Segunda-feira, 6 de Abril de 2026

Apagões expõem vulnerabilidade do setor elétrico e aceleram debate sobre investimento

 A sequência de apagões de grandes proporções em 2024 deixou milhões de brasileiros sem energia e causou prejuízos bilionários, expondo a vulnerabilidade do sistema elétrico, que se mostra pouco preparado tanto para catástrofes climáticas quanto para incidentes menores. 

 Os problemas vão desde as fortes chuvas no Rio Grande do Sul, que destruíram linhas de transmissão e romperam a crista de uma barragem de uma hidrelétrica, até uma pipa que caiu sobre uma subestação em São Paulo, deixando quase 1 milhão de imóveis sem energia. 

 O mais traumático episódio foi o blecaute na região metropolitana de São Paulo, que deixou 3,1 milhões de imóveis sem energia na área de concessão da italiana Enel. A energia foi restabelecida quase seis dias depois. 

 A Enel foi acusada de reduzir o quadro de eletricistas, cortar investimentos e aumentar o pagamento de dividendos aos acionistas. O ocorrido pautou as eleições municipais, escalando ataques entre governo federal, prefeitura e agência reguladora sobre rompimento de contrato e a responsabilidade pelas podas e fiscalização dos serviços. 

 As empresas do setor dizem que estão investindo bilhões e cobram mais incentivos ao investimento em resiliência. Por outro lado, o debate sobre o impacto destes aportes em uma tarifa de energia que já está muito alta ainda precisa ser feito. 

 Não é suficiente apenas o Brasil fazer medições da atmosfera se os países vizinhos não fazem direito”  — Marcelo Seluchi 

 A Enel informa que está fazendo o dever de casa investindo, por ano, quase o dobro do realizado pelo antigo controlador da concessionária, a AES. Além disso, de janeiro a setembro de 2024 foram aplicados R$ 1,48 bilhão, aumento de quase 20%. 

 O presidente da Enel Distribuição São Paulo, Guilherme Lencastre, enfatiza que para fazer frente ao avanço das mudanças climáticas, as redes de distribuição precisam de mais resiliência, o que requer aceleração de investimentos e modernização através do reconhecimento de forma anual e não a cada revisão tarifária. 

 “Uma das ações que estamos desenvolvendo é um projeto-piloto para aumentar a resiliência da rede em três bairros: Alto de Pinheiros (São Paulo), Parque dos Príncipes (Osasco) e Alvarenga (São Bernardo do Campo). Cerca de 60 mil clientes serão beneficiados com um investimento de R$ 36 milhões. A iniciativa inclui a intensificação de ações de automação, novas interligações entre os circuitos e a substituição da rede aérea por uma rede protegida e isolada”, diz. 

 Dentro da proposta de Lencastre sobre incentivo ao investimento em resiliência, o dilema reside no impacto que esses aportes têm sobre a tarifa do consumidor. Em uma análise regulatória, o professor Erik Rego, da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), destaca que, nos próximos anos, muitos ativos do sistema elétrico que operam há décadas vão chegar ao fim da vida útil e exigirão melhorias. 

 “Quando vence a vida útil, as empresas pedem à Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) a troca do equipamento e isso entra na base de remuneração regulatória, que impacta na tarifa. Mas as empresas têm receio de fazer essas trocas porque precisam antecipar investimentos e há uma pressão contra a Aneel de não elevar a tarifa”, explica. 

 A sequência de apagões de grandes proporções em 2024 deixou milhões de brasileiros sem energia e causou prejuízos bilionários, expondo a vulnerabilidade do sistema elétrico, que se mostra pouco preparado tanto para catástrofes climáticas quanto para incidentes menores. 

 Os problemas vão desde as fortes chuvas no Rio Grande do Sul, que destruíram linhas de transmissão e romperam a crista de uma barragem de uma hidrelétrica, até uma pipa que caiu sobre uma subestação em São Paulo, deixando quase 1 milhão de imóveis sem energia. 

 O mais traumático episódio foi o blecaute na região metropolitana de São Paulo, que deixou 3,1 milhões de imóveis sem energia na área de concessão da italiana Enel. A energia foi restabelecida quase seis dias depois. 

 A Enel foi acusada de reduzir o quadro de eletricistas, cortar investimentos e aumentar o pagamento de dividendos aos acionistas. O ocorrido pautou as eleições municipais, escalando ataques entre governo federal, prefeitura e agência reguladora sobre rompimento de contrato e a responsabilidade pelas podas e fiscalização dos serviços. 

 As empresas do setor dizem que estão investindo bilhões e cobram mais incentivos ao investimento em resiliência. Por outro lado, o debate sobre o impacto destes aportes em uma tarifa de energia que já está muito alta ainda precisa ser feito. 

 Não é suficiente apenas o Brasil fazer medições da atmosfera se os países vizinhos não fazem direito”  — Marcelo Seluchi 

 A Enel informa que está fazendo o dever de casa investindo, por ano, quase o dobro do realizado pelo antigo controlador da concessionária, a AES. Além disso, de janeiro a setembro de 2024 foram aplicados R$ 1,48 bilhão, aumento de quase 20%. 

 O presidente da Enel Distribuição São Paulo, Guilherme Lencastre, enfatiza que para fazer frente ao avanço das mudanças climáticas, as redes de distribuição precisam de mais resiliência, o que requer aceleração de investimentos e modernização através do reconhecimento de forma anual e não a cada revisão tarifária. 

