Antimatéria é transportada pela primeira vez

[Imagem: CERN]
Anticarga
Depois de anos de preparativos, o que parecia impossível virou realidade: Uma carga de antimatéria foi transportada pela primeira vez como uma carga de matéria comum, a bordo de um caminhão.
O trabalho para construir tanques para guardar antimatéria já dura mais de uma década, mas transportá-la exige um aparato mais aprimorado.
O Experimento BASE-STEP, conduzido por físicos do CERN, consiste em uma “mala” de uma tonelada, medindo 1,9 metro de comprimento, 0,8 metro de largura e 1,6 metro de altura.
A equipe conseguiu acumular a nuvem de antiprótons – não é fácil produzir antimatéria em laboratório -, guardá-la na mala, desconectar tudo da instalação experimental, carregar a antimatéria no caminhão e confirmar que ela continuava na mala após o transporte. Isso é uma conquista notável, visto que a antimatéria é muito difícil de preservar, aniquilando-se imediatamente ao entrar em contato com a matéria comum.
A carga em si não era tão pesada: Uma nuvem de 92 antiprótons perfeitamente isolada dentro de um recipiente criogênico conhecido como armadilha de Penning, uma espécie de garrafa para guardar antimatéria – quanto ao peso, sempre houve dúvida se antimatéria pesa, ou se ela cai para cima.

[Imagem: CERN]
Transporte de antimatéria
A antimatéria é uma classe de partículas naturais quase idêntica à matéria comum, exceto pela inversão da carga elétrica e do momento magnético. De acordo com as leis da física, o Big Bang deveria ter produzido quantidades iguais de matéria e antimatéria. Contudo, se assim foi, essas partículas iguais, porém opostas, deveriam ter-se aniquilado rapidamente, deixando um Universo vazio. Como nosso Universo é composto predominantemente de matéria, o destino da antimatéria é um dos maiores enigmas não respondidos da ciência.
O transporte de antimatéria de um local para outro é parte dos esforços para tentar compreender um pouco mais a respeito da antimatéria em si e do enigma do seu desaparecimento.
A “fábrica de antimatéria” do CERN é o único lugar no mundo onde antiprótons podem ser produzidos, armazenados e estudados. Dois desaceleradores sucessivos, o Desacelerador de Antiprótons (AD) e o Anel de Antiprótons de Energia Extrabaixa (ELENA), fornecem diversos experimentos com antiprótons de baixa energia – quanto menor a energia, mais fácil é armazená-los e estudá-los.
A possibilidade de transportar a antimatéria significa que as antipartículas poderão ser levadas para serem estudadas em outros laboratórios, eventualmente equipados com equipamentos mais precisos. Mas este primeiro teste ainda foi provisório, com um sistema de resfriamento que não suportaria longas viagens.
“Para chegarmos ao nosso primeiro destino – nosso laboratório de precisão dedicado na HHU [Universidade Heinrich Heine em Dusseldorf], na Alemanha – levaríamos pelo menos 8 horas,” contou Christian Smorra, membro da equipe. “Isso significa que teríamos que manter o ímã supercondutor da armadilha a uma temperatura abaixo de 8,2 K durante todo esse tempo. Portanto, além do hélio líquido, precisaríamos de um gerador para alimentar um criorrefrigerador no caminhão. Atualmente, estamos investigando essa possibilidade.”
No entanto, o maior desafio permanece quando se chega ao destino: Descarregar a antimatéria, transferindo os antiprótons para um novo experimento sem que eles desapareçam.
