aproximadamente 16.600 empregos formais na região.
Sob a coordenação de Aline Eggers Bagatini, CEO da Fruki, o APL fortalece a união entre empresas e instituições em busca de inovação, qualificação e expansão de mercados. O projeto conta com parcerias estratégicas, como o Sebrae/RS, que apoia a estruturação do arranjo desde o início, e a Universidade do Vale do Taquari (Univates), que, por meio do Tecnovates, oferece serviços de P&D, capacitação e acesso a laboratórios.
Ainda há colaboração com o Senai e apoio de cooperativas de crédito, como a Sicredi, que disponibilizam linhas de financiamento específicas para o setor. O reconhecimento pelo governo também permitiu ao arranjo acessar programas como o Fundopem/RS e editais de inovação, além de participar de eventos estratégicos, como a Expointer, a Jornada da Alimentação e feiras do setor supermercadista.
Dados recentes do APL revelam o perfil das empresas participantes: 52% são micro e pequenas empresas, enquanto 38% são de médio porte. Um levantamento interno mostrou que, em 2024, 62% das empresas investiram na ampliação da capacidade produtiva, 57% direcionaram recursos para marketing e vendas, e 55% focaram em inovação e desenvolvimento de novos produtos.
* Roberto Hunoff é jornalista e correspondente do Jornal do Comércio em Caxias do Sul (RS)