 “Uma das ações que estamos desenvolvendo é um projeto-piloto para aumentar a resiliência da rede em três bairros: Alto de Pinheiros (São Paulo), Parque dos Príncipes (Osasco) e Alvarenga (São Bernardo do Campo). Cerca de 60 mil clientes serão beneficiados com um investimento de R$ 36 milhões. A iniciativa inclui a intensificação de ações de automação, novas interligações entre os circuitos e a substituição da rede aérea por uma rede protegida e isolada”, diz. 

 Dentro da proposta de Lencastre sobre incentivo ao investimento em resiliência, o dilema reside no impacto que esses aportes têm sobre a tarifa do consumidor. Em uma análise regulatória, o professor Erik Rego, da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), destaca que, nos próximos anos, muitos ativos do sistema elétrico que operam há décadas vão chegar ao fim da vida útil e exigirão melhorias. 

 “Quando vence a vida útil, as empresas pedem à Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) a troca do equipamento e isso entra na base de remuneração regulatória, que impacta na tarifa. Mas as empresas têm receio de fazer essas trocas porque precisam antecipar investimentos e há uma pressão contra a Aneel de não elevar a tarifa”, explica. 

 

 O CEO da transmissora Isa Energia, Rui Chammas, afirma que está conduzindo um estudo para mapear as variáveis climáticas com potencial de impactar a infraestrutura da empresa nas próximas décadas. As conclusões serão apresentadas à Empresa de Pesquisas Energéticas (EPE) para que uma decisão seja tomada. 

 “Quando a gente tiver a clareza de qual subestação que corre um risco probabilístico de ter um problema de inundação, por exemplo, vamos trabalhar em uma decisão: faço o investimento para evitar que essa probabilidade se materialize ou corro o risco? É essa a discussão que queremos ter na sociedade”, acrescenta Chammas. 

 O presidente da CPFL Energia, Gustavo Estrella, descreveu a tragédia climática no Rio Grande do Sul como a maior de caráter humanitária e ambiental enfrentada pela companhia. As chuvas intensas e contínuas provocaram enchentes devastadoras, resultando em centenas de mortes e forçando cerca de 630 mil pessoas a deixarem suas casas. 

 A infraestrutura do Rio Grande do Sul foi severamente afetada. Por conta disso, o Ministério de Minas e Energia (MME) pediu a retirada do Lote 2 do último leilão de transmissão, para fazer uma reavaliação dos traçados das linhas no Estado. 

 A RGE, controlada pela CPFL, é responsável por cerca de 65% da energia consumida no Estado. Segundo Estrella, a resposta da empresa foi no sentido de elevar os investimentos. No segmento de distribuição, a empresa pretende aportar R$ 4,7 bilhões durante 2024. Desse montante, R$ 1,8 bilhão será destinado para RGE, aumento de 40% em relação à média do ciclo anterior de 2019 a 2023. 

 “Temos uma situação de curto prazo inesperada sobre a frequência e dimensão dos temporais que temos visto. Isso traz o desafio de entender o que mais pode ser feito”, afirma. “Precisamos realmente melhorar a nossa capacidade de prever eventos climáticos extremos”, acrescenta. 

 Essa dificuldade em prever com precisão o clima tem gerado custos, mesmo quando nada acontece. Na semana seguinte ao apagão em São Paulo, havia previsão de outro temporal. Uma força-tarefa foi então formada, envolvendo a prefeitura, o corpo de bombeiros, a concessionária local e equipes de outros Estados, mobilizando milhares de técnicos para um evento que, no fim, não ocorreu. 

 O presidente da desenvolvedora de software corporativo IFS para a América Latina, Lávio Falcão, diz ser urgente que as empresas do setor elétrico se associem com companhias de inteligência artificial, fornecendo tecnologias para reduzir perdas de energia; prever padrões de consumo; otimizar a distribuição e promover a integração eficiente de fontes de energia renováveis, como solar e eólica. 

 Se os grandes eventos assustam, os pequenos também causam impacto. Em setembro, um curto-circuito em uma subestação da Eletrobras, provocado por uma pipa, deixou 942 mil imóveis sem energia nas cidades de São Paulo e Guarulhos, na região metropolitana. A Eletrobras disse que contratou sistema de proteção com instalação de redes que reduzirão a chance de as pipas atingirem a rede elétrica. 

 Em nota, a empresa informou que tem a previsão de investimentos de até R$ 3,5 bilhões anuais para o período de 2024 a 2028 em transmissão de energia. Nos ativos de geração, a previsão de investimentos para manutenção e modernização, para esse mesmo período, totaliza R$ 6 bilhões. Já em resposta direta aos desafios impostos pelas mudanças climáticas, a empresa criou um centro integrado de monitoramento e inteligência meteorológica que trabalha em tempo real, com geração de previsões com base em dados coletados e emissão de boletins diários. 

 O meteorologista e coordenador-geral de operações e modelagem do Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais), Marcelo Seluchi, reconhece que a ciência meteorológica tem certas limitações e as previsões de curtíssimo prazo ou de longo tempo e os volume exatos de precipitação ainda são difíceis de prever em qualquer lugar do mundo. Além disso, os tipos de sistemas meteorológicos que passam pelo Hemisfério Norte são mais previsíveis e a região tem mais estações meteorológicas. 

 “Não é suficiente apenas o Brasil fazer medições da atmosfera se os países vizinhos não fazem direito porque os sistemas meteorológicos não respeitam fronteiras e o que afeta o Brasil vem de outros países (…) Neste ponto a meteorologia da América do Sul fica devendo, já que poucos países fazem uma medição razoável, como Brasil e Chile”, avalia Seluchi. 

 

 

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